Arejando o baú

Este artigo vem na senda do anterior, sobre os horrores da roupa infantil, para aqueles que, como eu, foram crianças nos anos 70 e 80. E muitos mais artigos conseguiria escrever sobre tantos outros hábitos estranhos e incompreensíveis, mas vou ter de me conter, que o mofo das memórias não é muito bom para a saúde pulmonar.

Permitam-me, mais uma vez, falar na primeira pessoa, a quem, acredito, se juntarão outras vozes concordantes. Hoje, venho falar-vos sobre aquela maravilhosa tradição do antigamente, que era prover, sobretudo a menina, desde cedo, de tudo aquilo que viria a precisar no seu porvir, isto é, roupa de aplicação doméstica e demais artefactos caseiros.

Pois também eu tive um baú. Castanho, com desenhos em relevo, talhados na madeira. Dentro dele, acumularam-se, talvez desde os 8 / 9 anos, tudo aquilo que as tias-avós e as colegas da avó achavam essencial uma doce e prendada menina ter. Esse conteúdo vinha previsivelmente no aniversário e no Natal (um entusiasmo só!). Quanto a mim, via nele apenas um motivo de diversão: correr o recorte na madeira com giz branco, delimitando árvores, cavalos e afins, dando um contraste colorido àquele móvel imenso. Depois limpava, para não deixar vestígios. Por isso. por favor, não contem a ninguém, que ainda me oferecem mais alguma coisa, quem sabe um ferro de queimar leite-creme, utensílio imprescindível e de uso assíduo.

Agora que a memória vai regressando, apresenta-se com aquele terrível cheiro a cânfora. Já estou até a coçar o nariz. E como as lembranças são como as cerejas, recordo a minha avó que dizia: comichão no nariz? Amor de velho, ciúme de novo. O que traz de novo a ideia de preparação da jovem pré-púbere para o casamento em termos de gata borralheira, com um dote de panos extraordinário. Tudo se relaciona com tudo.

No rol, constavam vários itens, não tão mimosos e castiços como na canção:

Água fria, da ribeira
Água fria que o Sol aqueceu
Ver a aldeia traz à ideia
Roupa branca que a gente estendeu
Três corpetes, um avental
Sete fronhas e um lençol
Três camisas do enxoval
Que a freguesa deu ao rol

Eram, por ordem de quantidade, panos da loiça, panos de pó, toalhas e guardanapos, bolsinhas de lanche, sacos do pão, naperons e atoalhados.

A tudo isto, juntava-se de quando em vez uns lençóis. Recordo especialmente duns brancos aos coraçõezinhos vermelhos, que combinavam perfeitamente com a minha camisa de dormir de menina com iguais motivos e cores. Mas, obviamente, nunca seriam contemporâneos no uso.

Em certa altura fui tão bafejada pela sorte, que recebi de uma colega da minha avó uma prenda que me foi apresentada nos seguintes termos: vais adorar! Tinha acabado de deixar as bonecas, aí pelos 9 anos  (precoce, sim) e devorava livros atrás de livros, pelo que a minha imaginação correu ao encontro de livros como os da Enid Blynton, das “Gémeas no convento de Sta Clara” e afins… Quando me foi dada a pegar a prenda de que tanto iria gostar, algo felpuda e volumosa, adverti-me a mim própria que não deveria voltar a confiar nos “ vais adorar” que me diziam. Era um cobertor de casal, laranja. Tudo o que eu queria desde (ainda mais) pequenina!

Ao enxoval não faltaram 3 camisas de noite próprias de senhoras de 80 anos. Beges, floridas, com umas golas-babete, duma sensualidade gritante. De susto, claro. Alguém que me desejava o divórcio ainda antes do casamento, presumo.

Eis senão quando, a moça aqui resolve comprar casa e finalmente por mão em tudo aquilo acumulado em cerca de 2 décadas. Esperando o esplendor, que em adulto supostamente temos outra perspectiva, tomei coragem e abri o baú.

Posso dizer-vos que não usei quase nada. Os lençóis e o cobertor laranja eram pequenos para a cama de 1.50 mts. As toalhas vinham a pares (rosto e bidé), mas de banho só havia uma, pelo que me perguntei que deveria ser uso apenas um elemento do casal tomar banho. Naperons, nem pensar, nunca usei. Minto, o meu ex-marido, teve a criatividade de colocar um numa mesa de sala de traço moderno, o que nos valeu umas boas gargalhadas. Sacos do pão, bolsinhas de lanche e afins, nunca foram usados. Toalhas de mesa e guardanapos, os mais práticos ainda cumpriram a sua função, já os de linho mantiveram-se na gaveta. Portanto, basicamente usei os panos de cozinha e de limpeza. O que me custa, asseguro-vos. Porque tenho noção da generosidade do acto das pessoas, para além do valor envolvido. O que não quer dizer que fosse adequado. Não foi.

E este desencontro continua a perturbar-me em outras coisas, algumas até de maior grandeza. Tem-me sido dado a ver casos em que pais constroem casas enormes a contar que os filhos aí residam na sua vida adulta, conjuntamente com a família que poderão (ou não) constituir. E dos casos que conheço, ninguém cumpriu o sonho paternal. Também não podem vender as casas, porque nelas residem os pais. Portanto, não cumpre a função de ajudar num outro investimento, por exemplo, a menos que os filhos assumam a vida sonhada pelos ascendentes e desconsiderem todas as opções divergentes.

E é este determinismo sobre a vida dos outros que me incomoda. Não seria mais adequado juntar algum valor numa aplicação financeira, p.ex,  que cresceria com a criança, e que esta poderia usar a seu critério quando se tornasse adulta? Eu penso dessa forma.

Comprar uma casa, ou qualquer outro projecto pessoal traz inerente o prazer de o preparar, adequar a si, de forma personalizada e única. Escolher os atoalhados, os lençóis, os tapetes, é tão prazeroso como escolher a primeira roupinha dum filho a caminho.

“Agora não dás valor , mas quando fores grande vais dar.”

Concluo, portanto, que não cresci.

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