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“Não se fazem mapas p’ra regressar”

Tenho inveja de não ter sido eu a escrever o verso que dá título a este artigo. Muita inveja. Na verdade, as palavras pertencem à canção “Paz e Guerra” dos Cassete Pirata. E eu interpreto-as à minha maneira, tal e qual me dão mais jeito para manter a coerência do meu mundo. É essa, aliás, a beleza de qualquer manifestação artística: encontrar pontos com os quais nos identificamos e que, em última análise, nos ajudam a compreender o que vivemos.

Para mim, os mapas de que a canção fala são aqueles que não construí nos últimos tempos: nem para regressar ao conforto da minha casa de sempre, nem para voltar ao desafio que o quarto alugado representa.

Há pelo menos cinco anos que não passava mais de três dias na minha terra. Foi meia década sem aproveitar os cantos de uma casa que ajudei a transformar com os meus quadros, com os dicionários que o tempo acumulou e com uma garrafa de vinho, ganha num concurso de culinária, e que parece estar eternamente por abrir. Eternamente à espera de um verdadeiro momento de glória que dignifique o som da rolha a saltar.

Contudo, recentemente, com uma pandemia amenizada por breves momentos, um toque de magia do teletrabalho e mais uns tempos de férias, passei um mês em casa. Não estava preparada para este regresso que antes me parecia tão impossível. 31 dias entre o que me pertence, aqueles que me conhecem e as ruas em que deslizo sem receios. Acima de tudo, 31 dias sem domingos cortados pela fina espada das despedidas.

Como se tal não fosse perfeição bastante, o dever de conhecer outras culturas e países, durante as férias, esteve ausente. De repente, não teve mal ficar com a família pelo interior do meu país e a DGS agradeceu que assim fosse. O resultado foi uma tranquilidade que a memória teve dificuldade em recordar como algo de outro tempo. Uma tranquilidade em que couberam planos de última hora, caminhadas na serra, acenos trocados na rua e a reconstrução de amizades que a falta de tempo fragilizara. Enfim tudo aquilo que coloca o trabalho num espaço temporal limitado e não num pedestal à volta do qual pormenores insignificantes se acumulam. Pela primeira vez em cinco anos, tive tempo. Para mim e para os outros.

Por isso, não estou preparada para regressar ao tempo pré-teletrabalho e, consequentemente, ao quarto alugado, às despedidas e às obrigações que ultrapassam os compromissos que escolhi para os meus dias. Dito nas palavras dos Cassete Pirata, a iminência do regresso é perder “a paz na guerra que ela trás”.

E esta será para sempre a dualidade enfrentada por quem tem de trabalhar, com o azar de ver o trabalho e a vida separados por quilómetros de distância. Claro que este grupo de condenados, no qual me incluo, tem habilidade suficiente para criar novos hábitos, encontrar desafios com sentido e juntar novas caras à rotina. No entanto, tal como explicam os Cassete Pirata na interpretação que me dá jeito, o que nós queremos (trabalhar no que gostamos) não é o que queremos (uma amálgama de “adeus” permanente). Assim, resta-nos vaguear sem mapas, na esperança de um dia conseguirmos ser o nosso próprio norte.

Até lá, agarramo-nos a tudo o que podemos para nos convencermos que estamos no rumo certo. Em direção a bom porto, seja ele qual for. E o meu pedido é que não tardemos a descobri-lo.

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