Urban Sketchers: edificar os traços do desenho

Os contornos das cidades existem para serem lembrados. Desenham a paisagem e fixam-se na nossa memória: os telhados escuros, as fachadas de azulejos azuis e o vidro que desenha janelas de tamanhos grandes, que deixam entrar a luz nessas casas, de Norte a Sul. Depois há todos os pormenores: as cores dos casacos, os jardins e as estradas. Dentro dessa memória que temos dos sítios, que detalhes se guardam? Que imagens se emolduram nos quadros do nosso reconhecimento? Quem é que, no meio do enredo urbano, imortaliza os traços desses desenhos?

Nascidos em 2007 pelas mãos de Gabi Campanário, um jornalista e ilustrador, os Urban Sketchers desenham o redor e “mostram o mundo, num desenho de cada vez”. Com o slogan a ser fiel ao trabalho deles, estes ilustradores são estudantes, arquitectos, biólogos, ou, simplesmente, apaixonados pelo desenho. Alguns desenham há vinte anos, outros fazem o primeiro desenho, quando ouvem falar da iniciativa. A reinvenção da paisagem passa da sua edificação para o seu desenho, em caneta, aguarela, lápis, ou tablet. A imaginação é o fio condutor das técnicas, mas a ideia é retratar, sempre, a imagem real do lugar visto. Os cadernos envolvem-se nesta espiral sensorial que leva as cidades para um bloco de notas e muitas folhas A5.

Se ao início o movimento prometia ter poucos seguidores, o tempo negou esta tendência. Espalhados por todo o mundo, há pessoas completamente anónimas a intitularem-se de “urban sketchers”. Uns desenham cidades e linhas do horizonte rasgadas por edifícios, outros desenham apenas pormenores de tecidos, de cafés, ou de rostos de pessoas. Em Portugal, “tudo começou com 15 pessoas, mas rapidamente chegou a 100 membros e, desde 2009, que os Urban Sketchers inspiram mais pessoas a desenharem quotidianamente”, afirma Mário Linhares, responsável pelo blogue. Não há limite, nem ponto de partida e, pelo menos o blogue português, promete a inexistência de censura. Fora de portas, há administradores destas páginas que avaliam a qualidade, mas em território luso esse não é o lema. Defensores do desenho como forma de aprendizagem, os ilustradores nacionais acreditam que tal como se aprende a escrever, também se aprende a desenhar. Basta começar, divulgar e continuar: a paixão está garantida e Portugal reúne a maior comunidade de urban sketchers do mundo. O blogue luso conta com mais de 300 participantes e, apesar da pequena área geográfica do nosso país, há mesmo blogues que agrupam territórios como o Norte, as Beiras, ou a Madeira.

A beleza do processo encarrega-se de reproduzir também na memória um filtro muito importante, uma vez que o desenho de um lugar é muito mais demorado e pormenorizado do que uma fotografia de um sítio. Por isso, há nostalgia sintonizada neste processo de concepção e é muito mais fácil lembrar a sensação de lugar do que através de uma fotografia. A viagem pelos diários gráficos nem sempre é fácil e há desafios que os sketchers tentam ultrapassar. A essência também está no desafio e em Portugal, um dos maiores desafios foi, segundo Mário Linhares,“ desenhar no cinema, durante um filme francês. Até deixaram as luzes semi-acesas para que fosse possível ver o caderno. Foi uma sessão incrível. Eram cerca de 150 pessoas a desenhar numa sala de cinema.” Conjugadas as artes, o traço do lápis é a garantia de que o prazer de desenhar se atinge. É também para isso que o blogue funciona. Mário Linhares garante que a ideia não é a procura de um público, mas sim “a partilha de desenhos de observação feitos em cadernos. A simplicidade do processo e a diversidade de resultados é o que motiva as pessoas a visitarem o blogue diariamente e a aparecerem nos encontros para desenharem juntas.”

De casa para a rua, os Urban Sketchers são muitas vezes inundados por convites de passeios com outros ilustradores. Em Portugal, já se fizeram 33 e o próximo está marcado para o dia 19 de Janeiro, em Reguengos de Monsaraz. Como a troca de ideias em ambientes exteriores também é importante, a comunidade geral do Urban Sketchers organiza, todos os anos, um simpósio de três dias. A estreia foi em 2010, em Portland, e viajou, depois, para Lisboa, em 2011, Santo Domingo, em 2012, e, em 2013, Barcelona é a cidade a acolher o evento anual. Se espreitarem o site, ainda o deixa curioso, talvez valha a pena estar atento aos desenhos que vão ser usados na divulgação dos 500 anos do Bairro Alto, comemorados também pela arte do desenho urbano. Os Urban Sketchers passam assim a reinventar uma velha máxima e, agora, é a vez de ser o desenho que passa a valer mais do que mil palavras.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Escrever bem ou bem escrever?

Next Post

Os pais e a sexualidade dos filhos

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Para além da porta

As nossas vidas podem ser portas entreabertas, onde se escondem os segredos mais recônditos, as verdades mais…