“À Mesma Hora Para o Ano Que Vem”

Partindo da breve referência feita num artigo sobre Robert Mulligan, À Mesma Hora para o Ano que Vem revisita o melodrama clássico do cinema romântico que, sem a intensidade dramática dos tearjerkers, assume um papel competente na lista dos filmes a ver.

Foi depois de recorrer ao torrent que pude ver a história filmada em 1978 pelo realizador de Na Sombra e no Silêncio, em que Ellen Burstyn e Allan Alda se conhecem numa estalagem acabando por passar a noite juntos. De regresso aos respectivos casamentos, acordam encontrar-se nesse mesmo dia no ano seguinte, e no seguinte, e no outro… desenhando uma vida paralela ao mesmo tempo que vamos conhecendo, através dos encontros anuais, o desenrolar dessas outras vidas, escondidas para lá do enredo, secundárias para nós, espectadores, mas principais caso esta mesma história se passasse do lado de cá da tela.

Porque é no Cinema, na Literatura e na arte em geral que estas prevaricações ao que tomamos como ético funcionam. Na vida real, tudo é mais traiçoeiro. No Cinema, a história aguenta-se e o filme é bonito, quase apelativo, mas essa é também a função do Cinema, levar-nos suficientemente para fora de pé, mas não tão fundo ao ponto de não deixarmos de reconhecer podermos ser nós a pisar aquele terreno, aquele fundo de um rio paralelo.

Não obstante, não há lugar para moralismos nestas coisas da arte, pois tudo o que ela trata é humano, demasiado humano para tecermos considerações sobre permissões. Onde temos uma palavra a dizer é sobre as nossas vidas, não ao que nos é contado, e À Mesma Hora para o Ano que Vem é um filme que me regalou, que avança o (já batido) tema do “e se a minha vida tivesse sido…?” nas opções amorosas, que nos traz o privilégio de ver actuar dois grandes intérpretes (Burstyn é maravilhosa, como sempre) e que foi filmado com a sensibilidade característica que Robert Mulligan imprimiu às obras que deixou.

The Last Time I Felt Like This carrega o tom da época, num pop melódico-baladeiro que durante décadas dominou as canções dos óscares, sob o jugo de Marvin Hamlisch, um dos grandes compositores para Cinema da década de 70.

É uma intenção, mas também um mérito, nós, espectadores, sermos levados a torcer pelo lado “errado” da história, ou pelo menos não conseguirmos encontrar as certezas eternamente procuradas em cada tomada de decisão. Irmanamo-nos com aquele amor escondido no único dia do ano em que lhe é permitido desabrochar. Talvez seja mesmo inverosímil, mas ainda assim estarmos com o lado que nos deixaria desconfortáveis (no mínimo) caso ele ocorresse connosco (tal como estamos com Forrest Tucker em O Cavalheiro com Arma, com Theodore Pierce em A Mulher de Vermelho, com Francesca Johnson em As Pontes de Madison County ou com o Prof. Humbert Humbert em Lolita), abre-nos o leque da riqueza que é a arte: seremos nós mais quem dizemos a nós próprios que somos, ou aquilo que a arte nos mostra de quem somos?

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Rui Nabeiro

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