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As palavras nunca foram flores

O coveiro só descobriu por acaso.

Tinha uma insónia atravessada no pensamento. Estava enrolado no cheiro, na luz, na coragem da noite quando um si bemol perdido entrou pela janela. Ou seria um lá sustenido? Não sabia, a nota era uma ave mas ele não conseguia ver bem no escuro. Sentiu a delicadeza urgente daquele som a tocar-lhe no peito. Sentou-se na cama. A nota esvoaçava desnorteada, enganara-se no caminho, batia no vidro, procurava uma saída, tinha compromissos.

Sem querer, encontrou de novo a rua.

Ele levantou-se da cama, um salto para o abismo, queria saber para onde ia o si bemol – já não tinha dúvidas, aquele tom de amarelo não enganava. Ia de pés descalços e à velocidade do som, encantado com a possibilidade de algo novo depois de tantos anos, sem reparar em nada. Poderia ter atravessado a aldeia, o mundo, o tempo. Só parou quando viu a nota a passar por uma fechadura impossivelmente pequena.

Estava no cemitério. Mas nunca tinha visto aquela porta.

Era uma porta de metal enferrujada que não estava em lugar nenhum. À volta, o vazio. Ele tocou nela com cuidado, um género de carícia piedosa. Pensava que também as pessoas oxidavam. Pensava que também ele estava a oxidar-se. Empurrou-a e entrou.

Reconheceu a voz imediatamente. Desceu as escadas de pedra íngremes até encontrar a luz. Uma sala iluminada por notas musicais. No centro, estava ela. Tinha menos idade, muito menos idade, mas era ela, sem dúvida nenhuma. Conhecia-a bem. Ela tinha sido a última pessoa que ele tinha visto, a última pessoa com quem falara, a última pessoa de que cuidara. E tinha sido a última pessoa que tinha enterrado. A aldeia estava abandonada, não sobrava mais ninguém. Talvez nem sequer sobrasse outra pessoa no mundo inteiro. Mas então, de onde viriam as palavras?

Sentou-se e ouviu-a cantar. À volta deles, tudo brilhava. A pele dela era feita de letras e de música. Ele fechou os olhos. Há tantos anos que não ouvia outra voz. Chorou baixinho. Que sorte aquela insónia que o tinha puxado para fora do sono. Que sorte voltar a sentir-se acompanhado.

Não soube quantos dias passaram, nem em que momento voltou a abrir os olhos. O tempo não lhe dizia mais respeito. Mas quando percebeu que estava na rua, já amanhecia. Tinha de voltar ao trabalho. Porque tinha muito trabalho, muito que enterrar. Bastava olhar para a pilha de palavras que o esperava. Cada dia chegavam mais. Todas estavam mudas. Mas poucas estavam mortas. A maioria ainda respirava, porque ninguém nos avisou. Ninguém nos avisou que depois de enterradas ainda doeriam mais.

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Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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