Antes dos algoritmos saberem o que sentimos, existia o gesto íntimo de montar uma fita cassete. Escolher uma música, apertar o rec, escutar aquele leve chiado inicial e depois decidir qual seria a próxima faixa, pensando nas emoções que queria transmitir. As Mix Tapes eram cartas disfarçadas de som. Tinham começo, meio e fim. Eram narrativas de afeto, construídas com cuidado artesanal e, às vezes, com amor não correspondido.
Cada fita era uma pequena autobiografia. Mesmo sem uma palavra escrita, dizia tudo: o que se queria lembrar, o que se tentava esquecer, o que se desejava dizer sem coragem de escrever. Havia nelas uma combinação de curadoria e confissão. Montar uma fita era um exercício de vulnerabilidade e também de esperança.
O escritor britânico Nick Hornby captou isso com perfeição em High Fidelity: para o protagonista Rob Fleming, organizar listas musicais era quase uma forma de terapia. Cada sequência de canções contava uma história de amor, de perda, de tentativa de recomeço. Em Songbook, Hornby aprofunda a ideia de que ouvir música é uma maneira de entender o mundo e de se entender dentro dele.
Alguns anos depois, o jornalista Rob Sheffield, em Love Is a Mix Tape, transformou o mesmo gesto em um tributo à vida e ao amor que se foi. Escrevendo sobre a esposa que perdeu, ele reconstrói a vida dos dois a partir das fitas que gravavam juntos. Cada lado de cada fita torna-se um testemunho de amor e luto e de como a música nos salva, mesmo quando o silêncio ameaça nos engolir.
Hoje, trocamos as fitas pelas playlists. Elas estão nos nossos telefones, prontas para qualquer instante: uma para correr, outra para ler, outra para tentar dormir. As playlists são herdeiras modernas das Mix Tapes, mas perderam o toque do acaso, o erro humano, o espaço entre as canções — aquele pequeno intervalo que, nas fitas, era quase um suspiro.
O algoritmo aprendeu a montar trilhas perfeitas, mas talvez seja essa perfeição que nos rouba a surpresa. Na fita, o som podia falhar, a ordem podia sair errada, e era justamente aí que estava a alma. Ainda assim, há quem continue a criar playlists com o mesmo cuidado de quem gravava uma fita, escolhendo cada música como se escolhesse uma palavra de uma carta. Essas listas são pequenas oferendas, gestos de afeto e memória em meio ao ritmo ditado pelas telas. A playlist ainda cumpre sua função: organiza o ruído do mundo, oferece ritmo ao cotidiano. Mas só quando há uma intenção por trás, alguém por quem ou para quem se monta a trilha, é que ela volta a ter alma.
Há quem use palavras, há quem use silêncio — e há quem escolha canções. As Mix Tapes, e agora as playlists feitas à mão, continuam sendo uma forma de dizer o que não se consegue dizer de outro modo. Cada faixa é uma mensagem cifrada, um gesto de aproximação, um “estou aqui” que se veste de refrão. Há amores que nascem, resistem ou sobrevivem apenas nessa frequência, entre o que se canta e o que se escuta.
A literatura e a música sempre dialogaram nesse terreno invisível das emoções. Um trecho de Proust nos lembra que a memória é uma melodia que insiste em voltar, e Nietzsche dizia que “sem música, a vida seria um erro”. As canções — assim como os livros — nos devolvem inteiros quando o tempo tenta nos dispersar. Ambas são formas de eternizar o efêmero: uma letra, uma melodia, uma história — fragmentos que sobrevivem ao esquecimento.
Talvez por isso ainda façamos playlists. Porque, mesmo mediadas por telas e cabos, elas continuam sendo pequenos espelhos do que sentimos. Continuamos tentando, de alguma maneira, registrar nossa passagem — com a diferença de que, agora, o som não se apaga quando a fita chega ao fim.
As Mix Tapes eram o lado B da vida, o lado escondido da memória e o grito do presente que nos transborda, onde ainda é possível ser sincero sem dizer nada.
Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Português do Brasil.