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Crónicas

Os tios

Todas as famílias são riquezas extremas onde alguns elementos brilham com mais luz, com uma intensidade tão única que se conseguem destacar dos demais. Alguns são irmãos da mãe, outros do pai e outros ainda da avó ou do avô. São os tios, aqueles seres quase mágicos que resolvem as situações mais complexas e encobrem as tramoias de cada um.

O tio clássico

É o marido da tia e o pai dos primos mais velhos, aqueles que têm a mania de dizer que “não sabes nada que ainda precisas de crescer”. Este tio pouco fala e responde sempre: “Sim, querida”. Parece que nunca está presente, mas sabe tudo. Morde pela calada, como se costuma dizer. Nos aniversários faz sempre uma festa na cabeça e diz, invariavelmente: “Estás a crescer muito rápido”. No Natal, oferece, sistematicamente, uma prenda muito vistosa, com um laço espampanante. E sorri muito como se os sobrinhos fossem eternamente pequenos. Para ele só existem rapazinhos e rapariguinhas em vias de formação, mesmo que já sejam todos adultos, mas ainda não deu por nada. Fuma cheio de estilo, a puxar pelo cigarro em slow motion, para que se veja a cinza a aumentar. Um must. Não se sabe mais nada sobre ele a não ser que não incomoda. E diz, com orgulho, que a família é o seu porto seguro.

O tio solteiro

Já tem alguma idade mesmo que esta seja indefinida. É muito simpático e tem um bigode que lhe ficou da herança da juventude desenfreada. Funciona como a sua imagem de marca. Desconhece-se como será a sua cara sem o tal de bigode. Está quase sempre a rir de coisas que aconteceram há muitos anos, quando ele era novo e galã, palavra que nenhum dos sobrinhos sabe o que significa. Encobre todos e encontra desculpas para tudo. É um bacano. Alinha na nova linguagem, compra gomas e chocolates, vai ao cinema com os mais novos e não se importa de ver o “Frozen” vezes sem conta. Até vai com os mais velhos onde for preciso e deixa-os à vontade. Usa calças de ganga e blusões que conjuga com camisas de padrão axadrezado. Costuma morar na casa da irmã mais nova que o vê como um pai e tudo lhe pergunta.

O tio diferente

Contam-se coisas estranhas sobre ele. Não casou, não namorou, não fez nada do que era obrigatório ser feito. A vida dele é inventada e especulada.  Na companhia de amigos, diverte-se como ninguém e alinha sempre em todos os programas dos sobrinhos. Usa roupa muito fashion e vai ao ginásio, viaja muito e nas selfies aparece sempre a fazer boquinhas. É fanático pelo Carnaval e mascara-se, invariavelmente, duma qualquer diva. No ano passado foi ao baile de máscaras vestido de Jennifer Lopez e foi um sucesso. Os piercings dele são ousados, um no mamilo e outro onde não quer revelar. As tatuagens têm todas símbolos muito místicos. Sabe tudo sobre a moda e, segundo ele quando era novo, participou em desfiles na passadeira vermelha. Volta não volta mostra os trapinhos que usava quando era um lingrinhas, com as costelas a se notarem e muito novo.

O tio viúvo

Tem uma certa idade, aquelas avançadas, mas não há quem saiba dizer com exactidão. Dá ideia de ter nascido logo velho. Anda muito aprumado, de fato completo e gravata. Composto, como ele diz. Antes de se sentar puxa sempre as calças para não ficar com os joelhos marcados. Depois sopra muito e fala da sua amada esposa que já foi prestar contas ao senhor. O cabelo vai rareando, mas ele insiste em fazer uma pala lateral, com o que lhe resta e tapa a careca com os poucos cabelos sobreviventes. Uma tristeza, pois pensa que os outros não reparam. Aos domingos vai, invariavelmente, ao cemitério levar flores à tia e fala com ela como se o ouvisse. Regressa mais bem-disposto, recolhe-se a casa e vê os álbuns de fotografias do casamento.

O tio mais novo

É um entusiasta de tudo e quer estar a par de todas as tendências. Continua a comportar-se como se fosse um adolescente e teve sorte, como dizem todos, pois trabalha numa firma de informática que é responsável pelos jogos on line. Convida os sobrinhos para jogar sem saber que estão a ser cobaias, mas eles não se importam. Conhece as bandas todas e os seus êxitos e como apenas veste roupa informal, os mais novos ficam convencidos que ser adulto é muito simples. Gosta de futebol e não falha os desafios do seu clube. A casa dele parece um abrigo dum refugiado pois não tem quase nada. Diz ele que vive com o essencial e não precisa de mais. Não tem sofás, mas consolas são em grande quantidade. Já não deve cortar o cabelo desde a escola secundária e a barba vai pelo mesmo caminho.

O tio emigrante

Trabalhou muitos anos na França e na América e a sua linguagem é um misto de português da santa terra com um francês de trazer por casa e um americano de caixote de lixo. Aliás, ele gosta muito da palavra trash que usa para classificar tudo. Nas cidades onde viveu é que era tudo bom, mas o certo é que voltou para este retalho para gozar a retrete. Quer dizer reforma em francês, mas soa desta maneira nojenta. Na França trabalhou nos campos e criou porcos, mas dá sempre um ar de charme burguês quando conta as peripécias. Nunca diz que passou fome, que é uma vergonha, somente que era muito estimado. E muito menos refere que viveu numa “bidon ville” que é coisa para esquecer. Quanto à América é outra coisa. Era tudo big, bright e os emigrantes é que a fizeram um autêntico trash. Não se lembra que ele foi um desses. E os dólares é que são bons.

O tio divorciado

Colecciona namoradas assim como quem muda de camisa. São todas vistosas e de riso muito fácil. Normalmente usam as expressões “que fofinha”, “queridinho” ou até mesmo “amor, quero um destes”, quando vão almoçar com os sobrinhos. Os músculos estão tão definidos que até tem dificuldade em tomar café pois levar a chávena à boca é uma tarefa complicada. O cabelo tem tantas cores que a original já se perdeu, tal como o tio que já não sabe a quantas anda, mas “tá tudo bem”, como diz com um sorriso luminoso. Quando se senta afasta as pernas, de modo delicado, que os joelhos tocam sempre a pessoa do lado, que se sente intimidada. É o melhor vendedor de automóveis que existe ou então ninguém vende casas como ele. O casamento é que não é bem a praia dele uma vez que acumula três divórcios. E crescer também não faz falta.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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