E se pudesses voltar atrás?

Esta questão surgiu-me após ver o anime “Erased – Boku Dake ga Inai Machi”, adaptado do mangá escrito e ilustrado por Kei Sanbe.

A personagem principal, Satoru, tem a mestria de voltar no tempo – apelidado no anime como “revival” – e, assim, conseguir evitar a morte da mãe, evitar sequestros e desaparecimentos de colegas de escola e desvendar o nome do assassino e sequestrador.

Satoru, após ver a mãe assassinada em sua própria casa, volta 18 anos e é aqui, a partir deste momento, que se dá início à história, ao mistério e plot twists que tanto é apreciado por alguns.

É um enredo interessante, mesmo levando em conta que o final do mangá é diferente da adaptação em anime. As primeiras impressões dos primeiros episódios cativam e prendem o espectador e, em um anime dentro deste género, é o que se tenciona. Percebe-se que o “revival” surge quando há um prenúncio ou mau presságio prestes a acontecer e é neste ponto que o autor da história teve a habilidade de desfrutar ao máximo na composição do enredo.

Posto isto, coloco em causa variadíssimas situações e momentos da vida e coloco em questão várias decisões tomadas, palavras proferidas ou atitudes tomadas. Coloco em causa, também, a resposta dos demais à pergunta: “e se pudesses voltar atrás?”.

Tenho notado que temos uma tendência em romantizar os erros do passado e tentar adoçar o amargo da boca, usando clichês tão conhecidos como “o que não me mata, fortalece-me” e “aprendemos com os erros”. Não comprometendo a essência motivacional e o lamento subliminar das frases quando estas são clamadas, mas, em boa verdade, o Homem conseguiu criar a reputação de desculpar-se magistralmente por todos e quaisquer erros já cometidos pelos próprios.

Atendendo que a garantia é maior que a coragem, faço, portanto, all in em que a esmagadora maioria iria responder com clichês.

Naturalmente, se não tivéssemos a tristeza, não saberíamos o que é a felicidade e se não soubéssemos o que é o barulho, não saberíamos o que é o silêncio. Mas, mesmo assim e acreditando que o meu raciocínio foi compreendido, porque não voltar atrás? Porque é muito fácil ser-se esperto em retrospectiva, não é?

Tendo em conta o possível efeito borboleta, voltaria atrás e recebia pela caladinha o efeito colateral que daí resultasse.

Em 2019, houve um estudo publicado pela Scientific Reports, e um artigo escrito pelo Diário de Notícias, que “revela que cientistas russos, americanos e suíços conseguiram reverter o tempo, fazendo com que três qubits (as unidades básicas da informação quântica) regressassem ao estado em que se encontravam uma fração de segundos antes – ou seja, passassem de um estado mais complexo para um mais simples”.

Quão fantástico isto é? E quão moralmente errado pode ser?

Sei, também, que a resposta à minha questão levará em conta vários factores morais e, principalmente, religiosos, julgo eu.

Mergulhar no buraco negro, voltar no tempo e “saber o que sei hoje” seria, indiscutivelmente, uma experiência que estaria disposta a ter uma vez que o destino é uma carta fechada e, na melhor das hipóteses, vamos apenas envelhecer.

De certeza que deixaríamos de perder o sono quando surgisse aquela resposta brilhante para aquela pergunta na semana passada ou de pensar que se tivesse ido para a esquerda, evitaria algumas situações. Contudo, na outra face da moeda, está o possível efeito borboleta, como já referido, a espreitar: e se outras situações piores acontecessem ou se o presente fosse apagado?

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