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Crónicas

Irritações linguísticas

A linguagem pode ser tudo, significar tudo, ou ser apenas um conjunto de palavras sem qualquer teor ou significado. Não sei se é mania minha (cada um com a sua), mas sempre achei que a comunicação servia, perdoem-me o pleonasmo, para comunicar. Parece que não. Muitas vezes cumpre o efeito contrário que é não comunicar, criando dúvida, expondo o vazio, ou pior, revelar toda a nulidade de pensamento. Pensando bem, não deixa de ser comunicar ( já dizia a Irene Lisboa: uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma), mas certas expressões não abonam nada a favor do emissor.

De que falo eu? Das expressões que nada acrescentam, sem que lhes seja dado o charme das figuras de estilo ou qualquer outro recurso linguístico, num ritmado agradável ou bonito,  mas tão só revelar a incapacidade de cada um. Entre elas, destaco estas:

  • Ai coitadinho, coitadinho!

Esta frase, querendo muito, muito, ser positiva, pode revelar que a pessoa até tem sentimentos e se comove face a uma situação. Mas numa leitura de segundo tom, como ocorre com as notas dos perfumes, percebe-se que pode ser uma forma inexpressiva de dizer que o outro é/ está um miserável. E então? Causou algum efeito? Melhorou a situação do desgraçado? Não gosto da expressão, e se o discurso acaba aí, parece-me que não tem então utilidade nenhuma. Ou talvez a expressão tenha um poder resolvente que eu ainda não descobri, como passar por um sem abrigo e vocalizar de forma enfática as ditas palavras mágicas esperando a resolução por osmose. É como dizer de uma parede caiada que é branca como a cal. Mais valia? Zero.

  • Ai se eu fosse/ ai se eu tivesse…

A menos que se trate do tema duma daquelas composições que os professores mandam fazer, tão originais como “ As minhas férias” ou “O Natal”, ou mesmo parte integrante dum teste psicológico de projecção, um suponhamos o que serei aos 30, não vejo qualquer interesse. E porquê? Porque sonhar é bom, mas por si só não chega. E às vezes, confesso, que me parece que as pessoas são muito exigentes relativamente ao que  julgam ser necessário para tomar  a atitude de. Como se para fazer algo, fosse necessário tudo. Talvez seja preciso muito para fazer muito, mas se temos pouco, podemos ainda assim fazer algo. Ou optarmos pela desresponsabilização. Um exemplo clássico disso é: ai se eu tivesse uma quinta, recolhia 80 cães. Ok, sonho bonito, também o tenho. Mas como em princípio a maioria de nós não virá  a ter uma quinta, talvez seja melhor normalizar o sonho e concretiza-lo num animal apenas. Fazendo 1/80  do sonho, faz-se mais do que só sonhar. Que o diga o cão que foi salvo. Significa 100% para ele.

  • Isto no meu tempo….

Começo por dizer, como se fosse preciso, que se alguém ainda tem a capacidade de o dizer, é porque ainda está no seu tempo. O meu tempo acompanha-me ao longo da vida. E se de facto eu andar cá a fazer alguma coisa, provavelmente mudarei de opinião e poderei até achar que no meu tempo era tudo descabido e estranho, não necessariamente bom, nem exemplo. O que falta sempre é o complemento – meu tempo  de criança, de jovem, de escola, etc. Claro que se deduz no contexto da conversa, mas acaba por, de imediato, envelhecer o emissor para o tempo das descobertas. Ora, no meu tempo, era indelicado fazer alguém sentir-se idoso.

  • As bengalas da oralidade

Aqui devo fazer um acto de contrição, mea culpa. Contra mim falo, que agora que participo em directos, dou por mim a repetir expressões com uma frequência que não era desejável. E quando oiço o que foi gravado, vou-me apercebendo dessas irritantes expressões que me saem como se tivessem vida própria. Prometo pôr-lhes o cabresto assim que tome consciência delas. Mas parece-me que é de facto muito difícil de nos apercebermos, e vamos colocando as tais palavras que devem ter sido criadas para favorecer métricas de poesia ou acertar espaços nos parágrafos justificados: hum, hum, pois é, sim, sim, que engraçado,  e outras que tais.

  • As vazias palavras de incentivo

Confesso que me lembram um pouco aquelas personagens do Herman, “Boa, Mike! Fantástico, Melga!”. Eu sei, que sou inocente mas não tanto, que há uma boa dose de psicologia nestas vibrantes manifestações algo orgásmicas ( sobretudo quando são simulados, os orgasmos, claro….), que se pretende imbuir o outro do nosso entusiasmo e supostamente mostrar-lhe que está no caminho certo. Recordo-me dum professor que usou, na primeira aula, o artificio de aprender o nome dos 30 alunos. Explicou-nos depois que sermos tratados pelo nome próprio cria supostas ligações de consideração. Mas, como em tudo na vida, o que é demais….Passar um dia inteiro a ouvir: “ Fantástico!” ” Soberbo!” ” Estou a ver que percebeste a lógica!” Ou mesmo “Uau” face a uma dedução básica, já me soa a engodo. Ou mesmo a sentir-me tratada como deficiente cognitiva. E recordo-me daquele princípio da farmacologia: usar a menor dose que faça o efeito. Ou, noutra versão: mente, mas pouco, que eu não chegue a detectar.

  • Pessoas que falam em estrangeiro ( como dizia um professor meu sobre os livros em inglês, francês ou castelhano)

Eu até percebo que se usem expressões quando a tradução é imprecisa, mas há situações em que é uma pura exibição, o que deixa esta gente ao nível dos emigrantes que acham muito chique esquecer as palavras portuguesas mais básicas e fazem poesia non-sense com as palavras: vou ao jardin buscar oranges. Trés bien! Nas reuniões empresariais então é um Must!  Não vou ao ponto de ser uma negacionista, mas tenhamos maneiras, comme il faut.

  • Uso de siglas

Percebo a necessidade de simplificação, mas o uso de siglas numa conversa com pessoas fora de contexto não cumpre a função de partilha que a comunicação deve preconizar. Se chego ao pé de alguém e falo na minha linguagem marítima, por exemplo, usando termos específicos, o mais que posso esperar são olhares arregalados ou um rol de perguntas que me vai interromper o raciocínio. Bom para falar quando não queremos ser entendidos, como quando perguntamos ao amante qual o Eta  (estimated time of arrival, ou hora estimada de chegada), sem que a mulher perceba, achando que estamos a falar de política espanhola. Ou desenvolver explicações que obrigam a um glossário também não é user friendly ( ver ponto 6). Parece-me que há, da parte do comunicador (?) uma extrema dificuldade em adaptar a sua linguagem ao público. Ou exibicionismo.

  • Love you all ou sou um grande mentiroso

Reconheço a minha incapacidade de amar toda a gente. Tenho uma leque alargado entre o não gosto e o gosto muito, com muito espaço para a indiferença. Arriscaria até uma pirâmide onde, na parte cimeira estão pessoas a quem posso dizer que amo, sem mentir. Por isso, quando me surgem aquelas pessoas a dizer que me amam, a mim e a todos, namastê, e a paz no mundo, hum… sim, pois… acredito,  of course, indeed. Mas …“não és tu sou eu”, o problema sou mesmo eu, que tenho uma capacidade de amar deficitária, e o que é pior, demasiado exclusivista. Peço perdão.

Mas pior, muito pior que tudo isto, são os silêncios que comunicam basicamente uma coisa: não és importante o suficiente para que contigo partilhe os meus pensamentos, ainda que ocos ou vãos.

Embora às vezes os silêncios sejam, mesmo, uma grande bênção.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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