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Não é arrogância, é envolvimento

Um dos melhores anúncios de 2019 é da Nike e põe a nu uma forma de sexismo quotidiana. Finalmente alguém, com um poder deste tamanho, se chegou à frente para dizer que mostrar emoções não significa ser-se dramático. Ou que defender algo em que acreditamos não é uma manifestação de desequilíbrio mental.

Já enfrentei, vezes sem conta, este contra-senso que consome a alma de quem passa por ele. O que aprendi? Falar sobre algo que te apaixona é meio caminho andado para exibires um entusiasmo que os teus interlocutores levam a mal. Se estás envolvido com uma causa ou uma crença, o normal é os ânimos subirem à flor da pele, quando essa causa ou crença estão em debate. E isso não é negativo. Antes pelo contrário, prova que há alguma coisa a mover-te, nesta vida sem sentido atribuído à partida.

Na verdade, ter os ânimos à flor da pele não é sinónimo de voz exaltada. Com frequência, é pura e simplesmente uma explosão de entusiasmo. As consequências, no entanto, são geralmente negativas. Enquanto o teu sangue pulsa, a tua respiração ganha vigor e te sentes mais vivo do que nunca, há uma alma à espera de ser ofendida. E porque está à espera de sê-lo, e porque não é capaz de se envolver num tema como tu, encontra razões para se sentir ofendida, onde apenas existem motivos para uma interacção carregada de convicção.

Há cerca de cinco anos, pertenci a uma Sociedade de Debates universitária. Durante esse tempo, tive que defender, para efeitos de exercício, moções em que não acreditava. Era difícil mostrar entusiasmo. Mas era sobretudo deslumbrante perceber a emoção contida em cada discurso dos colegas que tinham mais experiência de oratória. Talvez tenham sido eles a dar-me a carapaça que me permite não pertencer ao grupo dos “sempre à beira de receber uma ofensa, com desgosto”.

Contudo, isto também significa que estou do lado daqueles que “ofendem tudo e todos, sem, na verdade, terem uma intenção mínima de ofensa na voz”. E isso, sim, é verdadeiramente dramático.

Florbela Caetano

Ligar o rádio é a primeira coisa que faço ao acordar. E isso já diz muito sobre uma jovem adulta, no século XXI. Como se este desajustamento não bastasse, gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Trabalho no primeiro. Procuro formas de me manter ligada ao segundo.

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