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Amor, diferença, bullying e aceitação. Eis o filme “Wonder- Encantador”

"Quando puderes escolher entre ter razão ou ser generoso, escolhe ser generoso."

“Sê simpático, porque todos travam uma batalha difícil. E se quiserem ver mesmo como as pessoas são, tudo o que têm de fazer é olhar.” É com este preceito que o filme “Wonder – Encantador” acaba, numa ovação a um miúdo encantador de 10 anos, que recebe o prémio de mérito da sua escola.

Sei que não se deve contar como é que os filmes acabam, mas este é um ensinamento cuja dimensão é profundamente transversal à vida real, porque todos travamos as nossas lutas, mas também temos forças silenciosas e, acima de tudo, um coração cujo mapa nos indica o caminho… Todos temos o melhor e o pior. A cada um cabe escolher o que alimentar mais.

“Wonder” é um filme que gira em torno de Auggie Pullman, cujo papel é incrivelmente protagonizado por Jacob Tremblay. Trata-se de uma criança que nasceu com síndrome de Treacher Collins, uma malformação congénita rara que se manifesta em deformações no crânio e na face, que nem as 27 cirurgias a que foi submetida a tornaram “normal”, como se ser normal fosse o que se vê e não o que se é verdadeiramente. A sua família, de uma coesão incível, é a sua âncora, uma fonte inesgotável de amor e de princípios morais, norteados pela bondade, compaixão, correcção, força motivacional, com sentido de justiça e companheirismo.

Julia Roberts as “Isabel” and Jacob Tremblay as “Auggie” in WONDER. Photo by Dale Robinette.

A mãe, Isabel, personagem que Julia Roberts representa na sua habitual forma exímia, é um motor de potência infinita, tendo abdicado da sua carreira e do seu sonho de ser ilustradora de livros infantis desde o nascimento de Auggie. Tornou-se sua professora para evitar os medos, inseguranças e complexos do seu filho em ambientes sociais. O pai, Nate, é um homem bom, um marido encantador, um pai presente, personagem que é desempenhada por Owen Wilson. A irmã, Via, representada por Izabela Vidovic, é incrivelmente amorosa e atenciosa. Desde que o seu irmão nasceu, passou para segundo plano na família, e sofre por isso, mas compreende e ama-o desmedidamente. Uma jovem que sente saudades da avó Grans, que falecera, mas que nas suas lembranças aparece em cena por breves minutos, momento em que Sônia Braga dá a cara a uma avó que foi presente e atenta, a única pessoa que na verdade via e apoiava Via. E há também a cadela Daisy, uma amiga a sério, que deixa um vazio na família Pullman quando morre por velhice.

Eis que chega a altura em que Auggie dá início ao 5.º ano de escolaridade e os pais entendem que é o momento de o seu filho deixar de estudar em casa para começar a frequentar a escola, mas agora sem o capacete de astronauta que tanto gostava de usar, não só para esconder a sua deformação, como também para dar asas à sua imaginação, ao seu sonho de ir ao espaço. A sua mãe sempre dizia: se não gostas de onde estás, imagina onde queres estar. E era assim que se imaginava, com fato de astronauta a flutuar no espaço, sempre que se confrontava com situações mais tensas e complexas.

Embora apoiado pelos professores, Auggie enfrenta o inevitável. É como diz: conhecer adultos é mais difícil do que conhecer crianças. Ao princípio fazem todos a mesma cara. Mas as crianças não são tão boas a esconder. Os colegas espantam-se com o seu rosto, sem reservas, afastando-se dele instintivamente. E Auggie é, desde logo, vítima de bullying por parte dos colegas. Alguns, os mais “cruéis”, dizem que se alguém lhe tocar apanha uma praga. Chamam-lhe nomes e deixam-lhe bilhetes humilhantes. Mas Auggie apoia-se na sua força interior, no amor da sua família, no seu amor-próprio e no que a sua mãe sempre lhe dizia: quando alguém é mau, temos de ser melhores.

Dele também se aproximam outros colegas, bons corações que o vêem para além do seu rosto, amigos genuínos e verdadeiros. E é através da sua enorme inteligência, bondade, sabedoria, resiliência e atitude, do seu comportamento exemplar e sentido de humor que Auggie vai lidando com a situação, ganhando popularidade e novas amizades.

À medida que o tempo passa, o carisma de Auggie vai conquistando os seus colegas, e assim vai compreendendo que tudo leva o seu tempo, até mesmo a aceitação da diferença. Afinal, tal como o seu pai sempre reforçava, ele não estava sozinho. No crescendo deste enredo, o miúdo sente gratidão pela opção dos seus pais e vai encontrando na escola nova fonte de alegria e entusiasmo, já para não falar do seu fascínio pela disciplina de ciências, da qual era um excelente aluno.

O filme acaba no auditório da escola, na festa de final de ano lectivo, em que Auggie é chamado ao palco pelo Director, Mr. Tushman (papel desempenhado por Mandy Patinkin), a fim receber o prémio atribuído ao aluno que se destacou por praticar boas acções. Nas palavras do Director, as boas acções assumem várias formas. Até porque a grandeza não consiste em ser forte, mas sim no uso correcto da força. E torna-se maior quando essa força inspira mais corações, pelo exemplo que dá, que é o caso de Auggie, um aluno cuja força silenciosa inspirou mais corações. Até porque as nossas acções são os nossos monumentos.

Este filme é um retrato autêntico da nossa sociedade, na qual existem os bons e os maus, a aparência e a essência. Uma realidade que mostra que estamos sempre à prova e que vamos sempre a tempo de transformar o mundo num lugar melhor, se nos abrirmos a esse desafio, numa escolha individual: a de alimentar o bem ou a de alimentar o mal.

Neste filme, Auggie dá uma grande lição aos seus colegas mais “cruéis” sobre aquilo que é a humildade, sabedoria, aceitação, bondade e resiliência. E, aos poucos, esses mesmos miúdos vão-se permitindo transformar e ver através do coração, olhando de igual para igual para o seu colega de 10 anos, olhando para o seu coração e aceitando um rosto que apenas é um adorno, porque a verdade vem de dentro e não de fora. E assim o amor acontece, essa força que derruba muros e não vê diferença. O amor, sempre o amor.

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Manuela Gonçalves Pereira

Madeirense, casada e mãe de dois filhos, os seus amores-para-sempre. Residente em Coimbra e licenciada em Comunicação Social, inspira-se nas pessoas e em tudo o que a vida oferece. Enveredou pela comunicação das organizações, área em que actualmente exerce a sua actividade profissional. Ler {livros e o mundo} e escrever aqui e ali são alguns dos seus passatempos favoritos. Encara o sentido de humor como uma forma de desconstruir preconceitos. Lema de vida: em tudo há sempre uma oportunidade...

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