Dezoito euros e meio de distância

Acordava assim que amanhecia, sem paredes ou tecto que travassem a luz. O cartão em que se deitava e o cobertor passajado que o cobria, na frieza da noite, eram permeáveis ao vento, ao frio, à chuva e ao ruído surdo duma cidade que também acordava, embora com camas e roupas confortáveis. Levantava-se, arrumando os poucos pertences num canto, esperando voltar no fim do dia a encontra-los, sem que um outro sem-abrigo lhos tivesse levado. A solidariedade de quem está no mesmo barco nem sempre existe…

Vagueava pela cidade, parando aqui e ali, onde sabia conseguir algumas moedas. Pedia pelos restaurantes, pretensamente arrumava carros, indicando o óbvio aos condutores, sem qualquer mais-valia. O seu aspecto não ajudava… cabelo desalinhado e sujo, barba grande, dentes em falta, magreza excessiva escondida parcialmente em vestes sem forma e a precisar de lavagem.

Confesso que a princípio me pareceu rude. Penso que cheguei a ouvi-lo ameaçar alguém que não lhe terá dado moeda numa dessas vezes em que teoricamente ajudou alguém a estacionar num amplo espaço. Fugia dele. Evitei-o várias vezes, presumindo que seria mais um daqueles sem-abrigo que amealha para o vício, seja ele o que for. Inconveniente. Maçador.

Até que um dia não pude fugir ao contacto. Olhou-me com uns olhos castanhos indistintos do restante rosto, pestanas, sobrancelhas, barba. Não tinha moedas, e só me ocorreu oferecer-lhe uma peça de fruta que trazia comigo. Aceitou. Devorou-a de imediato. Não reclamou. Agradeceu.

Comecei a falar com ele. Que era da Figueira da Foz. Que viera trabalhar para Pedrouços depois dos pais morrerem. Que é pescador encartado. Que ficou pelas ruas quando o patrão lhe deixou por pagar 4 ordenados. Que já não conseguia voltar para casa e foi ficando. Por aqui permanecia há 6 anos. Mostrou-me moedas que tinha num dos bolsos, não chegava aos 5 euros.

No Natal, pensou voltar à sua terra, procurar trabalho, mas o escasso dinheiro que ia angariando mal lhe dava para sobreviver, muito menos para pagar um bilhete de autocarro. Dezoito euros e meio! Contou-me que em certo dia um casal de que se abeirou lhe prometeu o valor, tendo apenas que se deslocar ao multibanco. Acreditou. Vi-os partir, e não os viu regressar. Chorou. Quatro horas, disse-me ele, chorou quatro horas.

O mês de Junho a decorrer, 6 meses passados, e os 18 euros sem qualquer hipótese de concretização. Como culpar as pessoas, que se habituam à miséria alheia, numa frigidez empática, não distinguindo o trigo do joio, quando tantas vezes já foram enganadas por misérias mais morais que monetárias?

Pergunto-lhe pela assistência social, expressa-se com o rosto, sem qualquer palavra. Sem solução, sem apoio.

Naquele dia, quando estacionei, veio ter comigo, pensei eu em busca da fruta que às vezes lhe deixava. Via-se que tinha chorado, mas sorria com o sorriso desdentado e irregular, como criança a querer partilhar uma novidade feliz. Mostra-me um pequeno saco, daqueles das sandes, com um nó, onde uma nota de 20 se encontra retida. “Deixaram-me aqui com umas bolachas e uns sumos, confidenciou-me. Vou-me embora, vou para a minha terra. Vou tomar um banho ali ao balneário, e vou. Já não me voltará a ver por aqui. Vou sair da rua.” E sorria, como provavelmente já se esquecera de o fazer em tantos anos.

Nunca mais o vi.

Há ausências que têm excelentes razões de ser.

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