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Crónicas

Razões para admirar a mística do roxo e lilás

És a filha dileta da noss´alma

Da noss´alma de sonho e de tristeza

Andas de roxo sempre, sempre calma

Doce filha da gente portuguesa!

(Florbela Espanca)

Concluindo a minha crónica anterior, intitulada “O sentido do arco-íris no desejo do Bem”, detenho-me, então, em escrever apenas sobre a cor violeta, como me tinha proposto. E faço-o não só por ser uma cor especial, a sétima do arco-íris – por isso, a cor da perfeição! –, mas também por haver muito a referir sobre ela. E, ainda, claro está, por ser – desde que me conheço – a minha cor de eleição (as tonalidades extremas, menos ou mais intensas: o lilás, o roxo e a púrpura, e não propriamente aquela cor aberta e natural, mais “choque” e “agressiva” da violeta), por muitos dos motivos que aqui apresento.

Não vou debruçar-me, novamente, no arco-íris, todavia, friso – já que não o fiz no texto anterior – que significa algo tão peculiar: o “arco-da-Aliança” para as três religiões monoteístas. E partilho estes versos poéticos alusivos (excerto), de R. Brooke:

«Eis o que amei: (…)

O arco-íris; o fumo azul e acre da madeira;

E gotas de chuva reluzentes na frescura das flores;

E as próprias flores, a baloiçar às horas soalheiras,

Sonhando com falenas que as bebem ao luar.»!

Características da Violeta, Roxo & Lilás

Primeiro, um esclarecimento básico: conforme definido por I. Newton no seu espectro eletromagnético, a cor predefinida é violeta (do latim viola, género feminino). E não outro nome dos 41 tons diferentes e derivados desta cor, classificados e catalogados. É uma cor com o seu próprio comprimento de onda e com variedades de tonalidades, em termos de coloração. Portanto, o lilás (do francês lilas) e o roxo (do latim russeus) – entre outros, como alguma da terminologia botânica – são tons duma mesma cor espectral, a violeta, e não realmente “cores” (na verdadeira significação da palavra). O mesmo sucede com outras cores e suas diversas derivações. Há intensidades da violeta que lhe são atribuídas, mas que – na minha perceção – parecem estar muito mais próximas do vermelho e do rosa, do que propriamente da violeta. Como, por ex., o grená, a fúcsia ou magenta.

Dito de outra forma, o roxo é, simultaneamente, semelhante à violeta – dele deriva – e diferente dele, ao resultar da composição na “proporção igual” entre dois opostos: a cor quente vermelha e a fria azul. Deve ser, por isso, das cores mais ambivalentes/dicotómicas existentes: feita “de lucidez e de ação refletida, de equilíbrio entre a terra e o céu, os sentidos e o espírito, a paixão e a inteligência, o amor e sabedoria” (J. Chevalier e A. Gheerbrant).

É a cor mais antinatural e incomum (nem sempre encaixou e encaixa nos padrões da sociedade), mais difícil de entrever e a mais penetrante, já que é a luz visível de menor comprimento de onda. Acima da frequência aviolada, a faixa torna-se invisível ao olho nu – a luz ultravioleta (ou luz negra).Já o lilás, forma-se adicionando branco a esta combinação. Este tom confere mais romantismo à violeta. Na antiguidade, esta tonalidade era até dirigida às solteironas.

Outra dissemelhança que convém registar, por vários lapsos inexatos que se lê por aí, incide no género das palavras: enquanto “violeta” é feminino (vê-se, muitas vezes, “o violeta”), “lilás” e “roxo” são do género masculino.

Efeitos na Personalidade Humana

Todos esses tons da violeta são relaxantes e tranquilizantes, coloridos positivos e propícios à paz interior e ao apaziguamento, à meta dum objetivo e ao autoconhecimento, ao combate do stresse e ao autocontrolo.

Para J. Jardim esta é uma cor “estimulante, que atua sobre o coração”. E denota um ser sensível, calmo, confidente, ambicioso, trabalhador, inteligente, introspetivo, místico, obediente, criativo, original, inconformista, intuitivo, lúcido, submisso, persuasivo e inquieto. Revela grandes ideais, frescura e força psíquica únicas; simboliza dignidade, respeito e sinceridade; e é uma cor – com seus tons – de profundo efeito sobre a mente. Logo, ajuda à libertação de obsessões, medos e outras inquietações. Ajuda a encontrar novos caminhos.

É, também, conhecida como cor da sobriedade, profundidade e prosperidade; da temperança e energia cósmica (sobrenatural e metafísica do universo); da magia, segredo e alquimia; da beleza, grandeza e delicadeza; dos movimentos homossexuais (em determinadas culturas ocidentais) e da sexualidade (a propósito das relações sexuais imorais, O. Wilde poetizou-as de “as horas violetas no tempo cinzento”).

Em propensa demasia, o violeta e seus tons podem também constituir aspetos menos positivos no perfil dos seus entusiastas. Tais como: a melancolia, a tristeza, o individualismo e a fantasia.

Enquadramento Histórico

O roxo, outrora mais conhecido (e confundido) por “púrpura” (do latim purpura, -ae; aliás, ambos os termos, têm a mesma tradução em inglês: purple) surgiu primeiramente na arte pré-histórica durante a era neolítica, entre 25.000 e 16.000 a.C.. A cor era denominada de “púrpura tíria” (de Tiro, no Mediterrâneo Oriental), donde era extraído o corante e que se alargou ao mundo antigo. A púrpura, na pintura e na teoria das cores, é definida – tal como o roxo – entre a violeta e o magenta/o vermelho, respetivamente.

Os artistas da gruta de Pech Merle (só descoberta em 1922), e doutros locais neolíticos em França, usavam varas de manganês e pó de hematita (um óxido de ferro ocorrente em solos e rochas) para desenhar e pintar nas paredes das cavernas (ora animais ora os contornos das suas mãos).

Da costa da Fenícia Antiga (atual Líbano), civilização de três períodos entre 2.300 e 65 a.C., vinha o roxo mais famoso de todos os tempos, oriundo das conchas de caramujos espinhosos. Estas ainda existem, dispostas em camadas que medem vários metros de altura. Segundo a escritora húngara Á. Heller (1929-2019), os fenícios descobriram o tingimento com púrpura em 1.500 a.C.. Já no livro de Dinah Pezzolo, sobre “Tecidos”, indaga-se que “os primeiros testes desta tintura (…) deram-se em 1439 a.C..

Esse pigmento púrpuro exigia um duro processo artesanal: era retirado de alguns tipos de moluscos nativos do mar Mediterrâneo, como os murex brandaris (= “múrice”, os mais brilhantes e duráveis) e purpura haemostoma. Também se encontravam na costa Atlântica e nas Ilhas Britânicas. Os tons mais valorizados eram os mais aproximados à cor do sangue seco, que fica arroxado (como se constata nas pisaduras epidérmicas).

Ou seja, era do muco/secreção desse caramujo – cujo sangue os antigos julgavam ser roxo – que se fazia o pigmento. Ao ser tirado esse muco ele liberta um fluído branco, que ao banharem nele (solução do corante) os tecidos brancos e serem secados ao sol, tingem-nos e manifesta-se, assim, a coloração púrpura brilhante. Mesmo depois dos fenícios revelarem o segredo, o custo não reduziu, pois eram precisos mais de 10.000 moluscos murex para transformar uma lã crua em veste roxa. A tintura púrpura tinha mau odor, por isso os trabalhos de todo esse processo, em lugares fedorentos, reservavam-se aos escravos. Tal preceito espalhou-se: os índios mexicanos também o faziam e, à água, misturavam sumo de limão para obter mais muco.

Por ser algo tão difícil de conseguir e de realizar tal fabricação do corante, a púrpura era de enorme requinte, muito cotada e, portanto, reputada – em várias culturas antigas – como a cor da realeza (sobretudo na Europa, América do Norte e Médio Oriente) e da nobreza (Oriente). Simbolizava o poder: era imagem dos Imperadores (romanos, romano-germânicos – como Carlos Magno – e japoneses, entre outros) e dos que governavam. Eles vestiam de púrpura e, na época, era algo maior do que usar ouro: uma onça de bom corante roxo custaria, muitas vezes, mais do que uma libra de ouro!

Vejam-se alguns factos concretos:

– Na China Antiga, surgiu o primeiro registo escrito divulgado – datado de 2.600 a.C. – sobre os corantes naturais e o seu manuseamento nessa nação. “A cor das roupas indicava posição social: amarelo para o imperador, violeta para suas esposas” (D. Pezzolo). O roxo usado era gromwell e não o do caramujo múrice, visto que este corante fenício não aderia facilmente aos tecidos chineses, tornando os tecidos roxos caros. O roxo acabou por se secundarizar nas opções de cores. A partir do séc. VI o roxo superiorizou-se ao carmim e voltou a ter grande conotação e utilização;

– Na Grécia Antiga (2.000-146 a.C.), a violeta era uma planta de reverência à deusa Afrodite e era o símbolo da cidade de Atenas. A cor era estrita a pessoas ricas e elegantes. Também nos clássicos antigos, tanto na “Ilíada” e “Odisseia” (cobertores roxos no leito matrimonial de Ulisses) como na “Eneida”, dos poetas grego Homero (928-898 a.C.) e romano Virgílio (70-19 a.C.) – por respetiva ordem –, era mencionado o hábito das vestes púrpura tírias. Na peça “Agamenon”, do dramaturgo grego Ésquilo (525-546 a.C.), a rainha Clitenestra recebe o seu marido Agamenon, vitorioso regressado da “Guerra de Troia”, decorando o palácio com tapetes roxos;

– Em Israel, pelo ano 950 a.C., há o relato de que o rei Salomão trouxe artesãos de Pneu para fornecer tecidos roxos para decorar o Tempo de Jerusalém (o “Primeiro Templo” construído no seu reinado);

– Na Roma Antiga (reino: 753-509 a.C.; república: 509-27 a.C.; império: 27 a.C.-476 d.C.), produziam-se vinhos de violeta; só o imperador, a esposa e o herdeiro podiam usar túnicas roxas – quem não cumprisse era submetido à pena de morte; já os senadores, magistrados e sacerdotes apenas podiam usar listras púrpuras em parte das suas roupas. Havia o costume romano de usar togas. Havia a toga praetexta, uma toga branca comum com uma larga faixa roxa na borda. Era usada entre os rapazes romanos menores de idade – nascidos livres –, os sacerdotes e algumas outras categorias de cidadãos. E havia a toga picta, de um roxo sólido e bordada a ouro. Usavam-na os generais nos seus triunfos, o ‘Pretor Urbano’, os magistrados que ofereciam jogos de gladiadores públicos, os cônsules e o imperador (em ocasiões especiais). A prática das togas roxas pode ter vindo dos etruscos: olhando a uma pintura tumba etrusca, do séc. IV, com um nobre vestindo uma toga roxa bordada. Segundo o imperador Diocleciano (governo: 284-305), “a lã púrpura custava 20 vezes mais que a lã natural”. Sabe-se, ainda, que Plínio sugeria o uso de coroa de violetas para curar dores de cabeça e tonturas (a pedra ametista terá o mesmo efeito);

– No Egito Antigo, a rainha Cleópatra (reinado: 51-30 a.C.), tingiu de roxo a vela do seu barco;

– Em Londres, na abadia de Westminster, encontra-se desde 1308 uma poltrona de braços forrados em veludo púrpura, onde foram coroados os reis e rainhas de Inglaterra. A própria coroa real e o carro, em que as rainhas assistem às comemorações no seu dia de aniversário, são forrados nessa tonalidade. Assim se mantém com a rainha Isabel II (coroada em 1953), que também usa conjuntos roxos na sua indumentária normal.

Com a transição do Império Romano para o Império Bizantino (395-1453), onde se inclui nesse período a Dinastia Carolíngia (751-987), a púrpura continuou o seu ascendente potencial. Ela dominava a imagem nos presentes diplomáticos, nos documentos imperiais e manuscritos do Evangelho (Bíblia): escritos em letras douradas em pergaminho de tom purpúreo tírio. Nesse tempo, as imperatrizes concebiam na “Câmara Púrpura” e os imperadores lá nascidos eram conhecidos como “nascidos da púrpura”. Até para os diferenciar e distanciar dos imperadores que subjugaram o título imperial através da força militar ou da intriga política.

No final dos Impérios, várias espécies deste molusco – principalmente o múrice – estavam em perigo de extinção. As leis dos sumptuários, que determinavam o que cada um/a podia usar, não estavam a ser aplicadas, além de que sobrava dinheiro. Por isso, todos aqueles que tinham dinheiro (a mais) começaram a usar muitas roupas roxas. Com o desmoronamento imperial, e procedente recessão económica, os murex foram salvos. Os imperadores orientais ainda podiam pagar, mas a púrpura foi-se tornando sucessivamente a cor dos papas e cardeais/patriarcas.

O roxo imperial retornou aos tribunais dos imperadores romanos e passou deles para as famílias reais europeias. Novas leis pelos sumptuários foram impostas e aplicadas pelos monarcas. Com este poder real alocado à púrpura, a Sicília foi – durante séculos – um centro de tinturaria à base desta coloração até ser suprida pelo “carmim”, sobretudo, oriundo do inseto cochonilha. Passou a ser esta a cor/tonalidade mais cara no Ocidente. Há quem aponte, também, o reforço do “escarlate” nesse lote a “preço de ouro”.

Portanto, em 1453, na Constantinopla (atual Istambul) e com a sua queda, a púrpura tíria desapareceu e perdeu o seu status imperial, quando a cidade foi conquistada pelos turcos otomanos: destruíram as últimas tinturarias existentes e mataram os trabalhadores.

O papa Paulo II decretou, em 1464, que os cardeais passariam a utilizar o carmim, em detrimento da púrpura. Já os bispos e arcebispos recebiam, na mesma, a púrpura, mas a mais pobre: não a rica púrpura tíria. O roxo empregou-se com menor frequência pela monarquia medieval e renascentista. Ao passo que, em muitas novas universidades europeias, os professores andavam de vestes roxas, modeladas de acordo com as do clero. Usavam, muitas vezes, chapéus e capas quadradas, violetas ou roxas, ou vestes negras com minudências roxas. Já os estudantes de Teologia, para se distinguirem, vestiam túnicas roxas. Apesar de algum desuso generalizado, a púrpura ainda era igualmente usada pela imperatriz Catarina II da Rússia (governo: 1762-1796), por outros governantes, por bispos (em tons mais claros), por cidadãos aristocráticos, mas raramente pelo povo.

Demorou muito tempo até que a população, em geral, pudesse apropriar-se de vestuário roxo ou outros tons similares, mal tal aconteceu no séc. XIX. E deixando de ter um custo tão elevado. Aconteceu a partir de 1856, quando Sir William H. Perkin – com apenas 18 anos de idade – isolou, por acaso, o primeiro corante sintético de anilina, que era roxo. Com isto, e no ano seguinte, a família Perkin abriu a sua fábrica de corantes, perto de Londres, para explorar a patente desse brilhante estudante de Química. Produziu o corante por tonelada, para que todos pudessem usar o produto, então designado de “malva”. Seis meses depois da nova indústria funcionar, começou a ser comercializado e exportado. O sucesso foi rapidamente atingido: em 1862, a rainha Victória usou um vestido de seda tingido com o novo corante, na “Exposição Real”. A malva foi, assim, difundida na Europa – na década de 1860 – e, depois, na América, durante e, sobretudo, após a Guerra Civil (1861-1865).

Nos tempos mais modernos, a púrpura tíria foi retomada a grande custo: em 1909, o químico alemão Paul Friedländer (1857-1923) recriou a fórmula química e precisou de 12.000 moluscos para criar 1,4 onça de corante (o suficiente para tingir um lenço). O corante passou a ser produzido sinteticamente. E quanto dinheiro não teria ficado esse lenço! Tendo em conta que, num período do último século, um grama de púrpura tíria – feito de 10.000 moluscos e de acordo com a receita original – custou 2.000 euros…

Com Perkin, a malva foi a pioneira de uma série de corantes industriais modernos que modificaram significativamente o sector, bem como a moda, o marketing/ publicidade, etc.. Despontaram, a partir daí, algumas marcas e produtos no mercado aficionadas aos tons violeta, influenciando os consumidores, ou não, nas suas próprias escolhas. Eis diversos exemplos desses logótipos comercio-empresariais (e de áreas tão diversificadas): Barbie, Yahoo, Syfy, Los Angeles Lakers, Hallmark, FedEx, Taco Bell, Twitch, Lifetime, Roku, Monster, Benk, Premier League, Zugata, Nexium, PurpleLemon, Love Grown, Wellness, Light&Fit, Brachs, Viber, Welch’s, Crown Royal, Colorado Rockies, Wholesome, Brazi Bites, NYU, Apollo, Contours, Starlight Children’s Foundation, Purple Cow Ice Cream, Curves, Craigslist, Asprey, Mondelez International, Cushelle, THAI Airlines, Zoopla, Aussie, BitTorrent, Big Brothers Big Sister, Neurona, GNT, By Kaee, Rummble, Zirrus, UnitedCats, Musana, Fruits Bowl, Kinect, Star Shine, Vivo, F.C. Peñarol, Fiorentina, VFL Osnabrück, F.C. Hamburgo, S.W. Harelbeke, F. Austria Wien, Defensor S.P. La Viola, Windows Phone e OneNote (da Microsoft), entre outras. Também no mercado livreiro há, atualmente, centenas de livros – em algumas línguas universais – cujo título integra uma destas colorações (púrpura, roxo, violeta, lilás, ou outras familiares).

Diversidade Cultural

Deixo mais dados pesquisados sobre a importância desta cor pelo mundo:

– Na África do Sul, houve o protesto Purple Rain Protest, em 1989 e na cidade do Cabo, contra o apartheid: um canhão policial de água com tinta roxa pulverizou milhares de manifestantes;

– Na antiga Alemanha nazi, os prisioneiros dos campos de concentração que eram membros de grupos religiosos não-conformistas, como as Testemunhas de Jeová, tinham obrigatoriamente de usar um triângulo roxo;

– No Brasil, na América Latina, na Tailândia e em países europeus, o roxo é a cor do luto ou do semi-luto; mas na Tailândia, a cor relaciona-se com as viúvas;

– No Egito atual, a definição de roxo inclui a virtude;

– Nos EUA, o «Coração Roxo» é a condecoração militar mais antiga e ainda atribuída aos membros do exército americano, por considerarem a cor da honra. O primeiro projeto do iPhone foi o Project Purple, quando começou a ser desenvolvido pela Apple. O roxo aliou-se, de igual modo, à mudança social: nas primeiras décadas do séc. XX fundou-se o movimento Sufrágio das Mulheres, que lutava pelo direito de voto feminino, finalmente conseguido em 1920, na 19.ª Emenda da Constituição dos EUA. Nas expressões culturais e contraculturais o roxo acentuou-se a partir das décadas de 60, com os movimentos hippie, psicadélicos e de drogas: em 1967, Jimi Hendrix compôs a música Purple Haze e ganhou fama o roxo psicadélico. Na década de 1970, o roxo tornou-se cor do feminismo e da libertação das mulheres, em homenagem às sufragistas. Em 1984, o músico Prince editou o seu célebre tema e álbum Purple Rain (embora a sua cor preferida não fosse o roxo);

– Na França, da Idade Média, os gauleses misturavam o vermelho da garança com o azul do pastel para conseguir uma bela tonalidade de violeta (D. Pezzolo). Séculos mais tarde, a imperatriz Eugénia (governo: 1853-1870) usava muitos vestidos de malva forte. Há ainda vários campos imensos de lavanda, tanto neste país como na Croácia;

– Em Inglaterra, o roxo era não somente popular entre os pintores renascentistas e suas obras, mas também nos pintores pré-rafaelistas, que criaram a sua irmandade artística em 1848. Nasceu, também, neste país a banda rock Deep Purple, em 1968;

– No Japão atual, vêem-se vários descampados aviolados: muitos jardins, planícies e túneis de glicínias. É, também, frequente o bordo-japonês ou acer-palmatum – havendo em roxo – na cultura bonsai;

– Em zonas do Médio Oriente, consta que esta cor afilia-se em parte à prostituição;

– Na Nova Zelândia, no final da primavera e em alguns lugares, surgem os enormes tremoceiros selvagens em flor, de tons violeta;

– Na Itália atual, consta que os artistas supersticiosos não entram em palco se têm de usar algo roxo.

Referências Religiosas

É considerada a cor da espiritualidade e da piedade, da meditação e da transformação – ou não fosse íntima a sua posição no arco-íris (enquanto o vermelho é exterior), a cor mais interior. Refira-se que a púrpura é o tom da eternidade, porque é absolutamente à prova de luz: esta é a explicação pelo facto de vários caixões fúnebres serem forrados nesse tom. Enquanto as outras colorações desbotavam, ao contrário da púrpura.

Veja-se, ainda, que na liturgia católica, o roxo é uma cor verdadeiramente preparatória de algo importante que vem (Natal e Páscoa): seja no Advento, seja na Quaresma, respetivamente. Portanto, a violeta – tal como o anil – é a cor mais associada aos nativos do zodíaco próprios desses meses propedêuticos (Sagitário, Aquário e Peixes).

Nos livros sagrados abraâmicos, a púrpura, o roxo e a violeta são referidos e apresentados como algo de alto preço. O próprio Jesus usou um manto de púrpura (nas horas que antecederam a sua crucifixão), por ser o rei dos Judeus. Notem-se as dezenas de vezes nas seguintes passagens: no A.T. (Bíblia) e na Torah – Êxodo e Shemot 25, 4; 26, 1.31.36; 27, 16; 28, 5-8.15.28.31.33.37; 35, 6.23.25.35; 36, 8.35.37; 38, 18.23; 39, 1-5.8.24.29 / Números e Bamidbar 4, 13; 15, 38 / Juízes 8, 26 / 2 Crónicas 2, 7.14; 3, 14 / Ester 1, 6; 8, 15 / Provérbios 31, 22 / Cânticos 3, 10; 7, 5 / Isaías 1, 18 / Jeremias 10, 9 / Lamentações 4, 5 / e Ezequiel 27, 7.16. No N.T. – Marcos 15, 17 / Lucas 16, 19 / João 19, 2.5 / Atos dos Apóstolos 16, 14 / Apocalipse 17, 4; 18, 12.16. No Corão, a cor violeta e seus tons não constam mencionados. Apenas versam referências a outras 8 cores (e separam, por ex., o verde do verde escuro).

Na Índia, maioritariamente hinduísta, o roxo confina-se com a ideia de ressurreição. Já no Japão Antigo, apenas os monges budistas da mais alta hierarquia, além da família imperial, vestiam roupas roxas (roxo = murasaki, em japonês), já que era uma cor muito dispendiosa pelo facto de ser extraída da shigusa, muito difícil de cultivar. No Budismo, a ametista – pedra preciosa roxa composta duma variedade de quartzo – é uma pedra sagrada desta religião. Buda (563-483 a.C.) até dizia: «Pare de ser rosa e tente ser violeta. Tente ter paz e não desigualdade».

Contexto Social

Ainda é uma cor mal entendida e discriminada, sujeita a sexismos imbecis: tanto a violeta clara (lilás) como a escura (roxo) devem de ser indiferenciadas no gosto sexual e colocados ao mesmo nível na igualdade de género: ainda há quem olhe de soslaio e ironize quando vê um homem, muitas vezes, vestido de tons arroxeados. Ou usando algo nessas gradações. E porquê?!

Recordo-me de, em 2017, alunas minhas do 2.º ano (com 7 anos de idade) – na sua ingenuidade – me verem de lilás/roxo e me perguntarem por que andava eu vestido com cor de menina. Como adquiriram elas este preconceito? É uma deformação de noção, que passa indevidamente e se tem de corrigir! É certo que não há nomes próprios masculinos provenientes desta cor, apenas femininos (ex.: Violeta, Viola, Iolanda, Hortênsia, Malvina, Érica), mas tal não invalida que esta cor seja unissexo, em rigor, como outra qualquer cor!

Apesar de tudo e da sua extravagância, esta cor não deixa de ser um pouco apreciada, não ficando no fim da tabela. Prova disso é o estar na moda, nos últimos anos, em alguns sectores: têxtil e cosmética, decorativo e desportivo. Atingiu um pico mediático nos anos 70 (séc. XX): foi eleita a cor da moda, quando o tema da época era a expansão da consciência.

Segundo inquéritos de opinião e publicados por M. Pastoureau, o laranja e o castanho – tal como sucedia na Idade Média – são as cores menos amadas na sociedade ocidental. Ao contrário do azul que, segundo esses estudos, é a cor preferida de mais de metade da população ocidental. A violeta vai conquistando mais amantes, que não apenas os 3% de admiradores, conforme o resultado num outro estudo do género. Ainda noutras estatísticas, foi demonstrado que 75% de crianças preferem a cor violeta e seus tons derivados (entende-se na magia de misturar cores adversas para delas provir o roxo e/ou o lilás).

O Deslumbre da Natureza

Há algumas flores, plantas e árvores com esta cor (não só, mas também) que pertencem às violáceas, às liliáceas e a outras famílias botânicas, cujo pigmento é dificilmente extraído. Alguns exemplos, de modo total ou parcial: a violeta ou víola (= Viola odorata), a violeta-da-pérsia, a violeta-de-parma, a lavanda ou alfazema (o rosmaninho ou alecrim), a malva, o amor-perfeito, a hortênsia ou hidrângea, a quaresmeira, o lilás, a orquídea, a íris, a margarida, o jarro ou copo-de-leite, o lírio, a érica, a alcachofra, a glicínia, o jacarandá, a serápia, a sapucaia, a buganvília, a tulipa e a rosa (bem mais raras de se encontrar), etc.. Apesar de parecer haver variegadas flores de cor violeta, e nos seus tons, esta não deixa de ser a cor mais rara da natureza!

A nível da fauna, são raros os animais com esta cor. Que se saiba e do que pesquisei, há apenas: a cobra-cega roxa; a rã-roxa-indiana (apresenta roxo escuro na fase adulta); o pato mandarim (muito colorido, com o peito roxo); a caravela-portuguesa (tons lilases); os peixes betta-roxo, o espiga-roxa, o royal-grama (metade violeta e metade amarelo), entre outros peixes (que há, mas não consegui obter o nome); o caranguejo-roxo e o caranguejo-lua (é colorido, mas as duas patas centrais são roxas); e o caramujo roxo.

Quanto aos pássaros e aves exóticas, temos mais alguns: o agapornis-personata violeta cobalto, o agapornis-Fischer violeta (com mutações), o beija-flor-roxo ou colibri roxo, a borboleta imperador roxo, o diamante de Gould (os machos são deveras coloridos, tendo penugem roxa no peito), diamante de Mindanau (a cabeça é roxa), o estorninho violeta, o faisão-dourado (parte da penugem lateral é roxa), a granatina (tem as faces violetas), a granatina-púrpura (peito apurpurado do macho), o lório arco-íris (cabeça e barriga violeta escuro), o melro-metálico-de-peito-dourado (a plumagem superior é roxeada), o melro violeta (quase por todo), o papagaio-eclectus (as fêmeas são de cores vermelha e roxo), o papagaio-de-peito-roxo, a pega-de-formosa azul (a sua plumagem também é roxa) e o rolieiro-de-peito-lilás.

No que toca à Química, o iodo – elemento que quando aquecido produz vapor aviolado – batizou o seu nome graças à flor: violeta é o íon (em grego antigo), radical donde surgiu iod. Quanto a corantes violeta, aplicados em tintas de escrever, existem o “violeta-de-metilo” (serve, ainda, para a microscopia, na coloração de bactérias) e o “violeta-cristal” (é também biológico).

As Delícias na Alimentação

Felizmente há alimentos roxos: frutas e vegetais! Eles são ricos em antioxidantes, antocianina, fibras, minerais e vitamina B, ajudando a prevenir doenças cardíacas, a reduzir o colesterol mau, a curar bronquites e intoxicações, entre outras. Daí a importância do seu consumo. Eis os que gosto mais: mirtilo, figo, amora e ameixa; batata-doce roxa, beringela, cebola roxa e flor violeta. Exatamente! Esta é uma de cerca de 20 flores comestíveis, tais como a malva, a lavanda e o amor-perfeito. A par deste, a violeta possui um sabor doce e perfumada, podendo comer-se em saladas, com doçaria ou em chá.

Pelo carácter sedutor desta cor, ela também embrulha alguns dos melhores chocolates que há, como os da Milka, da Cadbury, da Wonka e da Purdy’s Chocolates.

Não posso deixar de relatar alguns incríveis e indescritíveis prazeres (comida e bebida) que desfrutei em viagens pela Europa, com novidades gustativas de violáceas – não usuais em Portugal… Como esquecer aquele gelado de violeta, em Valência? Ou aquele foie gras com flor de violeta e compota, em Colmar? Ou ainda aquele cocktail com xarope de violeta, em Estrasburgo? Já para não falar naquele chocolate branco com pedaços de lavanda, na Eslovénia! E, a salivar, como não recordar aquele queijo de lavanda, de Maastricht? Ou aquela bebida frisante de flor violeta, da Alemanha? Falta ainda adir, claro está, aquele licor espirituoso de violeta, dos Bálticos. Para o fim, como que para “enganar o estômago”, ficam aquelas lambarices de sabor violeta: sejam as gomas, de San Marino, sejam os rebuçados, que tanto encontrei na Alsácia como em Madrid. E a acompanhar tudo isto, nada melhor do que sentir toda aquela infinita fragância no ar, de cheirinho a alfazema, pela Croácia. Enfim, como é espetacular esta violeta, sem fim, no paladar! Aqui e em qualquer lugar.

E termino. Este artigo começou por ser uma crónica-roteiro e acabou sendo um ensaio, quase um tratado… Pela sua ampla explanação e pela sua extensão. Penitencio-me por isso. Ou não versasse todo este texto sobre a cor penitencial, tão adequada – para além das suas outras matizes – ao tempo corrente e à conjetura temporal que vivemos!

Ao deixar entrar em mim o roxo e o lilás, permito-me com eles entranhar no âmago das causas e das coisas. Retoca-nos a adentrar como nestes versos de A. Camus: «somos recebidos pelo suspiro pungente e perfumado da terra estival». Estas cores que tanto pintam estupendamente uma tela de pintura como uma tela de inspiração escrita. Pois «as cores na pintura são como chamarizes que seduzem os olhos, como a beleza dos versos na poesia» (N. Poussin). Ou, tão bem expresso, na definição iluminada do pintor W. Kandinsky: «A cor é um poder que influencia diretamente a alma. A cor é o teclado, os olhos são os martelos, a alma é o piano com muitas cordas».

André Rubim Rangel

“Tripeiro” de gema: cidade e clube. Licenciado em Teologia, com um curso profissional de “Comunicação, Marketing e Assessoria de Imprensa” e mestre em Ciências da Comunicação – Jornalismo. Tenho, como ‘paixões’: a vida, a família e os amigos, os presépios, o ténis, as viagens, o roxo e lilás, as entrevistas, a fotografia, a escrita, a leitura, o cinema, a música, os doces e boa comida, etc.. O meu repto: sorri, ama e sê Feliz!

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