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O Crash – não da bolsa, mas dos valores

O mundo em que vivemos apresenta-se prestes a colapsar. Não ouvimos mais falar em “American Dream”, mas em “American Nightmare”. Não apreciamos mais uma Europa unida, mas uma espécie de grupo de liceu: alguns ocupam-se a medir forças e os mais fracos vão cedendo às exigências egoístas de quem perceciona os outros como peças de tabuleiro de um jogo maior…

O ser humano perdeu valor ao ponto de vidas em barcos – botes, talvez – estarem abaixo do valor do dólar.

A vida de uma mulher em Portugal está muito abaixo do valor do euro, afinal, já dez foram assassinadas em contexto de violência doméstica, só desde o início do ano. Seria expectável tal situação numa sociedade sombria, imoral, desprovida de igualdade social e de transparência, mas esse não é o nosso Portugal – o 3º país mais seguro do mundo (mas para quem?).

A questão que se impõe, o desafio que se impõe, é: que tipo de ser humano temos de ser para o resto do século XXI?

Isto é, que tipo de ser humano teremos de ser para um século em que um mundo gira ao som de uma balada desajeitada de quem não sabe o que quer e, muito menos, o que está a perder?

O Estado Português rege-se por uma Constituição elaborada em 1976. Desde o seu artigo 12º ao seu artigo 18º, inclusive, são-nos apresentados os direitos e deveres fundamentais do cidadão, do ser humano. Contudo, no artigo 19º, a epígrafe destoa e refere-se a uma “suspensão do exercício de direitos”. Nos oito parágrafos que compõem esse artigo, é-nos apresentado o cenário – o quase único cenário – em que se pode suspender o exercício dos direitos, liberdades e garantias. Tal situação acontece apenas em dois momentos: estado de sítio ou estado de emergência.

Se ao estarmos perante um momento de tensão, pressão que pensaríamos justificar qualquer tipo de ação/reação, a Constituição é bastante clara:

Art 19º/6: a declaração do estado de sítio ou do estado de emergência em nenhum caso pode afetar os direitos à vida, à integridade pessoal, à identidade pessoal, à capacidade civil e à cidadania, a não retroatividade da lei criminal, o direito de defesa dos arguidos e a liberdade de consciência e de religião.

O mundo caminha pelos nossos pés. Cada passo mal dado é também uma direção seguida, uma escolha feita. Um mundo que caminha doente, de pernas trémulas, espírito fatigado. Um mundo que abriu mão dos valores e dos princípios sem que fosse declarado estado de sítio.

Então, que pessoas teremos de ser? Tão frias e cruéis como as que, temporariamente, vencem? Ou pessoas tão diferentes como a mudança que queremos ver no mundo?

Joana Raquel

Cresci entre dezenas de alcunhas, centenas de histórias e milhares de afetos: isso fez de mim a "Joana do mundo", mas também a "Joana da Lua". Aos 20 anos, vivo cada dia com a paz que as palavras dão - e tiram -, sempre a pensar numa próxima viagem, numa outra conquista (sou Joana da Lua porque o mundo nunca me chegou). Ainda assim, todos me tratam por "Ju"!

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