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Tirar os ponteiros ao relógio, sem perder tempo

Aquilo que mais me chateia, nesta vida, deve ser aquela corrida em que sobrevivo, aos meus dias, intermináveis. O despertador toca. Eu corro. Preparo-me para mais um dia, tal e qual, como se fosse uma maratona. Olho para o relógio. Já estou atrasada. Corro. Desespero. Chego ao carro. Trânsito. Corro. Chego ao trabalho. Corro. Almoço, entre papéis e tarefas a terminar. Corro. Vou buscar os miúdos à escola. Corro. Janto, entre detalhes da educação que lhes vamos dando. Corro. Beijos fugidos, enquanto deitamos as crianças. Corro. Cama. Eu paro. O meu cérebro continua.

Assim, vamos sobrevivendo. Numa correria seRS_tirarosponteirosaorelogiosemperdertempo_1m fim, a que o nosso corpo não escapa, e o nosso cérebro não debanda. Eu corro, mas sem saber porque acelero, ou do que fujo. Em mais uma crise existencial, a minha alma tenta fugir desta pressa, que se tornou viral. Qual doença, isto é o pior contágio, do séc. XXI!

Quanto mais fazemos, mais queremos fazer. Não queremos parar – afinal, já o velho ditado ressoa – “quem para, morre”. Então, porque me sinto mais morta do que se estivesse parada e inundada de ócio? Quero fugir e o tempo não deixa, mas eu corro. Não por mim, mas por aquilo que tenho de fazer. Como eu, tantos outros. Estaremos certos?

Podes-me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente?“ (Séneca)

Bem, apesar de tudo, eu valorizo o meu tempo. Sei que hoje é presente, ontem foi passado e o amanhã será futuro. O que não sei é porque sinto esta ânsia de correr, esta vontade louca de me apressar e esta frustração de nunca mais lá chegar. Séneca, mais concretamente, na sua obra Da economia do Tempo – onde descreve a importância de sermos mais e melhores e, portanto, fazer mais e melhor com o nosso, escasso, tempo – vê toda a minha correria com bons olhos. Estou a fazer o melhor que posso, com o pouco tempo que tenho, sem dedicar-me à indolência.

Porém, Russel, com o Elogio ao Ócio, veio despertar aRS_tirarosponteirosaorelogiosemperdertempo_2 minha atenção, para algo que já me tinha ocorrido: se eu estou sempre a correr, como vou ter tempo para aprender a andar? Metaforicamente, quero eu dizer. Eu já sei andar e fiz da corrida a minha arte, mas não tenho tempo para passear, com aqueles que amo, para festejar, cada vez que recebo o meu salário e para ir de férias, cada vez que faço pausa no trabalho. Entendem o que quero dizer? Eu aprendi a fazer tudo isto, mas não o saboreio, pratico, ou percebo. Faço-o de modo automático, sem tomar consciência. Deixo-me ir, embalada na pressa e no correr.

Segundo Russel, “num mundo em que ninguém seja compelido a trabalhar mais do que quatro horas por dia, todas as pessoas que possuíssem curiosidade científica seriam capazes de satisfazê-la e todo o pintor seria capaz de pintar sem passar por privações, qualquer que seja a qualidade das suas pinturas. Jovens escritores não precisarão de procurar a independência económica indispensável às grandes obras, para as quais, quando a hora finalmente chega, terão perdido o gosto e a capacidade. Homens que, no seu trabalho profissional, tenham-se interessado em alguma fase da economia ou do governo, serão capazes de desenvolver as suas ideias sem a distância académica que faz o trabalho de economistas universitários frequentemente parecer fora da realidade. Médicos terão tempo para aprender sobre o progresso da medicina, professores não estarão a lutar exasperadamente para ensinar por métodos rotineiros coisas que aprenderam na juventude, que podem, no intervalo, terem-se revelado falsas.”

Vamos lá ver se isto se aplica ao meu peculiar caso.RS_tirarosponteirosaorelogiosemperdertempo_3

Sempre fui excelsa escritora, nas minhas horas vagas. Continuo a escrever, enquanto corro. Contudo, já não é o mesmo. Martelo o teclado, em vez de deslizar, docemente, as ideias para palavras. Mato horas na escrita, quando, antes, apreciava segundos a derreterem-se em dias, enquanto as frases surgiam.

Digo, com orgulho, que dou o melhor de mim, todos os dias. Falta-me tempo, falta-me forças nas pernas. E aí apercebo-me: já não corro. Tropecei. Caí.

Por vezes, a queda é uma doença. Outras, é um susto amoroso. Existem de todo o tipo de tropeções: diversos tamanhos, diversas origens, diversas consequências.

Caí e levantei-me. Percebo que posso correr, mas prefiro andar. Será medo? Não! Hoje, sei que o tempo passa, mas não morre. Lembro-me do que fiz ontem, sei o que quero fazer, neste instante, e imagino como passarei as 24 horas de amanhã. E se faço isso, então é porque continuo viva.

E é exactamente isto, meus caros leitores, queRS_tirarosponteirosaorelogiosemperdertempo_4 vos quero dizer. O meu dia tem o mesmo tempo que tinha antes. 24 horas contadinhas, que me tentam escapar. Agora, não corro atrás delas. Ando, coladinha, a elas. Faço tudo o que fiz, no trabalho, em casa, na familia, com os amigos. Faço mais, até, porque sei que mais do que fazer e sobreviver, é preciso gostar e viver.

Já não corro para algo. Ando com ânsia de viver. Tirei os ponteiros ao relógio, sem nunca perder tempo. E você? Vai ficar aí parado? O relógio não espera, por si!

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