Saudade

Existe uma ideia generalizada de que esta palavra só existe na língua portuguesa. Assim sendo não consegue encontrar equivalente nas outras línguas o que torna a sua tradução impossível, ou seja, fora de contexto. Mas será que os falantes das outras línguas não sabem o que é a saudade?

“Saudade é a lembrança de se haver gozado em tempos passados, que não voltam mais, a pena de não gozar no presente ou de só gozar na lembrança, o desejo e a esperança de no futuro tornar ao estado antigo de felicidade.”

Olhando com racionalidade para a questão podemos verificar que sentir é comum a qualquer ser humano. O modo como se processa é que poderá ser diferente e ser analisado de maneira a entender como se o vive em culturas diferentes. Aquilo que se recebe, a herança cultural diz muito sobre a postura e modo de estar na vida.

Os latinos são muito sensíveis e exageradamente ligados a um cordão umbilical que tende a nunca se cortar. Sobretudo com os meninos que, mesmo sendo homens, serão os bebés das suas mães. É endémico e secular. Os filmes retratam com algum humor este tipo de ligação que não se quebra porque as partes assim não o desejam.

Se forem italianos a mamã é uma figura presente em todos os casais, uma relação a três que acaba por fracassar porque nenhuma mulher está à altura do seu menino. Todas têm imensos defeitos e nenhuma qualidade. São sempre as bruxas más que enfeitiçam e fazem as maiores maldades para conseguirem os seus fins.

Os ingleses são mais desligados e entendem que crescer é uma marca da vida. Não se assustam quando os mais novos querem abrir as asas e partir. As demonstrações de afecto não são o seu forte o que não impede a vida de continuar. São secos, mas determinados e firmes. A gestação durou o tempo determinado e a vida faz-se fora da casa materna.

Os franceses são uma espécie de meio termo, mas ainda conseguem manter a tradição das lágrimas. Um recurso que costuma obter os resultados pretendidos em ambos os sentidos. O afastamento provoca a saudade e a reunião os beijos, que costumam ser aos pares e têm códigos especiais. Os amigos trocam quatro beijos e depois logo decidem o que fazer com eles.

Os espanhóis são uns exagerados com o que supostamente devem sentir. Do calor do lar ao deserto da independência, todos os altos e baixos são vividos amiúde. Misturam sensações com sentimentos do mesmo modo que misturam os alimentos e as bebidas. O bolo que fabricam é um todo e tão complexo que nem eles entendem o que se está a passar. Contudo, as lágrimas caem e fazem todo o sentido.

Ser latino é saber tocar uns nos outros, é ter a capacidade de querer sentir os outros e os seus sentimentos. A saudade é uma recordação de algo que deixou marcas, uma espécie de página de um diário que se lembra de aparecer quando menos se espera. Umas vezes dói e remói, mas outras tem o condão de avivar certas e determinadas situações que foram tão preciosas que se gostaria de repetir.

Saudade, palavra forte que provoca sentimentos variados em quem a ouve. Para uns é o regresso à infância, para outros provavelmente à adolescência e para mais uns quantos terá outro significado simbólico. O passado pode ser o de ontem ou simplesmente aquele que ficou enterrado muito lá atrás, mas se soltou e libertou as suas raízes. Porém, o passado não faz parte do presente?

Todos temos histórias e criamos memórias que nos são queridas. Um livro, um som, uma ideia, uma pessoa, um olhar, qualquer coisa que proporcione uma paragem no tempo, esse cruel e sádico manipulador, permitindo restabelecer um equilíbrio que parecia há muito perdido. Tempo, aquilo que se esgota e que leva, inevitavelmente, à saudade, ao sentir, ao querer repetir, à lembrança do que foi bom.

O modo peculiar como nos apegamos aos nossos, à nossa família directa e, de um modo geral, aos nossos pais, faz dos latinos as pessoas mais sofredoras. Expressam-no magistralmente na poesia, na prosa, em romances de cordel, em novelas bem estruturadas, em epístolas e, acima de tudo, em cartas. Estas contêm palavras carregadas de sangue e de memória, de existência e de falibilidade, de promessas e de sonhos. Quimeras de papel que estimulam os sentimentos.

As cartas foram, durante muitos anos, o veículo de comunicação mais precioso dos que se gostam, dos que se amam e se têm de apartar. Era com elas que expressavam os seus sentimentos, a sua enorme dor da separação, a sua monstruosa saudade que gerava angústias tão profundas que incitavam ao suicídio. Essas mesmas cartas são testemunhas do que se sentiu e não podem, nunca, mentir. São elas que vivem o que aconteceu, foram elas que estiveram lá e serão elas que continuarão a guardar os segredos.

Voltemos à questão inicial: só os portugueses sentem saudades atrozes ou os outros também partilham a capacidade de se lembrarem de algo que já ocorreu e que não pode voltar jamais? Parece-me é que gostamos de sofrer, de carregar uma cruz pesada e de medir aquilo que não é mesurável. Somos reis da desgraça e queremos ser, igualmente, os czares da tristeza e do sofrimento.

Saudade é uma palavra par, porque consegue casar com tantas outras. Marca a diferença, o momento especial, o dia em que aconteceu, a época em que foi vivida. Todos já sentimos saudades, já fomos mais novos, já tivemos algo que perdemos e gostaríamos de voltar a ter, já vivemos e queríamos voltar a viver. Sentir é tão importante e tão doloroso.

Recordo o filme “Casablanca” e a saudade que ele já sentia mesmo antes de ela partir. Revejo o seu semblante e a fulminante dor que o iria acompanhar para o resto da sua vida. Ela faria escala em Lisboa, talvez para aprender a sofrer em quantidade e qualidade, com destino a um inferno de mágoa que, ironicamente, iria unia os dois amantes para sempre.

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