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POLÍTICAS. Em desmantelamento

“Ao longo da História, onde é que encontramos uma fusão tão completa entre poder político e assuntos pessoais? (...) isto não sucede quando nasce um conflito de interesses, mas quando há uma absoluta identidade de interesses entre a própria vida (com os respectivos interesses privados) e o Estado.” Umberto Eco, in A Passo de Caranguejo

2007 Despenalização da IVG, vulgo aborto

Confesso que neste referendo votei contra esta lei.

Não, porque a mulher tem o direito de decidir sobre o seu próprio corpo, mas porque ninguém tem o direito de decidir sobre quem deve viver ou morrer, ainda antes de existir. É injusta esta lei! Para com as milhares de mulheres que não podem ser mães por razões variadíssimas. Pela agressão ao corpo a que se sujeitam por não existir outro meio ou recurso capaz de o contradizer. Pela penalização emocional que, suspeito, muitas possam vir a sentir e ter de lidar com essa escolha. Pela deficiente ou quase inexistente organização dum Programa de Planeamento Familiar eficaz. Que passe pela sensibilização, prevenção, acompanhamento e apoio regular das utentes, através de acções efectivas, formação e contacto nas várias vertentes. Desde o início da adolescência, em escolas e na comunidade, até idade adulta, nos CS e USF locais.

Uma opinião pessoal que, ao longo do tempo, se vai limando e reconstruindo. Porque se evoluí e ao entender que não estamos isolados, a minha voz não deve responder só por mim, quando toca a assuntos referendados e que abrangem um grupo maior que o próprio indivíduo. A isso se chama estar em sociedade.

Claro que são temáticas distintas e que nada têm de comum. Ou, terão? Para a lei em questão ficarem de fora?

Porém, reconheço o mérito de, há mais de 15 anos atrás, ter sido uma batalha ganha. (no campo da política, tudo o que a faz, pertence a um ganho ou perda, como se se estivesse constantemente em luta)

Acredita-se que, qualquer política ou lei que se quer revogada, tenha por base a construção de algo ou, pelo menos o início dum caminho para lá chegar.

A lei da despenalização da IVG tem muito mais do que só legalizar ou despenalizar, pelo efeito nefasto que a acção gera no aceitar.

Não é apenas o direito à vida, duma possibilidade de vida, já o ser, mas, o direito à vida daquela que detém o direito do seu próprio corpo. Um direito à liberdade de escolha. Um direito à liberdade como emancipação de género. Um vincular desse estado, em contrariedade para com o poder patriarcal, subjacente ao Homem que faz e tem feito as leis.

Para agora, regredirem-se anos-luz, inventando desculpas para a penalização do despenalizar que se conseguiu com este referendo. Apontando outros “culpados” e “responsáveis”, capitalizando o seu mérito e aliciando-os para a dissolução de algo já referendado. Este é o lado B do debate.

Em determinado momento, referi-me ao papel da mulher, como aquela que poderia ou não abrir consciências e, a sua ascensão dentro da igualdade que tanto tem almejado.

Noto aqui, infelizmente, uma notável coincidência com o facto de “a mulher, ao se equiparar e querer estar em pé de igualdade com o seu congénere, se torna igual a ele”. Não entendendo que qualquer justificativa para clarificar o assunto em questão, nada tem a ver com regresso ao passado ou, desconstrução do já conquistado.

Só uma eventual e anómala neurose ou, estado de Alzheimer, pode ser o motivo para o qual se volta a “banalizar” temática de tal forma.

Senão veja-se. O que foi conquistado.

O que agora se usa para contradizer esse ganho; camuflado entre dentes pobres dum sistema de avaliação (tanto para debater!), que burocratiza o acto de cuidar; é estrangulador da qualidade de cuidados que os profissionais de saúde tendem a prestar para com os cidadãos e comunidade.

Médicos de famílias com utentes que fizerem aborto voluntário podem vir a ser penalizados caso o Governo aceite uma proposta com novos critérios de avaliação nas Unidades de Saúde Familiar modelo B (USF-B).

Este assunto veio a público há cerca de 3 dias, como uma proposta “completamente castradora” do desempenho profissional e profundamente ofensiva a todas as mulheres. Porém, o que assistimos é a algo que merece um aprofundamento dos factos, para não se confundir aquilo de que se trata efectivamente.

Porque de achismos está o país abundado, porém, de opiniões concretas, com base em factos e conhecimento de ambas as partes da discussão, muito poucos se assumem. Este é o lado A do debate.

Ouvida a Sr.ª Ministra da Saúde, uma proposta realizada por um “Grupo Técnico” e cujo ministério ainda não se havia pronunciado sobre o assunto e, com toda a legitimidade, é meritório pela abertura de diálogo ou discussão, que como refere “quando deixarmos de debater, deixamos de servir aquilo que é a nossa função”.

Estamos em 2022, não é uma discussão para o nosso País, não é uma discussão para este Governo, e creio que não é uma discussão para aquilo que é o bem-estar das mulheres que podem, de facto, fazer as suas opções. Sendo certo que há aqui uma questão de saúde que tem de ser bem analisada.”

Marta Temido, Ministra da Saúde

Este é um debate bem mais profundo, que no nosso País poder-se-á não aplicar, pelo estatuto que já foi regulado, mas que, infelizmente, não se verificará no resto do Mundo.

Lamentavelmente, que notícias como esta aqui registada, no nosso País são passíveis de discussão e debate, noutros, em pleno ano 2022, são opressivas, tortuosas e de tempos pré-históricos.

Direito ao aborto nos EUA: “Porque haveria uma mulher no Texas ter direitos diferentes aos de uma mulher no Minnesota?”
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Carmen Ezequiel

Carmen de Jesus Martins Ezequiel nasce a 8 de Abril de 1975 em Queijas, freguesia de Carnaxide, concelho de Oeiras. É sonhadora, brincalhona, impulsiva, emotiva, com uma força interior capaz de mudar o mundo… pelo menos o seu. Em Vila Boim, bela terra do Alto Alentejo, cresce e nas suas planícies se norteia para fazer da poesia o seu modo de viver a vida. Trabalha numa área à qual nunca imaginou actuar e do contato com o sofrimento e angústias diárias, valoriza o ser acima do estatuto e escreve a sua história com palavras geradas das emoções. É feliz por saber que o que faz tem impacto nos outros. Em paralelo, expõe esses sentimentos e experiências vividas no papel e dá-os a conhecer aos outros participando activamente em colectâneas, antologias, jornadas, artigos de opinião, e outros de âmbito literário e cultural. A autora não utiliza o Novo Acordo Ortográfico.

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