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CrónicasSociedade

Insuficiente

São 9 da manhã de dia 3 de Janeiro de 2019. Estou numa sala do IEFP, com a ansiedade a dominar a minha perna direita e o tempo controlado por uma senha amarrotada na mão suada. Finjo que não estou nervosa. Finjo que só existe futuro. Finjo que acredito.

Senha número um.

Olho à minha volta. Os gestos das pessoas são mínimos, sentam-se com vergonha de ocupar espaço no mundo, com receio de estar a mais. O silêncio é feito de desalento: algo falhou. eu? onde errei? não fiz suficiente? A culpa escava pelo corpo adentro até se alojar nos ossos, até nos convencer de que somos sinónimo de insuficiente.

Sou uma falhada. Não, não sou. Será que sou?

Não tenho a certeza.

Finjo para afastar a culpa e o medo.

Senha número dois.

Um ano e meio antes, eu era outra pessoa. Depois, tornei-me bruma. Perdi parte do que me definiu durante tanto tempo: uma profissão, uma casa, uma relação. Foi violento. Desfez-me. Reconstruiu-me. Custa assumir que me aproximou mais de mim, que me fez mais eu. Há algo de mágico em não fazer ideia do futuro. Não ter caminho. Ser completamente livre. Ocorre-me o quão próxima está a liberdade da loucura.

Senha número três.

Alguém se levanta e se arrasta. Leva nos movimentos uma sentença. A desesperança é um animal morto que lhe pesa nos ombros. Demasiados anos à procura, demasiada idade na identificação, demasiada formação no curriculum. Cor errada, género errado, sotaque errado. Recebe olhares de pena e de desconfiança, combate-os com justificações que tropeçam e soam a desculpa esfarrapada e incompetência. Não interessa a conjuntura económica, não interessa o motivo. A culpa entranha-se sempre. A vergonha. O medo: nalguma coisa devo ter fracassado, afinal, estou aqui.

Mas e se? E se desta vez?

Senha número quatro.

O segurança dá uma palmadinha nas costas de um rapaz. Ele sorri. Percebe-se a esperança na forma como morde o lábio. Leva o papel entre os dedos, é uma chave, uma saída, uma solução. Apressa-se como se soubesse: é desta vez. Apressa-se para afastar o medo e a vergonha. Ou nunca os sentiu. Espero que nunca os tenha sentido. De repente, acredito que existe uma ordem qualquer no universo. O silêncio parece mais leve. Se calhar, os sonhos contagiam-se.

Senha número cinco. É a minha vez. Não tenho caminho. Mas dou o primeiro passo.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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