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A história por trás de um melão que custa o mesmo que um carro

Os noticiários de todo o mundo enchem-se de títulos sobre o Japão. Não é um terramoto nem um tsunami, não é um vulcão em erupção nem sequer a preparação dos Jogos Olímpicos. O alarido é causado pelos habituais leilões de fruta que se fazem no Verão e que, ano após ano, parecem escandalizar os ocidentais. Para além de títulos de gosto muito duvidoso, onde a escolha é empolar a estranheza e até o ridículo do preço das frutas, os próprios textos das notícias fazem ruborescer qualquer um minimamente familiarizado com as problemáticas do “orientalismo”. Nesta versão airosa de pseudo-notícias da silly season aparentemente é aceitável fetishizar toda uma nação e propagar a corrente (já avassaladora) do fenómeno “Weird Japan”… Depois de revirar os olhos, mais uma vez, é tempo de trazer uma pitada de sal à conversa, ou simplesmente o bom senso que falta. Efectivamente existem leilões de frutas nos quais uma só peça atinge o preço de um automóvel. Pode ser um cacho de uvas, ou um melão. Sim, isso acontece. Mas o leitor merece um pouco mais.

O Japão é um país com pouco terreno disponível para agricultura, devido à sua natureza vulcânica. O solo arável é usado sobretudo para arroz e outros cereais, para além de chá, pois foi isso que garantiu o sustento da população durante séculos. Ervas comestíveis e legumes de toda a espécie, sempre foram também abundantemente cultivados em hortas individuais e comunitárias. As frutas, devido à sua extrema dificuldade de cultivo naquele clima, não apresentavam para os japoneses as mesmas vantagens que outros produtos hortícolas.

As frutas podem ser picadas por insectos, as árvores de fruta são muito susceptíveis a doenças que arruínam colheitas inteiras, e se ainda assim se desenvolverem exemplares suficientes, normalmente têm um prazo de consumo muito curto e são difíceis de transportar. No Japão feudal isso levou a um desinteresse pelo cultivo de fruta ou sequer pela integração da fruta na psique colectiva como um elemento obrigatório no consumo diário de alimentos. A doçura da fruta era especialmente apreciada, pelo que era considerada sobretudo um “doce”, algo que se degusta por prazer – não porque alimenta – e que é um luxo.

Se havia bancas de fruta na rua? Claro que havia! Contudo, era a “fruta feia”, como lhe chamamos hoje: fruta de diversas formas e tons, eventualmente a tal picadinha de insecto numa delas, vendida em mesa temporária montada na beira da estrada. Aliás, foi de um desses vendedores de fruta à beira do caminho que nasceu a empresa que neste ano atingiu novos recordes de preços: a Sembikiya. O fundador talvez vendesse maçãs descoloradas, pequenas e tortas por meio tostão, mas o descendente de hoje dirige uma cadeia de boutiques de fruta que mais parecem joalharias.

A energia acumulada

O funcionário coloca cada meloa no seu ninho de imaculado papel acolchoado, isto depois de lhe colocar o autocolante com o selo da loja e da marca. Esta não é uma das meloas do leilão, será colocada em exposição na loja, ainda assim o seu preço ascende a quase 100 euros. Todas as meloas têm uma haste em “T” que é reminiscente da planta onde foram colhidas, e todas têm a mesma dimensão, cor, cheiro, e naturalmente terão o mesmo sabor. Excepto o “naturalmente”, claro.

Os produtores da fruta dedicam muitíssimas horas a cuidar de cada peça. A planta começa por ser podada criteriosamente, ficando apenas um protótipo de peça de fruta por cada planta, de modo que toda a energia se concentre nesse exemplar. A meloa é depois embrulhada em papel ou pelo menos ganha um “chapeuzinho”, para que os raios de sol não amadureçam mais um lado que o outro, de tal modo que a distribuição da luz e calor seja uniforme. Todos os dias são afagadas com vigor, já que a sabedoria de muitos anos prova que isso aumenta a doçura da polpa. Dia após dia, no controlo da água, luz, forma, calor, a planta é mimada com atenção constante. Da parte de quem cuida brota um fluxo constante de energia e preocupação.

Cuidar como o acto de dirigir energia para o/quem se cuida é um motivo muito caro à arte e cultura tradicionais japonesas. Os agricultores não estão inconscientes disso, e prontamente o assumem. Para eles é absolutamente evidente que a qualidade da fruta resulta da energia que acumularam, e que essa mesma energia veio de todos os dias em que um ser humano se dedicou a monitorizar o processo. Não há nada de “espontâneo”, aqui o “natural” é assumidamente “fabricado” e é melhor precisamente por isso.

A qualidade é atribuída à energia acumulada tanto porque esta se encontra simbolicamente encapsulada na fruta em si como pelo facto de esta escolha de método de produção acarretar despesa de mão-de-obra e agricultores experientes. A fruta “fica cara” ao longo da sua produção e de modo directamente proporcional ao quanto se gastou para que esta ficasse “perfeita”. O cliente final paga o preço do processo de transferência de cuidados constantes, e recebe um produto comestível que incorpora a energia acumulada de dezenas de pessoas ao longo de vários meses. Shintoísmo à mesa, sem exotismos, e com o sentido de humildade de quem compreende o quanto tudo e todos estão ligados.

 

O que significa oferecer

Para além de tudo o que foi acima dito, o câmbio da fruta não representa apenas o investimento de mão-de-obra e recursos. Outro factor muito significativo é o modo como, em cada sociedade, se entende o acto de oferecer presentes. No Japão é praticamente obrigatório para qualquer pessoa que não queira passar por um humanoide barbárico dominar pelo menos rudimentarmente a etiqueta do complexo código de presentes. Há presentes ligados a certas datas ao longo do ano, presentes que acompanham eventos da vida de uma pessoa, presentes que até têm nome (como as “omiyage”, que são a versão japonesa de “souvenir”), e presentes que não valem pelo que são mas pelo que custaram. As frutas ultra-caras pertencem a este último tipo, sem prejuízo de se sobreporem com qualquer um dos anteriores também. Confuso? Não admira, isto também rouba muitas horas de sono aos japoneses.

Imagine que o seu sobrinho estava a procurar trabalho há algumas semanas sem sucesso, e que se aproximava perigosamente o final do período de entrevistas para novos recrutas. Nesse caso poderia por exemplo lembrar-se de pedir ajuda a um colega seu da faculdade, que entretanto se deu bem na sua empresa e até dirige a secção de recursos humanos. O seu sobrinho vai à entrevista, e mesmo não ficando com aquela posição a que se candidatou foi encaminhado para outra secção, onde foi aceite para estágio. Foi a solução ideal, e o seu amigo de faculdade ajudou a agilizar o processo com elegância. Consequentemente, compra uma revista ou pesquisa online para se informar das frutas que estão na moda (sim, há modas nisto também) e depois visita uma boutique de fruta elegante. Ao entrar, é atendido por dois funcionários impecavelmente aprumados, que se disponibilizam para o ajudar, perguntando à partida, qual o seu orçamento. Isso é da máxima importância porque qualquer japonês vai querer, neste caso, oferecer um presente com um valor simbólico preciso: o valor do primeiro ordenado que o seu sobrinho vai receber. Assim, ao sair da loja com uma caixa onde está um dos melhores cachos de uvas da estação, bem como algumas maçãs, pêssegos e morangos, sabe que o seu amigo poderá ir ao website da loja para verificar online quanto custa cada fruta em catálogo, e “ler” na sua acção a gratidão que lhe deve pelo futuro do seu sobrinho.

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