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Crónicas

Dias contados

Poucos são os que contam os dias. Por entre a azáfama em que se transformaram as nossas vidas, quase não temos tempo para pensar na morte. Na verdade, que sentido faria pensarmos nessa inevitabilidade suprema? Provavelmente, muito pouco já que nada podemos fazer para a contornar. 

Quando somos jovens, a vida parece-nos eterna, não há como morrer e conseguimos projetar a vida para os vinte anos seguintes. Depois, com algumas perdas que vamos sofrendo, lá nos lembramos da morte e dizemos, para nós mesmos e para os outros, que temos de repensar a vida porque ela só dura dois dias. E dura mesmo. Dois dias depois já não estamos nem aí para a filosofia sobre a vida e sobre a morte e todas as rotinas se repetem novamente. 

No entanto, para os mais velhos, aqueles que já não podem projetar o futuro ou para os enfermos que, em abono da verdade, nunca o tiveram, tudo é completamente diferente. Para esses o fim está ao virar da esquina. Dorme ao seu lado todas as noites e, não raras vezes, adormece até tarde, permitindo que acordem mais um dia. Até ao dia em que madrugará para se instalar até à eternidade. 

A noção da finitude chega a quase todos nós em alguma altura da vida. Talvez não chegue a muitos jovens felizes e saudáveis e cuja vida se eclipse abruptamente. Mas para a generalidade dos restantes, ela chega. 

O que me intriga e, por ventura, intrigará a outros e outras como eu, é o porquê de isso não nos tornar pessoas melhores. Compreendo que quem ainda se ache eterno, acredite que tenha a eternidade para se redimir. Mas para aqueles que já sabem que a eternidade não existe, não há nada que os torne pessoas melhores. 

Ódio, raiva, rancor, inveja, avidez, nunca criaram histórias que tornassem o mundo mais bonito e, ainda assim, há quem viva neste registo os anos de vida que ainda lhes restam. 

Fecha-se a tampa de madeira e com ela fecham-se as vontades. Daí em diante, deixamos de ser matéria e passamos a ser apenas recordações. Se formos más recordações, rapidamente seremos apagados. Se formos boas recordações, existirá sempre quem vá alimentando a nossa alma, nos sopros de vida a que tiverem direito. Assim é desde que o mundo é mundo e mudámos tão pouco. 

Inventámos a roda, aprendemos a dominar o fogo. Construímos automóveis, aviões, barcos, caminhos de ferro e ligámos o mundo físico. Fomos ao espaço, aprendemos a curar algumas doenças e desenvolvemos os mais diversos instrumentos tecnológicos. E, dessa forma, ligámo-nos ao mundo sem precisarmos de sair do lugar. 

Exultamos, dia a após dia, a palavra de Deus. Alguns dizem mesmo que Jesus morreu na Cruz por todos nós, mas 2021 anos se passaram desde o nascimento do profeta e continuamos no mesmo sítio. Não é a palavra de Deus ou de Jesus  que nos impede de agredir, de roubar, de violar, de matar. É a lei.

Evoluímos tanto à nossa volta e tão pouco dentro de nós mesmos.

2021 anos se passaram e não aprendemos, rigorosamente, nada. Continuamos o mesmo lixo de sempre. E depois de morrermos, outros virão para cometerem os mesmos erros e nenhum Jesus pregado na Cruz os salvará.

Balthasar Sete-Sóis

Balthasar Sete-Sóis, sociólogo, escritor, cronista, radialista e crítico literário encontra nas letras e na comunicação a realização e o sentido para aquilo que o rodeia.

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