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Quando a política deixa de oferecer futuros

Vivemos num tempo em que são feitas escolhas políticas, com consequências claramente destrutivas. Estas decisões, porém, deixaram de ser exceção e tornaram-se parte do funcionamento normal das democracias contemporâneas.

Apesar da expressiva reeleição de Donald Trump, a eficácia do seu primeiro mandato tem sido amplamente discutida. Alguns, inclusive, concluem que o primeiro mandato foi um verdadeiro desastre. O que se verificou, no entanto, é que se apresentou a eleições e venceu de um modo surpreendente.

Na eleição presidencial de 2024, nos Estados Unidos, quase 50% dos latino-americanos votaram em Donald Trump. Em França, muitos portugueses apoiaram Le Pen e, aqui em Portugal, existe um grupo importante de brasileiros que apoiam o Partido Chega, com parte desse apoio a materializar-se em votos.  Já no segundo mandato de Trump, o Homeland Security, divulgou que já deportou desde janeiro de 2025 um total de 605 000 pessoas e um total de 1,9 milhões de pessoas regressaram aos seus países de origem voluntariamente. 

Não deixa de ser interessante observar que existe um número significativo de pessoas que se alinham com partidos ou candidatos que não se pode afirmar que seriam as escolhas mais evidentes e, nalguns casos, até se verificaram prejudiciais.

Sabendo da agenda e da retórica anti-imigração, muitos dizem que se trata de um «voto contra os seus próprios interesses». Nalguns círculos políticos, especialmente mais à esquerda, diz-se que estes foram empurrados para o populismo em consequência da traição de uma esquerda que frustrou as suas expectativas. No primeiro caso, está implícito que todos tomam a melhor decisão possível (a mais racional), enquanto, na segunda, parece existir um certo desvalorizar das verdadeiras causas que conduziram ao voto/apoio em políticos que, em última instância, os poderão prejudicar. Em ambos os casos, está subjacente a ideia de que foi tomada uma má decisão.

A explicação de que as pessoas tomam sempre as melhores decisões vem da economia clássica, normalmente associada à figura do Homo oeconomicus. Este modelo parte do pressuposto de que somos racionais e lógicos e, portanto, constantemente analisamos e refletimos sobre o que nos traz mais utilidade, tendo em conta as diferentes opções e recursos disponíveis. Assim, quando alguém faz uma compra, observa todas as características e benefícios que o produto tem a oferecer, comparando-o com outros semelhantes e com o preço pedido. Se usarmos este modelo no campo político ou social, o que nos traria mais utilidade seria um político/candidato que mais se alinhasse com as minhas posições. Se sou um imigrante, então, optaria por dar o meu apoio a um político que seja pro-imigrantes; se sou um trabalhador, então o mais racional e lógico seria votar num candidato sobre quem eu teria certeza de que aplicaria medidas trabalhistas. Contudo, há trabalhadores e imigrantes que optam por escolher populistas que implementarão um programa que não lhes é favorável. O problema é que este modelo da economia clássica, e muito usado nos círculos liberais, explica mal como as pessoas decidem. Não é possível ser sempre racional nas decisões a tomar por diversos motivos. Nem sempre possuímos todas as informações e, muitas vezes, tomamos decisões baseadas em emoções. Vejam-se, por exemplo, as compras por impulso, aquelas que nos trazem gratificação imediata, sentido de pertença ou status.

Quanto à segunda explicação (escolha baseada na vingança ou frustração), é verdade que os partidos do arco da governação, à esquerda e à direita, têm introduzido um programa neoliberal comum sob a aparência de políticas de centro. No essencial, tem havido uma política assente em privatizações, desinvestimento público e desregulamentação financeira, que mais não é do que a afirmação dos interesses do mercado sobre os interesses das pessoas. E, por isso, tanto partidos de esquerda quanto de direita são acusados de serem iguais. Mais do que política ou debate sobre que tipo de sociedade queremos, têm-se dedicado a competir por ver quem melhor faz a gestão do sistema. Mas, partir deste diagnóstico e justificar uma mudança de orientação política para programas políticos que são, em última instância, antidemocráticos, como uma «vingança» do eleitorado, é não reconhecer que existem diferentes aspetos que pesam na decisão que as pessoas tomam no momento de escolher a elite política que as governará.

É, no fundo, uma posição paternalista que infantiliza o modo como as pessoas decidem. A dimensão económica pesa no momento de decidir, mas, também, a questão identitária ou cultural. E, muitas vezes, perante cada uma destas dimensões, entre outras, são assumidas hierarquias que podem não ser sempre as mesmas ao longo do tempo.

Não escolhemos a catástrofe, porque desconhecemos as suas consequências ou porque temos uma tendência a agir contra os nossos interesses. Também não resulta de uma tendência autodestrutiva. Resulta, sim, do eclipse dos imaginários políticos, que não se discutem nem se debatem como queremos que a sociedade seja. Em vez disso, deixámos o governo entregue a elites tecnocráticas, legitimadas pelo voto periódico, que convertem a política num mero campo de gestão administrativa. E, apesar de cada um destes «especialistas» ter uma agenda política (em política não existem posições neutras) resultante de um programa político, a verdade é que afastaram as pessoas da política real. 

Então, a escolha de líderes populistas e autoritários, o recuo no campo ambientalista ou o isolamento político não são o resultado de decisões irracionais, mas antes um sintoma que advém da incapacidade de imaginar novos futuros.

A questão não deveria ser porque escolhemos a catástrofe, mas porque deixamos de acreditar que é possível uma sociedade alternativa, na qual cada um pode realmente realizar-se. Enquanto a política se restringir a um papel meramente administrativo e de gestão, por tecnocratas que agem sob a aparência da neutralidade, não conseguiremos imaginar novos projetos de sociedade.

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