Neste peculiar romance da literatura finlandesa contemporânea, Arto Paasilinna mescla crítica social, humor absurdo e um grande fascínio pela natureza nórdica.
Em 1975, Arto Paasilinna (1942-2022) publica A Lebre de Vatanen. Embora o autor já fosse um dos escritores mais emblemáticos da Finlândia, esta é considerada a sua obra-prima. Tornou-se num romance de culto, um verdadeiro clássico moderno da literatura finlandesa, traduzido em mais de 30 línguas. É visto como uma alegoria sobre a recusa da norma para atingir a liberdade individual. A atualidade é óbvia. Continuamos a viver sufocados por excesso de informação, alienados pela vida urbana. Cada vez mais se procura sentido na vida civilizada, na burocracia, na artificialidade. Esta é quase uma fábula moderna, ecológica, construída como sátira social, que encerra um profundo simbolismo naturalista, com um humor próprio dos países nórdicos. No entanto, por detrás desta leitura, talvez se esconda uma construção mais ambígua.
Num fim de tarde, Kaarlo Vatanen, o protagonista, e o seu colega fotógrafo regressam de mais um trabalho rotineiro. O carro atropela uma pequena lebre numa estrada do interior da Finlândia. Ao contrário do condutor, que se mantém no veículo, Vatanen sai, embrenha-se no mato, encontra o animal ferido numa pata e improvisa uma tala. É este momento o catalisador simbólico para a transformação radical da personagem. Frustrado com a vida conjugal e profissional, cansado da vida urbana, rompe com tudo. Não regressa ao carro e desaparece. Parte em peregrinação pelo território finlandês, acompanhado pela lebre. Casamento, emprego, cidade, tudo fica no passado. O futuro é a jornada errante. Vatanen desiste do seu papel social, para se descobrir como indivíduo, numa profunda reconstrução identitária.
Ao longo desta jornada geográfica e interior, o protagonista enfrenta os rigores do inverno nórdico, trabalhando como carpinteiro, bombeiro florestal, pescador, pastor, para sobreviver. Seja nas florestas, nas aldeias ou nas montanhas, em cada capítulo do livro, confronta-se com instituições e valores da sociedade moderna, fugindo sempre das estruturas que o tentam enquadrar. Paasilinna retrata estas estruturas com ironia, desdém, mostrando-as em momentos surrealistas, absurdos, que nos trazem espanto e um ligeiro sorriso. Talvez demasiados arquétipos unidimensionais. Vatanen acaba por ser preso e perde a sua companheira. Mas conhece um segredo do Presidente Kekkonen. Será que consegue recuperar a lebre, símbolo de renascimento, metáfora da liberdade instintiva e do vínculo primordial com o mundo natural? Sendo que não se trata de uma mascote sentimental, pelo contrário é silenciosa, esquiva, quase sagrada, Vatanen não procura conforto, mas, sim, desconexão com uma vida de engrenagens do consumo, da produtividade e da vigilância social.
Uma leitura pouco atenta vê no comportamento de Vatanen um elogio ao recomeço, à liberdade individual e ao regresso à natureza. Mas interroguemo-nos: a fuga deste homem não estará carregada de um niilismo passivo, fruto de um colapso psíquico? O que parece uma atitude libertadora pode ser uma dissolução do sujeito, uma recusa de responsabilidades, não uma busca autêntica. A sociedade é caricaturada, mas talvez se esteja a reduzir a civilização a um conjunto de estereótipos disfuncionais. De facto, Vatanen nunca parece integrado, também neste mundo inóspito que atravessa.
A linguagem de Paasilinna é direta, lacónica, cheia de um humor ácido que parece evitar os julgamentos. O romance já tem sido posto em causa como tal, já que está estruturado em capítulos quase independentes, episódicos, organizados como etapas de uma viagem, o que aproxima o autor de Boris Vian. Aliás, a alternância entre a comicidade, a tragédia e o absurdo lembram a estrutura picaresca. O tom satírico e irónico do livro é suportado pelo estilo direto, fluido e seco. O contraste entre a simplicidade de estilo e a complexidade das ideias implícitas lembra Italo Calvino. Não podemos deixar de pensar no ideal do bom selvagem de Rousseau: o retorno ao instinto, ao essencial, como cura para os males da sociedade.
E há a natureza. O silêncio, a neve e os animais selvagens. Na verdade, a natureza aparece como pano de fundo quase espiritual para a transformação interior de Vatanen, sendo a lebre, frágil e persistente, um guia involuntário para a liberdade e o desprendimento. Embora a relação entre Vatanen e o animal não seja lamechas, ela humaniza o protagonista e contrasta com a frieza das relações que ele mantém com os humanos, caricaturas de uma sociedade alienada: a mulher indiferente, os pastores fanáticos, os militares desnorteados, os burocratas sem rosto. O autor é mordaz ao questionar as instituições como o exército, a religião, o casamento, o trabalho, que domesticam o ser humano.
A obra, que se tornou num clássico da literatura finlandesa contemporânea, oferece várias leituras, mas é, sobretudo, um convite à reflexão sobre a vida moderna e os recomeços.
A atualidade é inegável, num tempo em que o burnout é uma epidemia ainda silenciada. O desejo de se desconectar da alienação da vida urbana e regressar à autenticidade, à natureza, está a tornar-se num fenómeno cultural global. Mas a proposta de Paasilinna não é pacífica: há crítica à sociedade, mas, também, inquietação na fuga. Talvez a lebre não simbolize a liberdade, mas o inatingível. Talvez se absolutize uma experiência individual.
Impõe-se a reflexão: o que faria cada um de nós, se pudesse deixar tudo para trás e querer mesmo uma fuga sem retorno?
Nota: Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.
Estamos sempre recomeçando. Não se pode fugir muito disso… O personagem que tanto faz para preservar sua liberdade, continua com sua inadequação, a única coisa que se mantém.
A conexão com a lebre é o instinto da afetividade ao natural. Apesar de todo desapego, acho que ele se vê nesse seguro nesse lugar – o instinto.