HistóriaLiteraturaSociedade

Sobre Orwell e o Rebelde Desconhecido

70 Anos do Livro 1984

70 Anos do Livro 1984

O romance de ficção distópica Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell, foi publicado a 8 de junho de 1949. A história narrada é a de Winston Smith, um homem com uma vida aparentemente insignificante que vive numa sociedade totalitária e tem, assim como todo o resto da população considerada “perigosa”, cada passo seu vigiado pelo governo. Funcionário público, Winston trabalha para o Ministério da Verdade, responsável pela propaganda e pelo revisionismo histórico. O seu trabalho é reescrever artigos de jornais do passado, de modo que o registo histórico sempre apoie a ideologia do partido. Grande parte do Ministério também destrói ativamente todos os documentos que não foram editados ou revistos. Desta forma, não existe nenhuma prova de que o governo esteja a mentir.

O livro é uma metáfora sobre o poder e as sociedades modernas, uma crítica a regimes de governo totalitários. Orwell expõe uma teoria sobre a guerra, segundo ele, o objetivo de uma guerra não é vencer o inimigo nem lutar por uma causa. O objetivo da guerra é manter o poder das classes altas, limitando o acesso das demais classes à educação, à cultura e aos bens materiais. No romance, o Partido, para qual trabalha Winston, usa dos seguintes lemas para manter o domínio, de acordo com a teoria da guerra de Orwell: “guerra é paz”, “liberdade é escravidão” e “ignorância é força”.

No mesmo ano de lançamento do romance de George Orwell o Partido Comunista assumia o poder na China após a revolução liderada por Mao Tsé Tung.

30 Anos do Massacre na Praça da Paz Celestial

Às vésperas de completar 40 anos da revolução comunista, em 1989, a China foi sacudida por uma onda de manifestações. Intelectuais, trabalhadores e principalmente estudantes começaram a sair às ruas a exigir mudanças imediatas na economia e na política.

Em maio, as manifestações intensificaram-se e, no dia 4, mais de 100 mil estudantes e trabalhadores marcharam em Pequim a pedir reformas e a abertura de diálogo com o governo. No dia 13, grandes grupos de estudantes ocuparam a Praça Tian’anmen (Praça da Paz Celestial) e começaram uma greve de fome. Intolerante, o governo liderado pelo Secretário Geral do Partido Comunista, Deng Xiaoping e pelo Primeiro Ministro, Li Peng, decretou a lei marcial a 20 de maio. O estado de exceção não diminuiu o ímpeto dos manifestantes. Com tropas e tanques nas ruas, a violência tomou conta de Pequim. No início de junho, o confronto atingiu o auge. O número real de mortos e feridos segue um segredo de estado. As estimativas vão de dois mil a quatro mil mortos e cerca de 30 mil feridos.

O Rebelde Desconhecido

No dia 5 de junho, um manifestante solitário se colocou em frente a uma coluna de tanques detendo o seu avanço. O homem continuou de pé, durante um longo tempo, antes de ser expulso do lugar. A imagem do chinês contra a força do exército tornou-se uma das mais emblemáticas do século XX.

Quase nada se sabe a respeito da identidade do homem ou do comandante do tanque. Pouco depois do incidente, o tabloide britânico Sunday Express afirmou ser “Wang Weilin” seu nome, um estudante de 19 anos que foi posteriormente preso por “agitação política” e “tentativa de subversão de membros do Exército”. Entretanto, a veracidade desta afirmação é questionável. Numerosos rumores se espalharam acerca da identidade do homem e de suas intenções, mas nenhuma delas pôde ser definitivamente provada.

‘1984’ x 1989

O que tem o livro 1984 com o massacre na Praça da Paz Celestial?

Os protestos e as mortes danificaram a reputação da República Popular da China nos países ocidentais. Os meios de comunicação ocidentais, entre elas a BBC e a CNN, tinham sido convidados para cobrir a visita de Mikhail Gorbachev em maio, e portanto, se encontraram em uma posição excelente para cobrir ao vivo a repressão do governo chinês. Os manifestantes, então, aproveitaram a oportunidade de se dirigir à opinião pública internacional. Durante a dissolução dos protestos, em 4 de junho, foi ordenado à CNN que finalizasse as suas transmissões, que ainda desafiou essas ordens e cobriu os protestos através do telefone, mas o Governo desabilitou as ligações por satélite.

As imagens dos protestos junto com a queda do comunismo na União Soviética e no Leste Europeu contribuíram para formar a opinião e as políticas ocidentais sobre a República Popular da China, durante a década de 1990 e os primeiros anos do século XXI. Produziu-se uma considerável simpatia pelos protestos estudantis no Ocidente e, quase imediatamente, os Estados Unidos da América e a União Europeia anunciaram um embargo sobre o comércio de armas, e a imagem da década de 1980 da China como um país que empreendia reformas e um contrapeso aliado contra a União Soviética foi revista para de um regime autoritário muito repressivo.

O protesto na Praça de Tian’anmen tornou-se então, um tabu político na China, e falar sobre ele é considerado inapropriado ou arriscado. A única opinião dos meios de comunicação realiza-se no ponto de vista do Partido Comunista: que foi uma ação apropriada para assegurar a estabilidade.

Em 11 de abril de 1994, num encontro com Cavaco Silva em Pequim, o chefe do Governo chinês, Li Peng, reconhece que Portugal ajudou a China a recuperar um estatuto internacional depois do massacre de Tian’anmen.

Parece que o governo chinês utiliza da prática do revisionismo histórico em seu discurso, assim como no livro de George Orwell. Em abril de 2006, a série televisiva “Frontline” da PBS produziu um episódio de nome “The Tank Man (Homem Tanque – O Rebelde Desconhecido)”, que examinou o papel deste personagem nos protestos e as mudanças desencadeadas desde então na economia e política chinesa. O programa difundiu um trecho filmado na Universidade de Pequim, onde participavam muitos dos estudantes que estavam nos protestos de 1989. A quatro estudantes foram exibidos um retrato do Rebelde Desconhecido, mas nenhum deles pode identificar o que estava acontecendo na foto. Alguns responderam que era um desfile militar, ou um trabalho artístico.

Após a mudança do governo central de 2004, muitos membros do Governo mencionaram os sucessos da Praça de Tian’anmen. Em Outubro deste mesmo ano, durante a visita do presidente Hu Jintao a França, ele declarou que “o Governo empreendeu uma ação determinada para acalmar a confusão política, em 1989, que permitiu à China desfrutar de um desenvolvimento estável”. Insistiu também em que o ponto de vista do Governo, no que diz respeito ao incidente, não se alteraria.

Em janeiro de 2006, um contrato com o Google confirmou que o assunto continua muito sensível para o governo chinês, pois a web chinesa do Google (Google.cn), aplica restrições locais às buscas de informação sobre a revolta da Praça de Tian’anmen, assim como com outros assuntos como o independentismo tibetano, a proibição do grupo religioso Falun Gong, considerado uma seita pelo governo chinês, ou as relações com Taiwan. Quando as pessoas buscam tópicos censurados, ele irá listar o seguinte informe, na parte inferior da página em chinês: “De acordo com as leis locais, regulamentações e políticas, uma parte das pesquisas resultantes não é mostrado.” Os artigos na Wikipédia sobre os protestos de 1989, tanto em versão em inglês como em chinês, são considerados a causa do bloqueio da enciclopédia online como um todo pelo governo chinês.

Os factos mais recentes

Embora o governo chinês nunca tenha reconhecido ter algo em relação ao incidente, em abril de 2006 foi feito um pagamento à família de uma das vítimas – esse foi o primeiro caso da publicidade do governo oferecer recurso à família de uma vítima dos protestos. O pagamento foi considerado uma “assistência”, dada a Tang Deying cujo filho, Zhou Guocong morreu com 15 anos de idade, enquanto estava sob custódia policial em Chengdu, em 6 de junho de 1989, dois dias após o Exército chinês ter dispersado os manifestantes de Tian’anmen. A mulher disse que lhe foi pago 70000 yuan (cerca de USD$ 8,700.00). Isso tem sido bem acolhido por vários ativistas chineses, mas foi considerado por alguns como uma medida destinada a manter a estabilidade social e não acreditam prenunciar uma mudança na posição oficial do Partido.

O último preso relacionado com os protestos foi libertado em outubro de 2016 depois de as autoridades chinesas terem reduzido a pena aplicada em onze meses. Miao Deshun, de 51 anos, foi libertado da prisão de Yanqing, em Pequim, a 15 de outubro de 2016, após mais de 27 anos na prisão.

Rodrigo Juliano Claudino

Seja curioso, corajoso e empreendedor, vais obter conhecimento, experiências e conquistas. Depois compartilhe tudo, senão, qual a razão para aquilo que conseguiste? Acredito que a paz só conseguimos com o perdão, a felicidade praticando o bem e o sucesso é a soma dessas duas coisas. Sou otimista, tenho fé nas pessoas e acredito que o melhor sempre está por vir.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Back to top button
Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: