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Covidmaníacos e Covidiotas: uma aventura na Covidolândia

Com a pandemia vieram muitas coisas novas. 

Desengane-se quem pensava que dela sairíamos  todos “pessoas melhores” que valorizaríamos mais o “tempo em família”, e que seria o tal “mal que veio por bem”. 

O verdadeiro resultado da pandemia é tão somente uma forma de espelhar as desigualdades em que vivemos e, se é bem verdade que não estamos “todos no mesmo barco” (uns vão de iate outros de jangada), e não, também não “vamos ficar todos bem” por muitos arco-íris que façamos ou por muitas palmas batidas à janela, também é verdade que, actualmente, temos alguma dificuldade em manter a sanidade e o equilíbrio mentais quando, à nossa volta, estamos rodeados (redundâncias à parte) de apenas dois “tipos de pessoas”: os covidmaníacos e os covidiotas.

Puxando à praça o meu lado “observador social” deixo aqui um pequeno manual de como distinguir facilmente ambas as partes:

O covidmaníaco:

Apesar de ser uma comunidade com muitos elementos, avistar um “in loco” é dificílimo: este ser está confinado em casa desde meados de Março! 

Recentemente começou a ter de ir ao escritório umas quantas vezes por semana pois a empresa já não funciona a 100% por tele-trabalho e, com isso, transformou se no ser mais madrugador de que há memória: qual pisco de peito ruivo, salta da cama ainda cedo, a roupa está já escolhida de véspera: calças e manga comprida mesmo que o dia vá aos 40° à sombra: não pode ficar pele em contacto com o vírus!!! Depois calça os sapatos DA RUA na rua, os mesmos que ao final do dia levam uma valente borrifadela de lixívia e ficam a arejar até ao dia seguinte, calça ainda um par de luvas, duas máscaras, a “social” e a cirúrgica e uma viseira, coloca o “panamá” beige na cabeça e sai antes que “toda a gente” vá para a rua que depois “é só covides”.

O covidmaníaco anda a pé porque os transportes públicos são “ninhos de covid”, privilegia ruas secundárias e, de cada vez que alguém se cruza com ele, a pessoa leva imediatamente com um jacto de álcool-gel-em-spray (o seu melhor amigo). 

O regresso a casa é todo um outro processo complicado: há um saco para a roupa, sapatos de quarentena e tudo o que não fizer muita falta… é mesmo para queimar (não vá o diabo tecê-las)!!! Atenção que o covidmaniaco trabalha num apoio telefónico ao cliente e contacta pessoalmente com três pessoas, isto num dia bom, mas vá-se lá saber, o vírus anda pelo ar!!

Os fins de semana são passados a contar as caixas de atum e os frascos de feijão frade na dispensa (sabemos lá até quando isto vai durar), e, caso falte alguma coisa, encomenda tudo on-line do supermercado que fica ao fim da rua!! 

Durante o confinamento restaurou todos os móveis lá de casa e o cão já sabe mil e um truques incluindo o de apertar o frasco do álcool gel. Paga 5 euros por semana ao filho da vizinha para lhe passear o cão: o garoto espera à porta do prédio e o cão desce sozinho de trela na boca. O pagamento é feito por MB-Way.

No outro dia ligou à veterinária do bicho porque o coitado tinha bolhas nas patinhas, lá percebeu que fazer o bicho passar pelo alguidar da lixívia antes de regressar a casa não era assim tão boa ideia. Agora só o desinfecta com umas toalhitas que mandou vir do “Ali Express” mas que foram devidamente desinfectadas à chegada.

Durante o verão, a mulher, coitada, dizia: – “oh Zé Maria podíamos ir”… mas nem dava para a Maria terminar a frase pois, assim que ouve o verbo “ir”, o covidmaníaco entra automaticamente em “modo full covidmaníaco” e lá vem o discurso “Vais vais, se não nos pomos a pau vamos é todos morrer!!” E a coitada da Maria emborca dois comprimidos de vitamina D porque o sol, esse só o vê da janela de vez em quando. 

O que o Zé não sabe é que o advogado consegue tratar de divórcios on-line.

Curiosamente, no segundo esquerdo do mesmo prédio vive o Tó: um verdadeiro Covidiota!!!

Como verdadeiro covidiota, o Tó, quando começou esta “treta da pandemia” até teve algum receio. Até desinfectava as mãos “e tal” mas depois leu que o álcool queimava a pele e deixou se dessas “paneleirices”. 

Quando as escolas fecharam e os empregos entraram em tele-trabalho, passou se: “mas o quê???? Mas não posso por dias de baixa para ficar em casa e, ainda por cima, tenho que tomar conta dos MEUS próprios filhos?? É pah isso é que era bom!! Telescola?? Calões dos professores que não querem trabalhar e o estado a proteger esta malta!”

Os covidiotas têm como principal característica a desconfiança e uma capacidade incrível para acreditar e difundir teorias da conspiração: para esta espécie os “covides” vieram encomendados da china pelos governantes para “controlar as massas”, ou, melhor ainda: não existem, nunca existiram! Foi uma historieta inventada para manter as pessoas “debaixo da asa dos grandões” e “encher os bolsos dos espertos à conta de quem trabalha honestamente”. Para o covidiota, não é preciso usar máscara, não há distanciamento social e o desinfectante mais poderoso é o “cuspe que cura tudo”. 

O covidiota afirma que “aquilo só mata velhos” e, quando confrontado com pessoas jovens que, infelizmente, foram levadas pelo vírus, não descansa enquanto não escrutina todo o processo médico da pessoa para lhe encontrar “outras patologias” porque afinal “o gajo não morreu de covid, morreu com covid”.

O verdadeiro covidiota faz uma publicação por dia nas redes sociais com um dos seguintes temas: a) a fome em África, b) o resultado da gripe das aves em 1998, c) o lobby da carne de cão na china ou d) os subsídios mal entregues e termina com um “disto não falam eles” ou “partilha antes que apaguem, não deixem esta notícia morrer”!

Sendo especialista em todos os estudos do MIT e da Universidade de Cambridge publicados e que descredibilizam a pandemia, assim que aparece uma notícia sobre uma suposta vacina, este ser é o primeiro a dizer: “é pah eu não quero cá essa m3rd@ que de certeza que os gajos nos querem é meter um chip na veia!”, só que, curiosamente que desde Janeiro tem reservada a vacina da gripe na farmácia da prima Luísa.

O covidiota defende o regresso à normalidade, mas não quer que o filho regresse à escola. É contra o confinamento, mas quer as fronteiras fechadas. Tem na foto de perfil do Facebook uma moldura com #nomaskfuckcovid e usa a dita quando obrigado, mas com o nariz de fora que lhe custa a respirar. 

No outro dia o filho do Tó acordou com dores de garganta, à noitinha tinha alguma tosse e de manhã uma pontinha de febre. O Tó, já a suar do buço, marcou consulta no centro de saúde, mas, desta vez, não “postou” a pulseira da urgência: calou-se, agarrou no miúdo e lá foram. À chegada teste ao covid.

Na cabeça do Tó passavam agora em rodapé todas as pessoas com quem tinha estado no fim de semana, na festa de anos do Quim “Francês” que, como está cá de férias, juntou uns amigos numa patuscada: “Eh pah mas não eram mais de 100, ou eram?!! Ai se o puto apanhou isto!” 

Testes feitos… Que susto possa era só amigdalite. 

“Hashtag fuckcovid!!!” Agora já pode por no Facebook que, mesmo com os tais riscos de que “os gajos falam”, o puto não apanhou nada, a prova que é tudo invenção. Nessa mesma tarde o Quim Francês ligou ao Tó, a mulher tem covid: “Ai Quim, que não me estou a sentir nada bem…” 

E pronto a vida na covidolândia desenrola-se entre estes dois pólos: o alarmista e o céptico. 

Entre notícias mais ou menos credíveis, curas milagrosas ou mortes anunciadas cabe a cada um de nós perceber onde nos posicionamos, dizia a minha querida avó que: no meio é que está a virtude. Não é fácil equilibrar tudo aquilo que, diariamente, nos bombardeia, mas para isso fomos abençoados com o dom do bom senso, é só colocar o botão no “on”.

Não vale olhar de lado para a senhora que se afasta de nós na fila do banco, ou rir porque a D. Emília pulveriza os sacos das compras, também não vale fingir a tosse e dizer “já estou com os covides” como não vale tirar a máscara no corredor do shopping porque” o segurança não está a olhar agora”. Mas também não é bonito ser o “covidopolicia” e repreender a mãe que não leva o bebé de UM ano com máscara no carrinho, ou a senhora mais idosa que está sentada sozinha no banco de jardim sem máscara, a COMER a sua bolacha.

Não vale mandar a piada para o ar porque as seis pessoas que estão na mesa da esplanada “devem morar todas na mesma casa”, nem dizer a quem vai ao restaurante “vai vai mas depois não te queixes”, como também é um “bocadinho chato” dizer ao amigo: “tira essa porra e dá cá um bacalhau que isto é só uma gripe”!

As vezes, fazermos cada um uma parte é o que dá força a um todo.

Por mim o botão do bom senso está ligado. Observar, avaliar e agir. Não custa assim tanto.

Andreia Mendes

Natural de Caldas da Rainha, 36 anos. Licenciada em Educação Social. Mulher, Mãe de dois. Com paixão pelas pessoas, pelas palavras, pelas acções, pelo teatro, pela música e claro pela escrita! Incapaz de compreender algumas injustiças por esse mundo fora, por esse tempo adentro.

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