Uma guerra que não é nossa

Parece que a Guerra Fria ressuscitou, isto se alguma vez acabou. Talvez estava adormecida e os dois países precisavam de um motivo para a continuar. Um motivo que, possivelmente, não importa muito. O que importa é medir as forças. Uma guerra militar entre as duas potências seria impensável hoje, mas a guerra pode ter várias facetas e há confrontos piores do que os militares.

Cada um joga com as armas que tem e todos têm um objetivo. Nota-se também a tendência de se justificarem as decisões tomadas, utilizando como argumento os direitos das pessoas. No entanto, quem realmente se importa com o povo? Estamos no século XXI e, quando se pensa que deveríamos aprender com a história, vimos guerras intermináveis, cidades destruídas e famílias que perdem as pessoas de que gostam.

Um dos assuntos mais falados internacionalmente localiza-se na fronteira entre o chamado mundo ocidental e oriental – a Ucrânia, o país que tem sido o palco de confrontos internos. Confrontos que tiveram impacto a um nível internacional.

Com uma história turbulenta, o território que hoje conhecemos como a Ucrânia passou por varias outras nações, mas a presença russa foi a mais constante. É difícil agradar a um povo inteiro, mais difícil, quando dentro deste há grandes divisões, devido ao passado histórico, ou mesmo às diferenças culturais. A crise que hoje conhecemos tão bem começou com este confronto de ideias. Um país soviético que queria rumar para a Europa. No entanto, nem todos queriam este futuro.

Depois da queda do governo de Ianukovitch, o país não ficou em paz como a comunidade internacional pensou. Pessoas que acreditavam nele e que talvez até votaram, quando ele apresentou a sua candidatura, não aceitaram o novo governo interino de Oleksandr Turchynov. Novas ondas de manifestações começaram. A bandeira russa estava a ser colocada nos edifícios governamentais de muitas cidades, próximas culturalmente deste país, para apresentar o seu desagrado com o governo actual. Novas acusações internacionais. O desfecho mais visível deste acontecimento a nível internacional foi a anulação do G8, que teria a sua próxima reunião na cidade de Sochi.

A Crimeia foi a primeira região que se manifestou, com a chegada do novo governo, e, depois do referendo que anexaria esta região à Rússia, os laços internacionais ficaram quase que por um fio. As acusações foram feitas de parte à parte. Enquanto que Obama dizia que “ a Rússia é um poder regional, que ameaça alguns de seus vizinhos não por força, mas por fraqueza”, Putin relembrava a guerra de Kosovo e dizia que não se pode dizer que uma coisa é hoje branca, para amanhã ser preta.

As notícias têm nos dado conta da situação, que começou a espalhar-se por outras cidades, como Donetsk, ou Odessa. Têm-nos mostrado as várias opiniões políticas, tanto da Ucrânia, como as opiniões políticos de outros países, que acabaram por ser envolvidos, mesmo que indiretamente. Porém, impõe-se a questão: E as pessoas? Onde ficam elas? Não seria melhor avaliar um acontecimento, perguntando às pessoas o que acham dele? É, claro, que há pessoas a quem se dá voz, mas são pessoas nas manifestações, nos combates. Então e  as outras, cujas vidas foram mudadas mesmo que indiretamente. Não têm direito de falar?

Será que conhecemos mesmo a guerra que decorre a mais de três mil quilómetros? Segundo Pierre Charasse, diplomata francês, é preocupante ver como “numerosos cidadãos do mundo se deixam arrastar a uma russofobia nunca vista nos piores momentos da guerra fria. A imagem que nos dá o poderoso aparelho mediático ocidental e que penetra no inconsciente colectivo é que os russos são ‘bárbaros atrasados’ face ao mundo ocidental ´civilizado´”. Porém, não podemos culpar só o mundo ocidental desta tentativa de gerar apoio nacional ou internacional, talvez do outro lado da moeda, o processo é o mesmo, a informação é vista de outro lado e tenta-se gerar o apoio de outras pessoas. Nunca saberemos quem tem razão. Nunca saberemos quais são as razões verdadeiras de cada actor político, seja dentro do país, ou com poder internacional. Sobre o que se tem a certeza é que há mais de 40 milhões de pessoas que sofrem,  directa ou indirectamentente, com os acontecimentos. Há famílias destruídas e pessoas que deram a vida por uma revolução em que acreditavam, por um futuro que esperavam que fosse melhor.

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