Vamos falar de como é ser adulto nos dias de hoje? Digo-vos já, se soubesse o que sei hoje, tinha-me deixado ficar quietinha na barriguinha da minha mãe.
Não sei se com vocês isso acontecia ou não, mas eu em miúda ansiava para chegar a adulta e imitar os meus pais, na rotina de ir trabalhar, chegar a casa e ter de fazer o jantar, entre outros cenários. Na altura claro que metia piada. O meu “emprego” era no jardim com as barbies e o trajeto do trabalho-casa não passava do terraço. Contas nem sabia o que era.
Mas agora o cenário mudou e digo-vos já que não acho muita piada como achava na infância.
Queremos seguir os passos dos nossos pais, estudar, arranjar emprego na área, comprar casa ou pelo menos sermos independentes.
Bem desta lista toda nem sei por onde começar. Talvez comecemos por arranjar emprego.
Tiramos o curso que queríamos, coisa que na altura dos nossos pais era impensável e depois começamos a saga seguinte: Arranjar emprego na área.
Grande parte dos jovens não conseguem emprego na área, sujeitando-se a outro emprego qualquer que dê algum dinheiro. Aqui já começa o início da desmotivação, pois estudámos tantos anos e não conseguimos emprego na área. Mas imaginemos que até conseguimos emprego na área. A seguir vem a próxima dor de cabeça: sair de casa dos pais?
Amigos, isto é quase impensável. Existem jovens com 30 anos que ainda moram em casa dos pais. E porquê? Perguntam vocês. Porque depois de arranjarmos emprego, vem outra complicação: o ordenado. Aquilo que ganhamos não bate com as rendas das casas. Eu vivi 6 anos em Lisboa e nunca foi sozinha. Sabem porquê? Porque o valor de uma renda de um T0 debaixo da ponte, era o meu ordenado todo. E como este corpinho ainda não se alimenta só a água e ar, obvio que tive de arrendar quartos. Esta é a realidade de grande parte dos jovens. Partilham casa com desconhecidos, pois só assim conseguem viver em Lisboa.
Eu já nem falo de comprar nem construir casa como os nossos pais fizeram, porque aí ficava sem o meu rim. Ou então construía uma barraca do tamanho da casota do cão. É verdade que hoje em dia os jovens têm mais acesso às informações, mais oportunidades, mas também têm mais obstáculos.
O ordenado e o valor das rendas são as principais causas para os jovens saírem cada vez mais tarde de casa dos pais. Quando saem. Existem alguns que nunca chegam a sair. Sabes quando é que fui viver de forma um pouco mais independente? Quando arranjei namorado. É triste, mas é a realidade. Só assim, a dividir casa com o nosso namorado, é que conseguimos sentir um pouco do que é ser independente. Mas desenganem-se, se pensam que os obstáculos acabam por aqui. Não. Uma desgraça nunca vem só. Para além destes fatores todos, levámos ainda com uma pandemia e uma guerra. Aí que maravilha. Se já nos arrastávamos pelas ruas do desespero, pior agora. Muitos voltaram para casa dos pais, como seria de esperar. Ser independente hoje como era na altura dos nossos pais, é cada vez mais uma realidade distante. O meu próprio pai diz isso. Ele sabe que eu jamais irei construir uma casa como ele fez com a minha mãe. E fico triste sabem. Porque estudamos, trabalhamos para conseguirmos ter uma vida minimamente confortável, porque já nem estou a falar de uma vida à Georgina, mas pelo menos sem ter de pensar se temos dinheiro até ao final do mês e isso cada vez é mais difícil.
São gerações diferentes, mas temos tantas ou mais dificuldades que no tempo dos nossos pais. São tempos diferentes e as dificuldades mudaram, mas elas existem e eu sinto isso todos os dias. Eu gostava de poder ser aqueles personagens dos filmes de Hollywood, que vivem sozinhas num lindo apartamento e que têm uma independência invejosa. Mas como isso não acontece, tenho de andar 2h de transportes públicos e chegar a casa às 20h, para no dia seguinte às 6h da manhã já estar a pé.
Escrito com o acordo ortográfico de 2020