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8 horas de trabalho, 8 de lazer e 8 de descanso

As 8 horas de trabalho, 8 de lazer e 8 de descanso é uma das maiores falácias do mundo atual. Quem dividiu assim o dia em três partes foi alguém que, às 8 horas de trabalho, não teve de acrescentar deslocações para o trabalho, nem teve de limpar e organizar a casa, cuidar dos filhos e tratar de questões administrativas da família. Como é impossível roubar horas de trabalho para fazer as outras coisas que há a fazer, são as horas de lazer e de descanso que são roubadas. Isto claro, sem contar quem faz mais de 8 horas diárias no trabalho, seja porque o trabalhador o exige ou porque quer ficar bem-visto perante o empregador.

Os 22 dias anuais de férias também são constantemente roubados. Apesar de haver faltas justificadas, são muitos aqueles que as evitam por questões económicas, e metem férias quando estão doentes, por exemplo. Além disso, às vezes há tarefas que nos obrigam a meter férias para as conseguir executar, seja ir às Finanças, seja esperar um dia inteiro que nos venham instalar uma rede de internet em casa. Conheço quem meta férias para trabalhar: seja para fazer obras em casa, seja mesmo para fazer biscates e reforçar o orçamento familiar. As férias de idas de avião para destinos paradisíacos só pertence a uma parte da sociedade, que vive numa bolha, e que por vezes se esquece que há um país real, de pessoas a sobreviver com ordenados mínimos.

A dedicação oferecida ao trabalho é, na maior das vezes, superior àquela que é oferecida à família e ao lazer. Contudo, desta vez os dedos apontados atacam por todos os lados: porque falhamos enquanto trabalhadores, enquanto pais, enquanto filhos, e também enquanto amigos, que também nos cobram a nossa ausência (quando ser amigo deveria ser compreender tudo isto).

Apesar de eu ser otimista e de referir muitas vezes que temos condições na sociedade em que vivemos que não têm igual no passado, a verdade é que continuamos, de certa forma, tão escravizados como um escravo romano. Nem mesmo, por vezes, há possibilidades de mudar de emprego, quando à nossa volta tudo é mais precário e mais mal pago que o trabalho atual, quando a mobilidade para outra região implica um esforço económico impossível de acarretar.

Talvez, por isso, nos deixemos levar pela corrente, deixando que a televisã, e agora a Internet sejam o principal meio de escape, a principal forma de lazer, deixando-nos entorpecidos entre séries, telenovelas e reality shows, diretos e reels, na verdade, nada que envolva a nossa atividade e participação, ausentes do diálogo, da discussão, da criação…

NOTA: Este texto foi escrito de acordo com o Novo Acordo Ortográfico

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