Feios, porcos e maus

Num bairro de lata, numa zona altaneira de Roma, vive a família de Giacinto. Podia ser em Lisboa, já que as duas cidades têm o mesmo número de colinas e à época a situação social não era tão diferente como se possa pensar. Cerca duma vintena de pessoas entre filhos, filhas, noras, genros e netos, para além da repugnante mulher e da mãe inválida e senil, há um espaço para todos, mesmo que seja demasiado apertado.

A barraca é miserável, coberta de miséria física e psicológica, mas onde todos têm sonhos de grandeza. À sua volta, mora o lixo e a falta de valores bem como a podridão humana. É um ver se te avias para sobreviver diariamente. Paredes meias com a miséria, habitam os sonhos que todos têm. Na parte nobre da cidade estão os arranha céus onde a filha mais nova faz limpezas.

É esta a primeira a levantar-se e a tratar da água. Antes disso brinca, pois ainda é uma menina. É jovem, mas responsável pois sabe que a vida é dura. Toma conta de outros, mais novos, numa espécie de infantário feito com restos de colchões e de sabe-se lá mais o quê. Um galinheiro humano onde a dignidade e a humanidade se esqueceram de aparecer.

A pensão da avó é o sustento certo e seguro de todos e de que se apropriam mês após mês. É um desfilar de parentes para a ir levantar aos correios e depois é de ir às lágrimas com a sua distribuição. Lágrimas duras e amargas de tanta dureza. É o motor de tantos arranques que se perdem pela vida. A avó é apenas um peão neste jogo da vida.

Giacinto dorme de arma na mão para proteger o seu tesouro, um milhão de liras que recebeu de indemnização por ter perdido um olho, e que muda constantemente de lugar, certo da cobiça da sua família. Para ele os filhos são uns inúteis e só o querem espoliar do seu mais bem precioso. Não são a sua família, mas apenas os seus carrascos.

Este filme é uma parábola sobre a vida e os seus meandros perigosos e certos. Mesmo reles e sem escrúpulos, há quem trabalhe nos mais variados empregos. Também há um que é ladrão, outro um mero “limpa casas”, um pedinte e outro que se faz passar por homossexual. Uma luta pela sobrevivência que nunca é fácil.

Entretanto, fica-se com uma resenha da vida naquele bairro onde todos os tipos de delinquentes, pequenos ladrões, aldrabões, arruaceiros e prostitutas, o povoam com a graça das famílias que os protegem e promovem. São verdadeiros modelos para os mais novos. Mesmo com detenções a acontecerem. E negócios paralelos que prosperam.

O dia a dia desta amoral, feroz e incontrolável família entra em aceso conflito quando um dia, Giacinto leva para a barraca uma divertida e gorda prostituta que não se nega a ninguém. Sente que se apaixonou profundamente. A família, com receio que ela lhe gaste todo o dinheiro tenta envenená-lo durante o baptizado de um neto. Este sobrevive ao raticida e decide vingar-se.

Pega fogo à barraca e vende o terreno a uma outra família. Esta, que se pauta por alguma decência e “legalidade” reclama o direito à propriedade e instaura-se uma “guerra civil” que terá frutos ainda, mas desastrosos. No fim acabam todos, os novos locatários e a família de Giacinto por partilhar a velha e decrépita barraca remendada, mas funcional.

O filme termina com a filha mais nova a retomar a sua tarefa diária, de recolha de água. Agora já há uma outra menina que a acompanha na função. São mais na mesma casa e a tarefa terá se ser repartida. Antes de ir à fonte volta à brincadeira do costume, mas com uma variante: é mais cuidadosa pois está grávida.

É um filme repleto de ironia e de quadros hilariantes, mas mostra um lado bem negro da sociedade onde a desgraça e a degradação imperam. Não há modo de se sair daquele círculo imperfeito que continua a rodar. O vício nunca morre. A miséria, perfeita e una, nunca pode sair, pois está enraizada no corpo e na alma.

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