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Como comunica a Cultura em tempos de pandemia?

Certo e sabido é que a pandemia afetou os mais diversos setores de atividade económica do país. As instituições culturais, como contribuidoras para a economia nacional, não ficaram atrás, sobretudo com a queda do turismo, quer no contexto português quer no contexto mundial. Como tal, a Cultura tem procurado alternativas, de forma a continuar a comunicar, seja física seja digitalmente.

Se o digital já tinha a sua força com as redes sociais por Portugal e pelo mundo, agora, veio ganhar ainda mais. Se já o online começava a fragmentar audiências, situação agudizada pelas plataformas de streaming, como é o caso da Netflix, agora, essa dimensão tem vindo a alargar-se ao campo profissional, com as recomendações governamentais quase constantes para o teletrabalho. Vários concertos, peças de teatro ou até exposições começaram a ficar disponíveis na Internet, ao acesso de qualquer pessoa. A título de exemplo, o Teatro Dona Maria II, situado em Lisboa, chegou a alargar-se ao mundo cibernético com ciclos de espetáculos teatrais, na altura em que teve que fechar portas.

Aquela nova forma de se mostrar a Cultura trouxe novas dinâmicas, como dá conta Dora Santos Silva, professora universitária que estuda a Comunicação neste campo. A imagem do físico começa crescentemente a ser transportada para o digital, ou seja, a experiência ao vivo passa cada vez mais a ser em plataformas digitais, o que pode levar a questionar se é realmente ao vivo a experiência que se tem. Depois, a sua crescente gratuitidade, pois cada vez mais as instituições culturais passam a oferecer o visionamento, ao invés de cobrarem entradas. Isto pode levar a que mais pessoas possam usufruir de bens culturais, mas, ao mesmo tempo, pode pôr em causa o financiamento da Cultura. Fale-se também na capacidade reprodutível quase infinita, de quando os produtos são colocados online, o que leva a algumas instituições a determinarem um período de tempo de disponibilidade. Finalmente, fale-se na potencialidade de recrutamento de novos e novas profissionais, sobretudo de áreas como a Informática e a Comunicação. Tornar as plataformas funcionais e comunicáveis do ponto de vista da interação com os públicos é um ponto de partida para o sucesso do seu acesso e do seu uso.

Apesar destas novas dinâmicas, podem ressaltar-se alguns problemas. Desde logo, o acesso ao digital. Ainda há quem não tenha um computador ou um smartphone. Iniciativas como a Escola Digital, levada a cabo pelo atual Governo, visam oferecer computadores a estudantes dos Ensinos Básico e Secundário, o que demonstra isso mesmo. Veja-se também como a população idosa ainda carece do acesso a estes equipamentos, tal como analisa a Marktest. Com efeito, dá-se o problema do uso, em que a falta de literacia digital leva a que pessoas idosas não estejam predispostas a usar este tipo de equipamentos ou não estejam cientes de potenciais riscos delas. Este fenómeno dá origem a projetos como o “Nós e (A)vós”, que pretendem fomentar a literacia, bem como combater o isolamento da população idosa. Daqui a questão que se pode colocar em relação ao seu uso indevido, como as práticas de phising ou a capacidade de se produzir e divulgar conteúdos íntimos de modo não autorizado. Voltando ao panorama propriamente dito, se o físico tem vindo a perder força, também os recursos humanos a perdem: assiste-se a uma tendência de despedimentos, pois a tendência é de corte nos orçamentos, dada a falta de visitantes.

Os tempos mudam. Já antes da pandemia iniciativas como a plataforma Google Arts & Culture vieram dar uma nova dimensão à exibição de obras de arte, conferindo ao ou à cibernauta a capacidade de apreciar obras tanto a nível nacional como a nível internacional. Especificamente em Portugal, por exemplo, o Museu Alberto Sampaio dispõe de uma visita virtual aos seus espaços, numa visão tridimensional. A verdade é que as redes sociais têm também contribuído para a divulgação da Cultura. Já mencionado acima, o webinário levado a cabo pelo Grupo de Trabalho dos Jovens Investigadores da SOPCOM (Associação Nacional de Ciências da Comunicação) ‘Inovar na Comunicação de Cultura’, cuja oradora foi a professora e investigadora Dora Santos Silva, explora em profundidade estas e outras questões. A determinada altura, a docente refere o feedback de redes como o TikTok, que “tem sido espantoso”.

Na sequência do parágrafo anterior, Dora Santos Silva aponta para a necessidade de se redescobrir a Cultura. Por um lado, pensar em novas formas de financiamento. Alguns países têm vindo a apostar em benefícios fiscais para as instituições nacionais. As redes sociais servem para divulgar trabalhos, mas também iniciativas de crowdfunding. Por outro lado, equilibrar os espaços físico e virtual. A investigadora receia que as organizações possam recusar manter as dinâmicas do segundo, “quando se voltar ao normal”. Até que ponto poderão continuar no online, se poderão vir ter de novo e com a frequência do passado os espetáculos offline e a pagar bilhete?

Em jeito de conclusão, entende-se que a pandemia veio obrigar a uma redefinição dos contornos da performance dos conteúdos culturais, transformando-os em conteúdos cada vez mais fáceis de consumo, mas nem sempre para toda a população. A literacia digital continua a mostrar-se, portanto, preponderante, muito embora muitas oportunidades tenham sido trazidas com a emergência de uma Cultura mais digitalizada. Novos problemas como o seu financiamento têm sido postos em causa, o que leva a um repensar do todo deste campo. O estudioso da Comunicação Denis McQuail refere-se ao termo ‘cultura’ enquanto o conjunto de “ideias, crenças, identidade, expressão simbólica de todos os tipos, incluindo linguagem, arte, informação e entretenimento, mais costumes e rituais” [1]. Assim, acredita-se que, como sempre, a Cultura, enquanto promotora das artes, continuará a trilhar o seu caminho e a procurar novas formas de comunicar.

[1] – Nota bibliográfica (livro): McQuail, D. (2010) (Ed.). McQuail’s Mass Communication Theory. Londres: SAGE.

Pedro Ribeiro

Vimaranense, 24 anos e recetivo a desafios, ocupo a maior parte do meu tempo em torno das áreas dos Média e da Comunicação. Sou estudante de doutoramento em Ciências da Comunicação e procuro oferecer a minha perspetiva da forma mais íntegra possível. Numa sociedade de pouco sentido crítico e muito moralismo, procuro trazer debate com conhecimento, procurando perceber e aprender mais. Não fosse isso um motor para a vida, o conhecimento. Já escreve Nietzsche, na sua obra 'Assim Falava Zaratustra': 'O Homem só existe para ser superado.'

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