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Sociedade

” O inferno são os outros” Jean-Paul Sartre

ou a desresponsabilização

Há momentos da vida em que os acontecimentos não nos correm de feição. Por muito que nos esforcemos, por muito que tentemos, as situações não vão ao encontro do que desejamos. A frustração toma conta de nós, porque parece que não temos a capacidade de reverter o ocorrido, de modificar as condições. E às vezes, não está mesmo. O que, em determinada perspectiva acaba por ser um alívio. Já pensaram se assentasse em nós a possibilidade da resolução de tudo? E os conflitos de interesses que isso geraria, se cada um tivesse uma determinação diferente?

Acho curioso, sempre achei, o deixar nas mãos de Deus, Universo, Acaso, o que queiram chamar. Ultimamente até que percebo, porque de facto não controlamos tudo, e é uma acção de fim de linha, mas não deixo de pensar que, de alguma forma, é uma desresponsabilização. É um lavar de mãos de Pôncio Pilatos, fiz tudo o que pude…Em outros casos, nem se fez nada, ou fez-se pouco, mas espera-se que o mundo entre nos eixos e nos sirva o desejado, só porque assim o ambicionamos.

No entanto, pior que que deixar na eventualidade, ou mesmo atribuir-se a si próprio responsabilidades e domínios maiores do que os que de facto é capaz de afectar, é culpabilizar o outro. Não é que o outro seja isento, obviamente que terá também a sua quota parte na história. Mas o que não podemos fazer é fazer pesar sobre o outro uma culpa que deriva apenas do nosso comportamento ou atitude. Não podemos culpar o outro de factos que a nós – e apenas a nós-  compete orientar.

Em tempos tive um colega que era um aluno extraordinário em tudo o que fosse ciências exactas, mas não tanto em cadeiras que dependessem da interpretação e escrita de textos. A sua reação às notas altas vinha sempre baseada na sua excelência, enquanto as notas menos boas eram sempre justificadas pelo facto de o professor não gostar dele. O desequilíbrio não acabava aqui, e por várias vezes o vi revoltado com as notas superiores de outros elementos do próprio  grupo de trabalho, alegando que eram os queridos do professor ou qualquer desvirtuamento do género, sem qualquer reconhecimento pelo mérito alheio, que esse era todo seu, evidentemente. A culpa  do desmérito era sempre dos outros.

Conheci um casal de gordinhos. Ela terá decidido fazer uma reeducação alimentar com o objectivo de perder peso, enquanto ele não estava minimamente preocupado com o assunto. Ela procurava eliminar alguns dos alimentos perniciosos da sua vista, mas o marido insistia em trazê-los para casa, chegando mesmo ao ponto de a brindar com um doce que trouxe daquela pastelaria que ambos frequentavam e que tinha aqueles bolos fenomenais. Ela sentiu-se desapoiada, e mais do que isso, sentia como se ele estivesse a procurar boicotar o seu esforço. De qualquer forma, ela poderia dizer que não. Estava nas suas mãos persistir no esforço e não deixar-se tentar por eventos externos. Ou então deixar-se tentar, mas tendo a noção de que é a sua resposta ao facto que a responsabiliza, não o acto do marido em sim, que até poderia ter a melhor das intenções, afinal todas as dietas têm um dia da asneira. Mas ele é que era o culpado porque lhe tornava a vida difícil.

Em termos de trabalho, o mesmo acontece frequentemente. Se há perfil de tarefas, caberá a cada um as responsabilidades inerentes às mesmas. Se sou comercial e procuro aumentar as minhas vendas, terei que puxar a mim certas decisões e iniciativas, procurando parcerias, definindo planos de acção, orçamentos, etc, não atribuindo as mesmas à equipa de comunicação, por exemplo, responsabilizando-a pelo meu fracasso. Obviamente que é necessária uma acção concertada, mas não posso esperar que outro, em sobrecarga, resolva os meus dilemas. A complementaridade assenta num principio de não sobreposição mas de conjunção: eu cuido do meu pedaço de terra, sou responsável por ele, e tu terás outras responsabilidades.

A questão é simples para aquele que acusa o outro, em última análise, pela sua infelicidade: encontrar um culpado. O foco deixa de estar na resolução, que assenta na premissa indispensável  de tomar em mãos as consequências das suas atitudes. O importante é soltar a agua do capote, desresponsabilizar-se. A existência de um causador permite que se mantenha no limbo que é conivente com a eternização da situação, afinal nada podemos fazer, o outro é que podia ter feito/fazer diferente.

No entanto, o acusado pode não aceitar essa culpabilização, e de forma lógica tornar claro que essa questão não é sua, não preenche as suas tarefas ou não se enquadra no seu âmbito. E aí o acusador reage habitualmente de forma defensiva e negativa, como acontece sempre que alguém tenta demonstrar a uma pessoa de fortes convicções que poderá não estar a ver a situação da forma correcta, ou pelo menos não estará a tratar de forma cordata aquele que, sem grandes cerimónias, acusou de culpado. Aqueles que tentam desconstruir uma perspectiva são quase sempre recebidos com arrogância, como se desmascarassem uma situação que se quer confortável. Mais uma vez, os outros como boicotadores da felicidade alheia.

Pelo que chegamos ao ponto da dificuldade do equilíbrio entre a aceitação dos limites do nosso empenhamento (a montante e  jusante), não fugindo das mesmas, mas também não nos excedendo. O que não pode mesmo acontecer é deixarmos nas mãos dos outros a expectativa de agirem além do que lhes compete, exigindo-lhes  frutos daquilo que é do nosso exclusivo foro.

E se o outro se usa da arbitrariedade dos limites para colocar sobre nós um ónus que não julgamos devido, resta-nos reagir de forma assertiva.

Em última análise, apenas nós podemos delimitar aquilo que aceitamos, ou não, do outro.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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