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A confusão deste tempo

Seguro na chávena de café inseguro do dia e da hora em que me encontro. Os livros espalhados pelo chão, a loiça que se acumula e o som da primavera que irrompe pela janela é atropelado pelas ambulâncias. Recordam-nos a doença que chegou para ficar nos próximos meses. O passado e o futuro diluem-se num só dia que se estende por longos instantes. Reúno as horas que correm para decisões fundamentais como o que cozinhar, quando tomar banho e que série ver. A família e os amigos estão ali tão longe, à distância de um privilegiado clique. Pergunto-lhes o que fariam se saíssem? Uma esplanada, um abraço ou um mergulho. Tudo se imagina, por agora, dentro de casa e todos repetimos a tarefa quotidiana. Combatemos o vírus, pois claro. Afinal, o que mudou neste presente? As noites de sono transformaram-se em sestas, as horas em minutos o espaço e o tempo flutuam pelo mesmo dia em casa. Já se aperceberam?

Vivo este longo dia em casa talvez há dezoito dias. Talvez há mais. Assim de repente, sinto-me Leonard no meu próprio Memento. Não sei que tipo de amnésia o isolamento possa produzir mas a memória já não me permite distinguir entre o que fiz para jantar na sexta-feira passada e a notícia que li ontem. Parece-me há tanto tempo, anos até, quando recordo uma notícia desactualizada do dia de ontem. Já não sei precisar quando havia só 500 infectados, ou quando uns decidiram ir ver o mar ou quando o planeta começou a agradecer-nos por estar cada vez menos poluído. Demasiada informação sobre um só tema, num só dia. Um longo dia em casa. Estamos a lutar pela vida de todos dentro de uma estrura demasiado linear que nos confina a um só tema. O vírus e o medo que daí decorre. Mas não podemos paralisar perante o medo. Uma narrativa para ser rica necessita de mais dimensões que apenas esta. Como dos tempos que Santo Agostinho fala, a memória do presente passado e a esperança do presente futuro.

Quem se esqueceu da troika de 2008? Certamente, ninguém que pertença à classe média portuguesa. A palavra troika estava tão empoeirada que já há quem se apresse a colocá-la na boca do povo. A solução imposta pelo governo mais troikista que a troika foi simples, cortar as gorduras, privatizar à pressa e aumentar impostos. Para nos recordarmos do tacto destes senhores, nem o subsídio de maternidade escapava em sede de IRS. Uma dívida composta principalmente por endividamento dos bancos e pela compra de casa, e não tanto pela dívida pública ou externa, seria difícil resolver com outras soluções que não fossem o crescimento económico aliado à poupança dos privados. Pois bem, a geringonça mostrou como foi possível fazê-lo sem destruir vidas, direitos ou rectificar orçamentos. Devolvendo até rendimentos e dignidade à classe que forma a opinião pública no nosso país, a tal média.

O discurso viral de António Costa dedicado ao ministro das finanças dos Países (que por vezes optam por ser) Baixos antevê que a história não vai ser escrita pelas mesmas linhas desacertadas que nos subjugavam ao papel do bom aluno de Schäuble e isso oferece esperança ao povo. Esta é a altura para todos nos convencermos que os números financeiros não são um fim mas um meio. Só através de uma voz que defenda a solidariedade, coesão e confiança entre todos os países europeus este projecto poderá continuar a fazer sentido para Portugal. Chega (agora sim) de servintilismos bacocos a uma Alemanha que tem nas suas mãos, uma vez mais, a decisão de continuidade da verdadeira União Europeia.

Já se pisca o olho à crise económica e às soluções para a combater. Altura pródiga para o enriquecimento dos oportunistas. A febre do alojamento local, dos tê-zeros ruindo com o desaparecimento do turismo e a classe média agradecendo por não ser expulsa da cidade onde nasceu e sempre quis viver. Joga-se o futuro das PME´s que continuam a pagar salários, contas e fornecedores enquanto se encontram as portas fechadas com carteiras esvaziando-se a cada dia que passa. A economia real dos portugueses sobrevive aí e este é o momento para serem apoiados. Adiar pagamento de impostos, garantir emprego e isenção de rendas. Percebe-se assim a importância da intervenção de um Estado forte que mantenha o país sólido. Nacionalizem-se empresas em sectores estratégicos. Agora o Estado deve-se endividar para salvar vidas, postos de trabalho e a nossa dignidade. É esse o seu papel perante todos nós. Depois no futuro todos seremos chamados a cumprir com os nossos impostos. Esperemos que nessa altura exista memória futura dos que agora são ajudados por todos, e se evitem xenofobias estatais apoiadas em slogans pouco sérios sobre o saco de pancada favorito dos populistas: o Estado-providência que nos salva, seja na saúde ou numa economia doente.

Francisco Mouta Rúbio

Licenciado em Publicidade, trabalha em audiovisual e social media e está sempre rodeado por cultura, futebol e filosofia. Autor do podcast Dedo no Ar.

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