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José Mário Branco, uma inquietação permanente

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o Mundo é feito de mudança

Tomando sempre novas qualidades.

Começava assim, nas palavras de Camões, uma das canções concorrentes ao Festival da Canção no tempo em que a música era o ponto de honra e essencial. Uma forma de divulgar um poeta maior por um outro, grande, que nos deixa agora órfãos com a sua ausência. Vai fazer muita falta.

José Mário Monteiro Guedes Branco nasceu no Porto, a cidade invicta, no ano de 1942, filhos de professores primários. Leça da Palmeira, uma pitoresca vila piscatória, pode ter sido uma inspiração para este homem que se inscreveu no curso de História e que nunca o acabou.

Nos tempos mais obscuros, a igreja ainda era um refúgio para os jovens que gostavam de cantar e foi assim que o sabemos como membro activo na sua comunidade religiosa. Foi sol que pouco durou e o seu interesse voltou-se para o Partido Comunista Português, nos tempos em que qualquer militância que não a estabelecida, era proibida.

Perseguido e preso pela PIDE, viu-se forçado a procurar refúgio em França de onde regressaria somente em 1974. Um exílio de 11 anos que lhe permitiu grandes aprendizagens e o acumular de esperança num futuro que seria bem risonho.

De regresso a Portugal, torna-se um cantor de intervenção imbuído da chama revolucionária que se vivia. A sua produção é enorme não só nas músicas de sua autoria como também pelos arranjos que fez com outros tantos músicos que muito lhe devem.

A Primavera da liberdade, o que sempre desejou veio a provar ser apenas um raio de sol que se tapou com facilidade. Um 25 encantou-se e outro retirou-lhe a utopia e magia. Desilude-se com o 25 de Novembro e abandona o Partido Comunista. Milita com outras organizações, mas a sua veia, a criatividade, a fibra que o caracteriza, será sempre única e muito peculiar.

Trabalhou com artistas de gabarito como José Afonso, Sérgio Godinho, Fausto, Carlos do Carmo, Camané e Cátia Guerreiro, entre outros. O seu trabalho alargou-se aos vários campos e compôs para teatro, cinema e televisão tendo colaborado com A Comuna – Teatro de Pesquisa. Nem o fado ficou esquecido.

Regressa à universidade em 2006, para o curso de Linguística da Faculdade de Letras, onde obteve a classificação de 19,1 valores. Os seus maduros 66 anos deram frutos de excelente qualidade e provaram que, para aprender, qualquer idade serve desde que exista vontade de o fazer.

A cantiga é uma arma que se carrega com leveza e segurança. Gargantas unidas que se movimentavam em uníssono para um mote comum. Sempre com o punho em riste e a vontade indómita de tudo querer mudar.

José Mário Branco foi um educador, ensinou dezenas de mentes, iluminou ideias e teve seguidores que nem ele sabia. Era acutilante e certeiro. Tocava o cerne das questões e funcionava como motor de explosão. As suas letras eram poderosas, carregadas de significados que muitos sabiam ouvir. Uma inquietação que nunca o abandonou, uma insatisfação que jamais se acalmou. A seu lado teve companheiros e uma mulher de estandarte em alerta.

Aprendi-o no início da puberdade. Acompanhou-me na adolescência. Um dia conheci-o. Recordo o cabelo desalinhado, um bigode que se movimentava quase sozinho e uma voz que tocava e levava a ser seguida. Fascinou-me pela mensagem e pela liberdade de palavras que tão bem se conjugavam.

Foi assim que, na minha fase de namoro profundo, fui levada pelo meu doce apaixonado, para concertos onde ele e os seus parceiros animavam noites de tertúlias e de lutas contínuas. Eu fiquei, ele foi-se, o Mário nunca se vendeu. Vidas que se cruzaram sem saberem.

Sempre mordaz e irónico na sua análise à sociedade, com humor, alertava para os dislates que a mesma ia vivendo. Entre piadas e suposições, ia escrevendo uma História futura e que, ainda hoje, se continuam a pagar as marcas da boa vontade e ingenuidade. Ser livre é saber crescer e ter a capacidade de assumir as responsabilidades dos seus actos sem os incutir aos outros. Retirem-se as ilações.

Juntamente com Sérgio Godinho e Fausto presenteou-nos com um espectáculo intitulado “Os 3 tenores”, onde as horas voaram ao som das pautas e das muitas música que todos conheciam. Três vozes distintas, três posições firmes, três olhares sobre o mundo e a sociedade. Uma trindade incrédula com o rumo dos acontecimentos onde o sonho se esmoreceu. A magia há muito se tinha evaporado.

Um dia de Novembro, em pleno Outono chuvoso, a 19, gasta o seu pó especial e entra na categoria dos não esquecidos. Caminhando na senda do grande mestre, Camões, libertou-se da morte pelos feitos oferecidos pois o engenho e a arte nunca o abandonaram. Teve uma ninfa especial, a Manuela.

A despedida é numa casa emblemática, na Voz do Operário, cuja fundação teve o tema do inovador e diferente. Local de sonhos e desejos, juntou muitas caras conhecidas, amigos, seguidores e anónimos que o honraram com as suas tão queridas canções. Um enterro singular para um homem que se junta aos maiores em perfeita sintonia.

Qual é a tua ó meu? Tu vais pra longe, mas um dia havemos de nos encontrar! Porra! Como é difícil ser feliz neste nosso país!

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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