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Torrente

Numa manhã fria e soalheira de Outono, as margens do rio transbordaram e o mundo tratou de se realinhar. Éramos dois miúdos, achávamos que éramos homens e não fomos nada perante a torrente. Soube depois que as comportas da barragem não tiveram força suficiente para segurar a água que o princípio do Outono trouxera. Chovera torrencialmente, dias a fio, uma chuva forte, certa, castigadora. O Verão não fora demasiado quente, não era como se Deus estivesse a tentar redimir-se dos seus próprios pecados. Os agricultores andaram contentes até perceberem que já era de mais e que iam ficar sem colheitas, tal como ficariam se não tivesse chovido de todo. Passámos dias debaixo de chuva, encharcados no caminho da escola, a secar a roupa no corpo, já tão imunes a isto que nem uma tosse, nem um espirro, nada. Era como se a chuva nos tocasse mas não tivesse qualquer poder sobre nós. E achámo-nos invencíveis, miúdos certos de que tínhamos superpoderes, éramos maiores do que tudo o resto. Erro crasso.

Naquela manhã, decidimos que não precisávamos de ir às aulas. Inventaríamos uma desculpa qualquer, se fosse caso disso. Ninguém queria saber. Os nossos pais eram daquela classe condenada a trabalhar para sobreviver, não podiam dar-se ao luxo de perder demasiado tempo connosco e nós tínhamos feito um óptimo trabalho a criar uma imagem de bons miúdos, de confiança, responsáveis. Aprendêramos que bastava que nos escudássemos um ao outro: se as nossas versões dos acontecimentos, fossem eles quais fossem, coincidissem, estaríamos sempre a salvo. Testámos esta teoria em delitos menores e não nos demos mal. 

Não expliquei de onde vem esta cumplicidade, talvez seja altura de o fazer. Crescemos na mesma rua, a separar-nos dois prédios habitados por mais um punhado de famílias como as nossas. Era o tempo em que era seguro estar na rua até ao pôr-do-sol. A maior preocupação das nossas mães era com a qualidade e quantidade de comida que ingeríamos durante o dia. Desde que almoçássemos, lanchássemos e estivéssemos de volta a casa a horas de jantar, nada nos era negado. Descobrimos juntos o sentimento de pertença, a amizade sem reservas, as paixões alimentadas devagar. Éramos muitos, mas havia laços mais estreitos e o nosso era um desses. Nenhum de nós tinha irmãos e talvez tenha sido isso que nos uniu. Sei que, ao fim de pouco tempo, éramos a sombra um do outro. Oferecemos olhos negros a quem insinuou que talvez aquilo entre nós não fosse apenas amizade. Nunca nos questionámos sobre a nossa proximidade, se querem saber. Éramos irmãos, no fim de contas. 

Naquela manhã deixámo-nos estar. Desviámos caminho pela mata e caminhámos até à margem do rio. Naquele ponto, a corrente era forte, sempre revolta. Fosse o rio mais fundo e seria perfeito para descer de caiaque. Nunca tentámos. Encostámo-nos à pedra que era a nossa casa e entre conversas e cigarros, trancámos o olhar um no outro, pela primeira vez em muito tempo. Nenhum de nós podia explicar. Aquela tarde, Verão intenso, em que acabámos nus, suados, confusos e inteiros depois do sexo. Não falámos do que aconteceu. Continuámos irmãos, amigos daqui até ao fim dos tempos, a força inabalável a que não podíamos dar nome. Naquela manhã, voltámos ao abraço-casa, àquela sensação de que o mundo se endireitava por ali. Não demos pelo frio, não quisemos saber. Já beijáramos tantas bocas e nenhum beijo era assim, tão nosso, tão visceral. Não houve medo, apenas certezas. Se era isto que sentíamos, que fosse. Não haveríamos de tremer e o mundo seguiria igual. Mas a força da água que as comportas não conseguiram travar tratou de dar rumo diferente às nossas vidas. Ele foi levado rio abaixo, a torrente a atirá-lo contra as pedras, sangue a misturar-se com a água, o corpo dele a não ser nada perante aquela imensidão. Eu sobrevivi. Ou talvez também tenha sido arrastado rio abaixo, um corpo agora morto porque um bocado de mim morreu ali, quando deixei de ter razão para ser quem efectivamente era e percebi que talvez a vida, para mim, tivesse de ser outra coisa qualquer.

Lénia Rufino

Escreve porque não sabe fazer mais nada. Mentira. Sabe, mas não gosta tanto. Criadora compulsiva de personagens com distúrbios psicológicos graves e dona de um fascínio absurdo por mentes conturbadas.

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