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Negócios

Podemos parar de falar sobre empreendedorismo feminino?

Enquanto escrevo estas palavras, há cerca de 3,905 milhões de mulheres em todo o mundo. Destas, menos de metade (46,9%) trabalha – uma diminuição de quatro pontos percentuais em apenas três décadas. O direito ao trabalho, enquanto escolha, sob condições de dignidade, justiça e segurança, é essencial para o ser humano. O não acesso ao mercado laboral coloca as mulheres em desigualdade, perpetuando o fosso entre géneros.

Poderíamos dizer que a mulher do mundo ocidental nunca teve tantas oportunidades como agora: afinal, a geração das nossas mães e das nossas avós ainda teve de pedir autorização para trabalhar e viu-se impedida de votar e decidir o próprio destino, entre tantas outras coisas.

No entanto, continuamos a registar uma diferença significativa entre géneros no mercado laboral. Mais uma geração inteira de mulheres vai ter de esperar pela igualdade: o Gender Gap Report de 2021 concluiu que serão precisos 136 anos para igualar condições laborais entre ambos os géneros.

A desigualdade e o empreendedorismo feminino

No ranking dos países onde existe maior nível de igualdade entre géneros no mercado de trabalho, Portugal está no 22º lugar. Isto significa que, embora com progressos, ainda há trabalho a fazer. E a prova disso está nos factos: as mulheres têm uma escolaridade média superior aos homens, mas ganham menos e saem mais cedo do mercado de trabalho.

A maternidade é a fábrica de grande parte dos negócios femininos. Empurradas para o desemprego por patrões que aproveitam a licença de maternidade para terminar contratos, muitas mulheres vêem na criação do próprio emprego a alternativa a um mercado de trabalho gerido em modelos antiquados, rígidos e pouco flexíveis.

Em situação de desemprego, as mulheres recorrem ao empreendedorismo não só como uma fonte de rendimentos, mas também como uma alternativa laboral que lhes permite acompanhar os filhos de uma forma mais próxima. Muitas fazem-no sem qualquer tipo de formação (ou recorrendo a cursos e conteúdos das redes sociais para obter informação) ou apoio económico.

O resultado? Desgaste (físico e psicológico), pouco retorno financeiro e um regresso ao mercado de trabalho com um interregno prolongado que as empresas teimam em penalizar oferecendo um salário mais baixo e menos oportunidades de progressão. O gender gap continua a aumentar.

O empreendedorismo feminino como um recurso

O empreendedorismo deve ser um desejo, um objetivo – e não um recurso. Enquanto funcionar como alternativa para mulheres desempregadas que não conseguem colocação num posto de trabalho por terem filhos, é apenas a prolongação de um problema.

Para ser efetivamente um instrumento de evolução da sociedade e da economia, e não apenas uma métrica simpática para apresentar, temos de regressar ao básico e olhar para as desigualdades no mercado de trabalho.

Porque é que a mulher continua a ganhar menos do que o homem, mesmo desempenhando funções iguais? Porque é que continua a ser descredibilizada no mercado de trabalho? Porque é que a maternidade continua a ser um entrave à progressão profissional?

Talvez quando tivermos a resposta a estas (e tantas outras) perguntas e passarmos a olhar para a parentalidade como uma responsabilidade (e um direito) de ambos, o empreendedorismo feminino possa deixar de ser o último recurso para a criação de um posto de trabalho que permita conjugar família e profissão. E, então, talvez possamos deixar de lhe chamar “empreendedorismo feminino” e passar a chamar, simplesmente, empreendedorismo.

Lídia Dias

Mãe de dois rapazes. Leitora de ficção, não ficção e livros de receitas. Escrevinhadora de conteúdo e outras coisas.

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