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David Lean

Já não se fazem épicos

A beleza de ‘Dr. Jivago’

Pensei não iniciar este artigo com a história da figurante que perdeu as pernas quando corria para apanhar o vagão numa Rússia triste e gelada, tendo o realizador aproveitado a dramática e acidental queda, mantendo-a no filme; ou como o general Franco colocou polícia à paisana no meio da manifestação para descortinar quais os figurantes que sabiam a letra d’A Internacional; ou com as dificuldades em filmar dias seguidos com temperaturas acima de quarenta graus em pleno deserto, distando mais de duzentos quilómetros do ponto de água mais próximo juntando quase quatro horas de película sem que uma única mulher surgisse sequer como figurante; ou ainda com a inacreditável aparição de Pierre Boulle, autor do livro que inspirou o filme, subindo ao palco para agradecer a estatueta de Melhor Argumento sem saber uma palavra de inglês, ao ser colocado como testa-de-ferro dos argumentistas Michael Wilson e Carl Foreman, ambos na Lista Negra, protagonizando um das muitas tristes ironias de um dos períodos mais sombrios da História do Cinema.

Tantas são as histórias que se poderiam contar acerca da filmografia de um dos melhores realizadores britânicos de todos os tempos que não conseguiria libertar estas linhas de uma riquíssima colecção de efemérides se desse corda à memória. Os dois primeiros acontecimentos fazem parte de Dr. Jivago (1965), o terceiro de Lawrence da Arábia (1962) e o último de A Ponte do Rio Kwai (1957).

‘Lawrence da Arábia’, talvez o mais famoso filme de Lean

Juntos, os três filmes formam provavelmente a elite épica de David Lean, um homem que evoluiu (ou convergiu? tenho dúvidas se será necessariamente um avanço) para o cinema épico numa altura em que o género se aproximava muito mais da qualidade do que do espalhafato tecnológico/foleiro em que se deixou cair. E Lean fê-lo como ninguém. Contudo, se bem que tenha iniciado a carreira numa grande produção com Sangue, Suor e Lágrimas, drama de guerra de 1942 co-realizado pelo amigo e mentor Noel Coward, foi numa vertente mais humanista sedimentou a sua entrada no Cinema com Breve Encontro em 1945 – o filme romântico por excelência do cinema britânico – e com os Dickenianos Grandes Esperanças, no ano seguinte e Oliver Twist em 1948. Com os dois primeiros obteve chegaria às nomeações. Em quarenta e dois anos de carreira realizou apenas dezasseis películas, valendo-lhe dois óscares e um lugar na História.

Peggy Ashcroft e Judy Davis em ‘Passagem para a Índia’

Mulherengo e de génio difícil, Lean incompatibilizou-se com muitos dos seus colaboradores. Que o diga o grande Alec Guinness, presença habitual nos filmes de Lean e que, no memorável papel do Coronel Nicholson, levou o óscar em A Ponte do Rio Kwai, ou Maurice Jarre, o compositor francês cujos três óscares advieram de filmes de Lean (Lawrence da Arábia, Dr. Jivago e Passagem para a Índia, o encerramento dourado de uma carreira em 1984 – no segundo, Jarre teve que ensinar dissidentes soviéticos radicados no ocidente a tocar o Tema de Lara corda a corda na balalaika, uma vez que estes sabiam dedilhar o instrumento russo de três cordas mas não sabiam ler música).

Poderia terminar este artigo com a discussão acerca do final d’A Ponte do Rio Kwai, se deveriam manter a fidelidade ao livro ou não (não quero ser spoiler); ou com o magnífico trabalho do Director Artístico John Box no Palácio de Gelo em Dr. Jivago; ou com Omar Sharif, o actor egípcio que brilhantemente interpretou Jivago (o médico e poeta dividido entre a mulher e Lara, o amor da sua vida) a levantar-se na cerimónia dos óscares para receber o prémio de Actor Secundário antes de o vencedor ser anunciado, para voltar a sentar-se quando ouviu o nome de Ed Begley ser chamado; ou ainda com a visita, logo após o acidente, que Lean fez à mulher no hospital sem de tal ter feito publicidade, mantendo a imagem de duro e mau caracter perante o staff para que os trabalhos não se ressentissem, escondendo dessa forma o coração que pulsava por trás do génio.

Mas não: termino com uma nota de admiração perante a magnificência do seu trabalho até ao fim (Passagem para a Índia é um grande filme!), as magnificas partituras de Maurice Jarre (o Tema de Lara é daquelas melodias que desafia os limites de qualquer escala) ou a inesquecível Marcha do Coronel Bogey, o incrível trabalho de actores com Celia Johnson, Peter O’Toole, Alec Guinness, Omar Sharif, Judy Davis, Peggy Ashcroft e tantos outros… e pronto: não consigo deixar de continuar a elencar o que David Lean trouxe de bom para o cinema.

O destino final d’A Ponde do Rio Kwai’

Talvez somente consiga cumprir o fim a que me proponho realçando os dois filmes que mais me agradam. São aqueles cuja componente intimista se eleva com maior vivacidade entre os que vi, aqueles sobre os quais já antes aqui escrevi, e se Dr. Jivago faz parte das obras que em algum momento da infância/adolescência entrou na minha vida permanecendo guardado no “cofre das obras valiosas”, Breve Encontro encontrou-me na década dos vinte para se aninhar, galgando os épicos, no lugar que a alegria reserva para a beleza das coisas tristes.

Como sempre, resta-me agradecer a genialidade de alguém que deu tanto de si.

PS: Não vi Summertime nem A Filha de Ryan. Nem mesmo Grandes Esperanças ou Oliver Twist (daí as referências terem sido apenas de passagem). Contudo, se os seis filmes de Lean que vi trouxeram até mim tantas sensações, não espero que os restantes me defraudem.

António V. Dias

Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

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