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Crónicas

A felicidade vivia aqui – II

Uma cidade grande pode ser apenas um quarteirão simpático e aprazível. Famílias em casas são peças de encaixar e o lego de viver vai sendo modelado conforme os tempos e as vivências. Ali tudo fazia o seu sentido e, mesmo sem o saber, a rede de protecção, as mãos estendidas, nunca falhavam.

Um bairro é uma célula que pulsa e tem um núcleo funcional. Ali havia de tudo e ainda amor para todos. Tempos em que os sentimentos tinham primazia e valor. Cada um era importante e crescer assim, além do conforto oferecido, era tão doce que quase havia vontade de querer parar o tempo.

No prédio em frente ao meu, havia uma pensão modesta que era poiso de gente que pouco tempo ficava. Rostos que nem se conheciam e que não conseguiram deixar marca. Somente caras que se assomavam a janelas e que, no dia seguinte já estavam longe.

Mais à frente, na oficina, era o desfile de carros que tantos desejavam, mas nunca conseguiriam passar disso. Mercedes é um nome tão forte que não pode passar despercebido. Mecânicos, motoristas, engenheiros e doutores criavam um cenário de filme. Movimento contínuo que enchia outro estabelecimento: o snack bar.

Com o ousado nome de 2000, cheirava a futuro, ficção científica, maquinaria cheia de coisas estranhas e animais com umas antenas em lugares fora do normal. No entanto, era uma casa simpática, com um balcão comprido e muito atraente onde tantas delícias, cheias de açúcar, apelavam ao paladar de muitos.

Ali as experiências gastronómicas tinham nomes de sereia, alegres e dúbios. Pratos combinamos e outros de teor idêntico eram a curiosidade de muitos que, ao os provar, deleitavam o palato e acalmavam a barriga. Sumos naturais e conversas boas com amigos ou os empregados, eram o chamariz que enchia a casa.

Ao lado, com montra gigante, a farmácia anunciava um produto milagroso, uma tal magia que dava fertilidade às mulheres desesperadas. Eram as abelhas que o fabricavam e mereciam respeito. Eu, bem pequena, olhava para tudo com admiração e espanto. Não funcionou com o proprietário. Coisas da vida.

Não havia clientes nem incógnitos, mas sim amigos, pessoas que precisavam de ajuda e aquela casa de sofrimento elevado, que minorava as dores de muitos, era um templo especial a visitar. Tempo em que se compravam escovas de dentes e pensos higiénicos, com muita vergonha, a horas de menor movimento. Tanto mundo e tanta gente.

Outra casa de encanto era a ourivesaria. A D. Lisete vendia jóias e muitos sonhos a prestações. No entanto, o que me fascinava era o senhor que estava atrás de um vidro, com um óculo num olho. Era o relojoeiro e as mini rodas dentadas daquelas máquinas fantásticas levavam-me a locais que não sei descrever.

Tic tac tic tac, baixinho, batia no meu coração e a vida parava em som de uma badalada fina. Aquilo era magia da mais pura. Relógios certeiros que habitavam em corpos distintos e humanos. Chegar a horas, sair a horas, haver e ter horas para tudo. Tic tac tic tac. Vidas mecanizadas e automáticas a seguir carreiros marcados.

O Palácio era território tentador e as suas janelas gradeadas faziam-me lembrar os tempos antigos, cheios de reis e rainhas. Lá dentro era o deslumbre geral e o cheiro aos livros, aqueles objectos cheios de coisas boas, era tão tentador que lhes tinha que tocar. O amor começava aqui e o nome Galveias batia no meu âmago.

Contudo, o melhor era o jardim onde todos se juntavam a contar as suas aventuras.  Foi ali que ouvi confidências, que as fiz, que limpei lágrimas e que as verti. Alegrias de crianças que começam a crescer.  Era ali, num recinto amplo, onde se disputava o campeonato dos arrotos e o de cuspir caroços, para gáudio de muitos.

Pouco resta deste tempo, já se evaporou. Os prédios foram demolidos, como o meu, mas as memórias ficaram. Alguns dos meninos já nem existem e outros estão espalhados pelo mundo. Ficou a memória da infância e da ingenuidade de não se saber que a vida dói.

Encerro agora o livro das memórias e guardo-o num local alto, tal como as mil e umas alegrias que tive. Se recordar é viver, então voltei à infância e sou novamente uma gaiata que gostava imenso de sorrir. Sou imensamente feliz e tenho a vida toda para desenhar!

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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