Liberdade de expressão não garante microfone: quem tem o direito a ser ouvido?

Vivemos em um tempo em que todos têm o direito de falar — mas nem todos têm o privilégio de serem escutados.

É verdade que a liberdade de expressão é um pilar das sociedades democráticas. Ela nos assegura o direito de manifestar ideias, crenças e opiniões. Mas existe um outro tipo de liberdade, menos debatido, igualmente decisivo: a liberdade de alcance. A possibilidade de que aquilo que dizemos encontre ouvidos, cruze fronteiras e construa algum tipo de impacto coletivo.

Essa diferença muda tudo. Porque se a liberdade de expressão está nas Constituições mundo afora, a de alcance está nas estruturas — econômicas, sociais, raciais, algorítmicas. E essas, sabemos, nem sempre são justas.

O Digital News Report 2024, publicado pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, revela que, embora o acesso às notícias esteja se tornando cada vez mais digital e fragmentado, os grandes veículos ainda concentram boa parte da atenção e da confiança do público. No Brasil, por exemplo, um dos países mais conectados do mundo, essa fragmentação acontece em meio a uma aparente descentralização, mas a visibilidade verdadeira — aquela que move debates, gera cliques e muda narrativas — continua sendo privilégio de poucos.

E aí surge uma pergunta desconfortável: quem são esses poucos?

Nos Estados Unidos, dados do Pew Research Center indicam que, apesar de pessoas não brancas representarem cerca de 42% da população, elas ocupam apenas 23% dos cargos em redações jornalísticas. A sub-representação se agrava ainda mais quando se considera a presença — ainda pouco estudada — em cargos de liderança editorial.

Esses algoritmos, aliás, também escolhem quem tem o direito de falar mais alto. Um estudo conduzido por Ethan Ward em 2022 mostrou como criadores negros LGBTQIA+ no TikTok percebem que seus conteúdos recebem menos visibilidade, mesmo quando seguem as mesmas regras e estratégias que seus pares brancos e heteronormativos. A pesquisa revelou não só a percepção dos usuários, mas também como os sistemas automatizados podem reforçar vieses existentes no mundo offline, replicando preconceitos com aparência de neutralidade.

A escritora Chimamanda Ngozi Adichie já nos alertava sobre os perigos da “história única”. Em sua emblemática palestra no TED, ela afirma: “É impossível falar sobre a história única sem falar sobre poder. O poder é a capacidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de torná-la a história definitiva daquela pessoa”.

Quando determinadas vozes têm alcance e outras são silenciadas por estruturas sutis (ou nem tanto), corremos o risco de criar realidades distorcidas — onde o que não se escuta, simplesmente não existe. O silêncio forçado, o eco contínuo das mesmas narrativas, o retrato parcial que se vende como totalidade: tudo isso molda o mundo mais do que gostaríamos de admitir.

Por isso, a questão não é apenas garantir que todos possam falar. Mas perguntar: quem está sendo escutado? Quem decide o que viraliza? Quem aparece na manchete? Quem escolhe os curadores do debate público?

Enquanto essas respostas seguirem restritas a círculos homogêneos, a liberdade de expressão continuará sendo um direito incompleto — garantido no papel, mas negado na prática.

Num mundo que se diz plural, é preciso pluralizar também o alcance. Abrir espaços de escuta. Subverter algoritmos. Redefinir quem tem o microfone e para quê. Porque o que está em jogo não é só o direito de falar — mas o direito de existir com voz.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Português do Brasil.

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