Cada uma das (breves) impressões seguintes, sobre os livros da tetralogia de Elena Ferrante, A Amiga Genial, foi escrita logo após a leitura, sem saber o que viria a seguir.
Partimos para férias, dia 1 de Setembro, iniciara eu havia pouco a leitura do primeiro volume, creio.
O registo destes testemunhos em tempo real, sem abarcar a totalidade da obra, tem vantagens e desvantagens, mas ainda assim fez-se um exercício interessante, diferente das críticas que escrevo habitualmente. Perde-se reflexão e contexto, ganha-se o sangue do primeiro impacto.
As férias terminaram a 21 de Setembro, e isso nota-se pelo tempo das leituras (ainda que o tamanho dos livros também influa). Não costumo gostar de livros grandes, mas não me arrependo da excepção aberta para este grande livro, dividido por quatro capítulos.
Rinchoa, 23 de Novembro de 2025
A Amiga Genial (4*)
Uma história bonita numa escrita simples (ou aparentemente) que, mau grado a expectativa, me despertou a curiosidade para os capítulos seguintes.
A adolescência em Nápoles no final da década de 50 traz ingredientes muito apelativos para suscitar o interesse pelo cenário e ambiente onde a história decorre. Depois, a sensibilidade, imaginação e construção de Elena Ferrante fazem o resto.
Sinto que somente no final (se lá chegar) conseguirei formar uma opinião mais avisada sobre a história, mas até agora, está muito bem!
Guia, 6 de Setembro de 2025
História do Novo Nome (5*)
Finalmente entrei na história e este segundo capítulo – a juventude de Lila e de Elena – foi de longe mais interessante do que o primeiro A Amiga Genial. Claro que sem esse, este não faria sentido, mas a profundidade das personagens é tão maior nesta obra!
Elena, a narradora, é uma personagem sensível, honesta, e (muito) ingénua. Talvez esta ingenuidade, que assume contornos de devoção a Lila, seja algo inverosímil. Esta (Lila), pelo contrário, é pérfida, ao ponto não só de se tornar irritante mas também de nos suscitar a curiosidade em saber como vai ela evoluir – se continuará o seu caminho de malevolência (realista) ou se existirá algum processo mágico de reconversão (hipótese que quase só acontece nos livros).
Os múltiplos recursos narrativos e a escrita envolvente utilizados por Elena Ferrante, dando continuidade à primeira obra, aliam-se a uma técnica que, creio ter sido a primeira vez que vi num livro de forma tão explícita: tudo o que sabemos vem da observação e/ou interpretação da narradora, sem ficarmos com a certeza de ser ou não verdade (com um narrador omnisciente, neutro, sabemos que lemos a verdade). Esta fragilidade da personagem – as suas emoções ditam(-nos) o que nos conta e o jeito com que o faz – torna o enredo muito mais próximo da realidade, tal qual quando contamos uma história a um amigo, com juízos de valor e emoções à flor da pele. Muito bem conseguido.
Sobre a história, pouco quero escrever aqui – a continuação do enredo da juventude de personagens horríveis do bairro manhoso de Nápoles nos anos 60 é rica, por se aproximar do quotidiano numa forma literária sem o parecer. E isso é um feito.
Agora sim, parto para o volume seguinte com grande curiosidade e entusiasmo (e não com alguma condescendência, como aconteceu aquando da final da leitura de A Amiga Genial). Veremos o que me espera.
Guia, 12 de Setembro de 2025
História de Quem Vai e de Quem Fica (5*)
Foi neste terceiro capítulo que começou a sedimentar o meu interesse, expectativa e apreciação. A história da relação entre Elena e Lila assume contornos de um épico como eu não estava habituado – pelo tom intimista, pela versão no feminino, e pela verdade crua como Elena Ferrante vai deixando cair aquilo que por vezes nem a nós ousamos confessar.
A luta classista atinge neste livro o apogeu, tomando o estudo e o empenho como veículo de ascensão social, sem que Elena consiga libertar-se do conflito interior, que oscila entre do complexo de estar a abandonar a amiga e o ressentimento e inveja doentias desta.
A uma escala mais universal, outro conflito, entre a ideologia ou teoria da luta política ou de classes e a dureza do dia a dia do operariado, da Mafia, das querelas e cisões partidárias toma conta de grande parte da história, transmutando-se muitas vezes num outro confronto, entre a ambição com que o povo almeja ascender à burguesia, o idealismo pueril e a revolta de quem, sem conseguir (ou querer) ascender, se mostra do contra, partindo para a luta armada.
E por cima de tudo isto, como um pano ou uma nuvem que cobre todas estas “questiúnculas”, estão duas miúdas/mulheres irmanadas numa força ainda mais explícita neste terceiro volume. Sobretudo após o regresso de Nino, está a presença sempre ameaçadora da origem, do berço, personificada pelo “bairro” de onde quase todos os personagens vieram.
PS: Outra questão muito pertinente levantada pela autora prende-se com as motivações da inspiração, e da luta de Elena em encontrar o ânimo para escrever uma nova obra, depois do sucesso do primeiro livro. São Lila e Nino, e a sua aceitação (e não uma vida acomodada ao desinteresse de uma família construída por acidente, apatia ou por “ser suposto”), os motores que lhe desbloqueiam a corrente de ideias e lhe abrem as portas por onde saem as palavras que reflectem o seu interior.
São tantos os ângulos de análise que se torna difícil escrever sobre este capítulo de forma sucinta sem que pareça uma manta de retalhos apressada, mas além da beleza da história, épica – repito – Ferrante mergulha tão fundo nos temas que aborda e com uma escrita tão simples, que sigo para além destas quase 900 páginas que isto já leva com agrado.
Rinchoa, 25 de Setembro de 2025
História da Menina Perdida (5*)
O fim da saga, finalmente!
A ascensão da relevância do bairro e os mistérios literários mais ou menos entendíveis, a fragilidade do ser e das suas relações, com os filhos e com o passado, com os amigos e com o trabalho, e consigo próprio.
Eternamente assolada pela dúvida, Elena (Greco) vai sobrevivendo num mundo que se resume em poucas palavras, e quase nenhuma delas abonatória: hostil, sofrido, em esforço, cinzento.
Em contracorrente com a posticidade da rede social, Elena Ferrante diz-nos que a vida é sobretudo sofrimento, temperada aqui e ali por momentos felizes. Talvez as vidas retratadas nesta saga sejam particularmente sofridas, mas o esforço pela superação é uma constante da vida. Lila é a excepção, e também é isso que a torna fascinante e irritante.
Uma tetralogia que vale a pena ler. Pelo realismo, e pela convivência tecida com brilhantismo entre a superação e a ruína. No meio, entre estes dois pólos, está, não a virtude, mas a maioria das vidas. Um épico intimista.
Rinchoa, 15 de Outubro de 2025
[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]