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Crónicas

Bruno Nogueira também erra

Antes de irem a correr para a caixa de comentários intitularem-me de verdadeiro “conas” pelo título deste texto, quero elucidar-vos que há poucas coisas no universo cultural que ultrapassem a sensação de identificação plena entre autor e receptor, o tipo de relação que, por vezes, consigo atingir com Bruno Nogueira, ou não sofrêssemos os dois com mães que padecem de avançadas insuficiências tecnológicas. No entanto, não vou poder corroborar os elogios ad nauseam sobre este seu último projecto.

Vivemos tempos estranhos, quem ouse criticar “Como é que o bicho mexe” que se prepare para ser apedrejado em praça pública. Cá estou eu. Acerca disso, fiquem, desde logo, sabendo que a idolatria pode prejudicar gravemente a vossa capacidade crítica. Após duas semanas de um intitulado serviço público em que tantos se riram e beberam vinho à frente de um telemóvel sobra-nos uma mão cheia de nada. E reparem que sempre fui assíduo espectador do “show about nothing” criado por Jerry Seinfeld. Bruno e os amigos a conversarem, e alguns deles à caça de uma alavancagem de seguidores nas redes sociais. O que isto tem de mais? Voyerismo puro apenas compreensível num país que em 2020 ainda se entretém com reality-shows. Ainda assim, considero ser mais saudável o país que acende luzes de natal no dia 15 de Maio que aquele que acende velinhas à janela no dia 13 do mesmo mês.

Nos idos tempos do início do milénio, ainda nas cadeiras do liceu, segredava-se entre nós, putos, acerca de um programa transmitido para lá da meia-noite e que os nossos pais nos proibiam de assistir. Levanta-te e Ri funcionava como desejo proibido para quem tinha de se deitar a chorar para acordar cedo no dia seguinte para ir às aulas. Quando já se tinha tornado impossível negar as gargalhadas dos jovens perante as anedotas brejeiras de Fernando Rocha começou a destacar-se uma figura sui generis. Alto, magro e com uma aparente calma desconcertante para quem nunca tinha pisado o palco, tinha no silêncio e no imobilismo emocional os seus trunfos. Um tipo de humor que ninguém conhecia, nem estava preparado. Nem as crianças, nem os adultos, que o diga o senhor do bolo. 

A minha prima a estagiar na SIC há alguns meses fez-me ganhar crédito junto do meu amigo David, ao surgir com um convite para assistir comigo à gala dos onze anos da estação televisiva, no Coliseu dos Recreios. À espera das piadas de Herman, tornou-se impossível ficar indiferente ao choque frontal de Bruno com quem o tinha escolhido para ali estar. Bruno Nogueira subiu ao palco e com a tirada do senhor do bolo fez todos perderem a vergonha nas gargalhadas contra-poder e assim demonstrou que é possível vencer no nosso país sem lambotismo, nem salamaleques ao patrão, arriscando exactamente o oposto na primeira vez que tinha direito a tamanha exposição. Parodiou a, suposta, inexperiência de Herman e demonstrou aos portugueses, lá está, que o excesso de idolatria retira-nos capacidade para fazer o nosso próprio percurso pessoal.

Seguiram-se outros projectos nos quais utilizou sempre o seu conhecido trunfo. O passo para o desconhecido. Antes, durante e até Depois do Medo provou-nos, ao português que nem arrisca nem petisca, que abraçar o medo é talvez a forma mais curta para chegarmos à felicidade plena. Bruno Nogueira hoje é compreendido por todos os portugueses e a sua transversalidade tanto toca quem frequenta o teatro Nacional D.Maria II ou quem vê o Big Brother. 

Para um cronista do Público, Bruno traz o toque de Midas à baixa cultura, mas deverá estar esquecido da metanarrativa do autor de “Odisseia”, onde balança entre referências a Wim Wenders, Michael Cimino e Caetano Veloso. Talvez não tenha reparado também nas suas peças em salas como o São Luiz e como fez regressar público às plateias de teatro. Podemos arriscar falar de alta cultura em “Sara” onde se abordam os dilemas criativos dos actores, ou “Fugiram de Casa dos seus pais” para discorrer sobre temas singelos com o improviso aristocrático de MEC. A forma como sempre agregou pessoas de diferentes backgrounds resultando em projectos hilariantes como a paródia a reality shows “O Último a Sair” ou os inesquecíveis vox-pops com Rui Unas a personagens vivos e únicos no seu talk-show “Plano B” fazem-nos sempre desejar recorrer à memória histórica do Youtube.

Não quero que pensem que o título deste texto é enganador. O que o justifica são as piadas demasiado fáceis e gastas para tanto talento. Bruno desilude, quando faz piadas como as “gordas de leggings” que soam a século passado, as duas horas do último episódio de “Como é que o bicho mexe” que não diz nada de realmente importante ou ainda quando o ego o atraiçoa. As tentativas falhadas como cantor ou os pedidos de aplauso aos pais e irmãs porque sim, no seu último espectáculo no Altice Arena, são nódoas no percurso brilhante.

Num país ainda alimentado pela intriga e inveja do sucesso dos outros, excepção feita aquando do sucesso internacional, nessa altura de todos nós, Bruno Nogueira tal como merece ser elogiado, apreciado e seguido, também necessita de ser criticado. Por isso mesmo, nunca devemos endeusar ninguém nem perder a capacidade para criticar e perceber quando se erra.

Fonte da Imagem: Observador

Francisco Mouta Rúbio

Licenciado em Publicidade, trabalha em audiovisual e social media e está sempre rodeado por cultura, futebol e filosofia. Autor do podcast Dedo no Ar.

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