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Crónicas

O fim do mundo em cuecas

É um clássico que ocorre a cada final de ano: várias entidades surgem com grande efusividade a declarar o fim do Mundo. Se estiver a ler esta crónica é sinal de que o Mundo ainda não acabou. Só nos últimos anos, o Mundo resistiu a Donald Trump, a uma pandemia e aos livros do Pedro Chagas-Freitas. Apesar de os prognósticos serem pessimistas, não restam dúvidas de que o Mundo é rijo.

Deixemos o Mundo por agora e centremo-nos em Portugal. Portugal também é um mundo, aparentemente à parte, apesar de figurar em todas as estatísticas mundiais, surgindo quase sempre nos lugares mais desprestigiantes de cada lista. Ainda assim, Portugal também é rijo. Muito poucos acontecimentos mundiais o afectam, embora seja afectado por várias coisas que acontecem no mundo. Portugal tem esta particularidade engraçada e desastrosamente confusa.

Na verdade, Portugal não se deixa afectar facilmente, mas indigna-se com grande facilidade. Portugal não se deixa afectar facilmente pelos propósitos racistas de partidos de extrema-direita, mas indigna-se com grande facilidade com um filme americano de animação que, supostamente, deveria ter vozes de actores portugueses negros em vez de vozes de actores portugueses brancos. Aguarda-se agora, com grande expectativa, que surja com a mesma rapidez uma petição igualmente indignada com os desígnios dos partidos portugueses de índole racista e que proponha a abolição de ideais reprováveis. Para aquelas pessoas que se deixam afectar, algumas indignações tornam-se mesmo o fim do mundo.

Enquanto a brigada dos indignados não chega, convido o leitor a seguir até ao final desta narrativa. Não lhe prometo o fim do mundo. Lamento se o desiludi, caro leitor. E, já agora, cara leitora, não vá a brigada dos indignados de género estar também à espreita.

Em 2012, várias conspirações baseadas no calendário Maia previam que o Mundo acabasse a 21 do 12 desse mesmo ano. Em princípio, já todos repararam que não se concretizou. Antes ainda, – em 2000, em 2003 e em 2006 – várias outras anunciavam que o Mundo iria desaparecer. Diferentes profecias têm anunciado o fim do Mundo mas, por uma razão ou outra, ele não tem chegado.

Durante séculos, muitos têm sentenciado coisas que nunca acontecem. Talvez sejam apenas prognósticos no sentido figurado. Ou então, uma simples forma de garantir uma boa dose de comicidade durante o mês de Dezembro, o que se saúda, se for esse o caso. Toda a gente conhece a hilariante história de um clube de futebol português de quem se prevê, anualmente, nunca chegar “vivo” ao Natal. Pensando bem, este é, seguramente, o único vaticínio certo a que tenho assistido ao longo dos anos.

Acabei de ser informado de que o Sporting Clube de Portugal está em primeiro lugar no campeonato nacional de futebol. É o fim do mundo. Vou vestir as cuecas.

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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