Lugares errados

“Sabes, também não foi fácil ser tua mãe.”

O fumo do cigarro cirandava à volta delas. A mãe dava mais uma passa com a atitude blasé de sempre, mantinha no olhar um sorriso sardónico.

E ela de coração partido outra vez.

Há quanto tempo procurava amor naquele lugar tão errado? Fingia que o encontrava na sobrancelha erguida em desprezo, no toque inconsciente, num olhar semi-inventado na infância. Escolhia ignorar os enganos e as ausências. Podia trovejar à sua volta, ela resguardava-se com um guarda-chuva de ilusões.

Hoje estava farta. Tudo aquilo era um absurdo. Sentiu na boca o amargo da frustração, tão intenso como o cheiro a tabaco. Olhou para a mulher à sua frente. Quem disse que éramos obrigados a gostar da família?

Levantou-se.

A mãe não a chamou, não a seguiu. Ela sentiu os cacos do coração a chocalhar com cada passo que dava. Abriu a porta da rua e esperou. Silêncio. Quase podia adivinhar a expressão da mãe: ácida, dura, triunfante. Saiu e fechou a porta.

Na rua, com o peito embrulhado em tristeza, voltou a ser uma criança deixada para trás. Pensava nas fotografias antigas, tão baças que mostravam a realidade em cores pastel: ela criança a sorrir, a mãe a brilhar de uma alegria que tinha ficado ali, apenas nas fotos, longe da vida. Teve raiva dessa necessidade de se agarrar a memórias tão esporádicas para justificar um amor que talvez nunca tivesse existido. Teve raiva da mãe, sozinha no seu azedume, a atingi-la com a sua indiferença.

Mas talvez nada disto importasse.

Não, talvez nada disso importasse.

Porque até respirava melhor no afastamento. O sol na pele começava a saber-lhe a emancipação. Já não era uma criança. Nem tinha ficado para trás. Não precisava de que a salvassem dos medos, de que a protegessem das mágoas. Sabia lutar sozinha e torná-los raízes. Sabia virar costas ao impossível. E agora iria conhecer os lugares certos do amor, dançaria neles até sentir o gosto da liberdade.

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