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Promete que não contas.

Promete que não contas.
Jura-me que não contas.
É nosso, só nosso.
Tão bom que é ter um segredo só nosso.
É normal.
É… amor. É… porque gosto de ti.
E eu, gosto tanto…

… dela não seria, sabia-o hoje.

Levantou-se dos lençóis ensopados de suor frio. Melhor os de hoje, menos ensopados que os antigos. Os carregados de suor frio e quente, de dois ou mais corpos. O suor frio saído sempre do mesmo corpo. Com o passar do tempo o que menos ensopava. Uma dormência sôfrega de um abuso contínuo. Fluídos, choros, abusos… lençóis ensopados de tudo quanto ensopa, menos de amor.

Levantou-se com as juras antigas que fez, as promessas que fez. O segredo já partilhado com tantos, os que lhe ensoparam os lençóis antigos e o corpo. Os que pagaram a quem gostava dela, a quem jurou guardar segredo.

Levantou-se e nem lavou os dentes. Bafo de perversão. Que lhe sentisse o mundo o bafo para que lhe visse a alma suja, despida de sonhos. Ligou aquilo a que chamamos de noticiário:

“Nos últimos anos, uma média de 22 crianças por mês foram vítimas de violência sexual. A maior parte dos crimes acontece no seio da própria família e as vítimas são, sobretudo, raparigas entre os 8 e 17 anos.”

O resto deixou de ouvir. Eram estatísticas, percentagens. Números. Não falavam dos lençóis ensopados nem das almas sujas. Escorregaram as palavras goela abaixo. Cuspiu a gosma entranhada das circunstâncias para o chão do quarto. Que ali ficasse até secar, como seu corpo nu tantas vezes ficou num qualquer chão. Lembrou as fivelas de maldade da cintura dos homens que a ensoparam de tudo, menos de afeto. Que a deixavam a secar como gosma.

Pegou uma lâmina, depois de deixar de ouvir os números.

Cortou-se.

“André”, gritou até lhe faltar a voz, até que lhe desaparecesse da goela. As vozes deviam para isto servir. Para se gritar pelos nomes, para se ouvirem, para doer pelos outros. Não sabe se alguém a ouviu. O André não poderia, morreu-lhe ao lado. Partilharam lençóis ensopados. Eram, em vezes, vendidos aos pares. Prostituídos por quem a fez jurar, um dia, silêncio. Morreu-lhe ao lado, espancado por quem pagou e não se sentiu agradado. Por discórdia de quem vende gado e de quem o consome. Desentendimentos de empresários, digamos assim. E que isto não vos choque, nem os números que esfumaçam rostos. Que vos choque a morte do André e os corpos escondidos pelos números. Que vos choque as almas despidas de inocência das percentagens.

Tinha oito anos e um tio “amigo”, protetor. “Um homem de muito bom coração”, assim se lembra de ouvir sua avó dizer à mesa de Natal. “Que Deus te abençoe, meu bom irmão”, confirmou o pai. A mão do tio amigo no joelho subia já até à coxa, debaixo da mesa de consoada. Copo do sumo derramado vestido abaixo, culpa da confusão que lhe deu a carícia escondida. Zangou-se a mãe pelo desastre com a roupa. Valha-nos o tio amigo para dar um banho rápido e trocar de roupa. Entretanto “brindemos ao nascimento de Jesus”. Lavou-lhe as partes mais do que precisavam ser esfregadas. As frases feitas dirão que não interessa como começa, mas sim como acaba. Começou assim, terminou numa das vinte e duas, em percentagens destas de noticiário, ainda que nem isso fosse pela ausência de denúncia. O começo pela observação, pelo despir, pelo toque, indo ao sexo oral, à masturbação, até à penetração. A evolução crónica, assim lhe chamam os especialistas. A evolução de um roubo não contabilizável, assim chamará ela. Sabe ela, hoje, que faltou mais que o brinde ao nascimento de Jesus. Faltou quem lhe dissesse que o corpo onde vivia era seu, só e apenas seu, que ninguém o poderia tocar sem que ela o quisesse. Faltou quem lhe dissesse que os corpos dos outros, dos outros são, e que não tinha de os tocar se não quisesse. Faltou que alguém lhe dissesse que banhos destes se contam, não são segredos dignos. Mas ele há coisas que têm os pais vergonha de falar com os filhos. Deixemos a cargo do destino o futuro e seja “o que Deus quiser” … que ele sabe o que faz.

E o André, o André que lhe morreu ao lado. Vizinho do tio amigo, jurou-lhe também coisas daquelas. Silêncio. E os amigos do tio amigo? Já não tinha ela oito. Já a inocência escorregadia tinha ido pelo ralo da banheira na noite de consoada. Ameaças compram o mesmo que juras: SILÊNCIO. Servem outra idade.

Roteiros de turismo, ela e o André. De turismo para os amigos do tio amigo. O sexual. Mais valia vendê-los aos bocados que vendê-los completos. Há negócios que são quase como família, temos dificuldade em trespassá-los. Assim, vendem-se aos bocados. Um ou dois amigos de cada vez. Ela e o André, mercadoria com proprietário.

Aguentou-se ela estes anos pela esperança que se viesse a acabar o tio amigo um dia. E, num destes dias, deu-se o acidente de automóvel que o acabou. “Pobre carro”, pensou. Morreu o empresário, depois do André. Ficou ela. Aguentou-se até esse dia pela esperança que se acabasse o tio. Acabado o tio, acabada a esperança. Ficou o que fez ele dela. E ela que isto não previu, o que seria depois. E não soube ser mais nada além da gosma do passado que o tio escarrou.

Veio a lâmina a caminho da carne, outra vez. Cortou-se. “Clara”, gritou. A saliva saia-lhe descontrolada da boca por lavar. Mais um corte, mais um nome, mais um grito. Vinte e dois cortes, vinte e dois nomes, vinte e dois gritos, vinte e dois bísaros libertos desta culpa pela ausência de remorsos. Ensopados os lençóis de sangue, não se via já o suor frio. Amanhã traçaria a lâmina mais vinte e duas vezes a sua carne. Com mais vinte e dois nomes. Cortar-se-ia até não mais ter carne, até não mais ter sangue.

Virá no noticiário que foi suicídio. Mas, foi Rita

1 de 22.
Rita
2001-2019

Que sirva a nossa voz para proteger os nomes que sabemos, o nosso se for o caso.

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Podes também dirigir-te a um dos Gabinetes de Apoio à Vítima da APAV.

A APAV conta com o Projeto/Rede CARE – rede de apoio especializado da APAV a crianças e jovens vítimas de violência sexual – é de âmbito nacional, constituída por Técnicos/as de Apoio à Vítima (TAV) especializados/as, de diferentes entidades parceiras, públicos e privados, colaboradores/as e voluntários/as, com formação específica.

O Projeto/Rede CARE presta apoio especializado a crianças e jovens vítimas de violência sexual, seus familiares e amigos/as, e integra-se nas redes de serviços de proximidade da APAV.

Para mais informações: https://apav.pt/care/

Fontes:
https://apav.pt/apav_v3/images/pdf/Estatisticas_APAV_Relatorio_Anual_2018.pdf
https://apav.pt/care/index.php/manual-care
https://www.rtp.pt/noticias/pais/22-criancas-vitimas-de-violencia-sexual-por-mes_n1150440
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Gabriela Pacheco

Licenciada em Ciências da Educação e Formação. É Gestora de Desenvolvimento e Formação. Tem Certificado de Competências Pedagógicas, Certificação Internacional em Practitioner PNL – Programação Neurolinguística e curso de Graduação em Direcção Hoteleira. Escreve por inevitabilidade. Cultiva a paixão desmedida pela Arte, a Educação e a Formação naquilo que acredita ser a poção mágica para o desenvolvimento humano.

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