Um ano após Donald Trump ter ganhado as eleições presidenciais com maioria no colégio eleitoral e no voto popular, eis que os primeiros sinais de desencantamento começam a surgir. O que aconteceu na Virgínia, em Nova Jersey ou na Califórnia, além de inesperado, revelou que os EUA ainda não estão totalmente dominados pelo movimento MAGA.
Em Nova Iorque, a disputa era por quem governaria a cidade mais importante do ponto de vista económico; Nova Jersey e Virgínia escolheram governadores e, na Califórnia, o povo foi chamado a pronunciar-se sobre um novo mapa congressista.
Nova Iorque é uma cidade importantíssima nos EUA e no mundo. É um polo financeiro, cultural, tecnológico e até diplomático. Continua a ser a cidade mais rica do mundo, com 384 500 milionários. Na última década, Nova Iorque viu o número de milionários crescer em 98%, o que se compara apenas ao Dubai ou a Shenzhen.
Apesar deste aumento na criação de riqueza, desde a pandemia, a desigualdade social tem crescido. Os 10% mais ricos estão a ficar mais ricos mais rapidamente do que os mais pobres. Se os rendimentos dos 10% mais pobres cresceram 7%, os rendimentos dos 10% mais ricos cresceram o dobro entre 2020 e 2023. Ao mesmo tempo, o custo de vida tem aumentado substancialmente desde 2020, impossibilitando muitas pessoas de manterem condições materiais de vida dignas. É uma cidade marcada por diferentes problemas, nomeadamente uma crise de habitação, onde muitos não conseguem ter um quarto que possam pagar; 40% das famílias não conseguem comprar comida. Para a grande maioria, a solução foi cortar gastos com bens essenciais, como alimentos, transportes e serviços.
A campanha de Zohran Mamdani assentou num programa de construção de 200 000 unidades de habitação acessível, congelamento das rendas, autocarros gratuitos ou acesso universal a um sistema de cuidado gratuito a todas as crianças, além de um conjunto de supermercados detidos pela cidade, com produtos mais acessíveis, financiado por meio de um aumento de impostos aos milionários e às empresas.
A vitória de Mamdani em Nova Iorque representa uma derrota para o movimento MAGA. Quando observamos os dados oficiais, encontramos financiamento por parte da elite rica dos EUA, e apoiante de Donald Trump, ao candidato que concorreu de modo «independente» para defrontar Mamdani. Pessoas como Bill Ackman, declarado apoiante de Donald Trump, ou Michael Bloomberg, que, juntos, doaram cerca de 10 milhões de dólares a Andrew Cuomo, principal adversário de Mamdani.
Esta vitória, contudo, não foi apenas contra o MAGA. Foi, também, uma vitória sobre a esquerda tradicional e os seus candidatos envelhecidos. Uma esquerda que não se conseguiu distinguir de uma direita que se dedica a instaurar um programa neoliberal, assente na redução da presença do Estado na economia, defensora das privatizações e silenciosa perante violações dos direitos humanos, como na Faixa de Gaza.
Quando os partidos de esquerda passaram a ser relegados a segundo e terceiro lugares; quando se anunciou, mais uma vez, a morte da esquerda, porque as pessoas votaram nos candidatos de direita radical populista, tornou-se evidente, mais uma vez, que a esquerda continua a ser alternativa. Alternativa, não porque se trata de uma moda ou de uma mera oposição política, mas porque é o campo político que se bate inequivocamente pela redução das desigualdades e da injustiça social.
Toda a retórica antissistema que a direita radical populista tem promovido não passa de uma tentativa desesperada desses mesmos grupos para conseguirem chegar ao poder. As suas soluções simplistas sempre se mostram insuficientes, e a sua governação revela a sua incompetência.
Não sabemos como será a governação da cidade de Nova Iorque e isso não é tão relevante para este artigo. Sabemos, contudo, e é isso que é mais relevante para aqui, que a população deu um sinal evidente através da sua eleição. Uma campanha que foi possível graças ao trabalho de muitos voluntários, numa demonstração de que a organização coletiva, baseada numa agenda justa, em defesa dos esquecidos da sociedade, pode vencer os candidatos que representam os interesses dos privilegiados.
Ficou evidente que as pessoas ainda acreditam ser possível um futuro melhor, uma sociedade mais justa, não com os mesmos do costume, mas através de uma maior participação e envolvimento coletivo de diferentes partes da sociedade e de grupos historicamente marginalizados, como os jovens ou os imigrantes.
O que se passou em Nova Iorque, Virgínia e Nova Jersey não é apenas um episódio eleitoral isolado. É um sinal claro de que o populismo de direita, ruidoso no discurso e frágil na governação, tem dificuldade em responder aos problemas concretos das pessoas. As crises da habitação, o aumento do custo de vida ou da precariedade não se resolvem com slogans, mas com políticas públicas sustentadas, investimento coletivo e, sobretudo, coragem política.
A vitória de Zohran Mamdani demonstra precisamente isto: quando a política volta a centrar-se nas condições de vida das maiorias, quando fala do quotidiano em vez de prometer batalhas culturais intermináveis, os cidadãos respondem e mobilizam-se.
Se há lição a retirar destes resultados, é que, quando a política regressa à vida concreta e recupera a ambição de construir sociedades mais justas, volta a ganhar a confiança das pessoas. E é talvez por isso que, apesar de todas as crises, ainda há quem acredite que um futuro melhor é possível, não com os mesmos do costume, mas com novas vozes, novos movimentos e uma vontade coletiva renovada de transformar o mundo.