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Crónicas

Montemor-o-Vivo

A rua sobe íngreme pela encosta do castelo. Soa o badalar dos sinos à passagem de uma velhota. O sol rebate na cal e faz brilhar o empedrado onde um vaqueiro triste faz restolhar as botas. O taberneiro amachuca o panfleto eleitoral antes de o botar no lixo. População envelhecida, hemorragia de habitantes, falta de oportunidades…

Porque hão-de uns ter mais que os outros? Gerações que não escaparam à pobreza nos vastos hectares de montado das herdades infinitas.

Num planalto isolado, sistemas sonoros bombam tecno progressivo. São os boys que resolvem problemas antigos, regressados de França, Alemanha, Suíça. São as cegonhas graciosas que planam sobre as cabeças de gado que ruminam nos pastos, possantes e bonitas.

Quem ganhar as eleições autárquicas pode fazer a diferença: garantir habitação, emprego, saúde para todos. Salários condignos para que não haja necessidade de ver trabalhar os filhos, e as famílias, forçadas a emigrar para ganhar o suficiente para voltarem para casa.

No Parque Urbano, num pequeno anfiteatro ao ar-livre, o movimento cidadão Montemor-o-Vivo promove um convívio de fim de campanha. São os idealistas, os utopistas, os artistas, cabeças-de-lista-na-lua que, reunidos junto ao poço à entrada da ecopista, criaram um programa eleitoral que pretende devolver a polis à política.

Laboratório de pensar a sociedade, a economia e a ecologia que procura um noivado harmonioso com a gravitas do Alentejo. Promover a cooperativa e a agrofloresta. Regenerar. Fomentar a economia inclusiva. Um perfume de possibilidades que inspira à solidariedade e ao trabalho comunitário e que areja a democracia do conceito que a conota com os tiques dos debates televisivos, em que a opinião do discordante é menosprezada em detrimento do exercício fraternal da política.

São a professora, o motorista do camião do lixo, a ceramista, o desempregado, o académico, o músico, a participarem de forma efectiva – manual – na vida política do município.

É legitimo evocar que não é novidade nenhuma e alertar para a balança eleitoral, o voto estratégico, a perigosa ascensão da direita, o risco a que se expõe a obra já feita. Contudo, os programas eleitorais espelham as ideias uns dos outros, fazendo cavalo-de-batalha, ora da necessidade de espanar o pó acumulado, ora de manter a confiança no partido enraizado na luta antifascista a presidir à câmara há 45 anos.

Nessa noite, doze pessoas do movimento reúnem-se à volta de uma mesa corrida no pátio das traseiras do restaurante À do Tagore, dos sócios Tutul e Jorge, um bangladeshiano, o outro português. O restaurante abriu recentemente na sequência de dois eventos: o término do trabalho sazonal de Tutul numa quinta vinícola e as celebrações do fim do Ramadão na pensão do Mr. Bari, onde Jorge – sócio fundador da cooperativa integral Minga – provou a comida de Tutul.

Acompanha-se ao vivo o resultado das urnas. Filho da terra, o vencedor virá a ser eleito com quatro mil votos, respondendo a um eleitorado que quer apostar nos empresários que virão investir na indústria para trazer progresso.

Até ao momento dos acontecimentos aqui relatados, Montemor-o-Vivo contabilizava vinte e três votos.

Renato Chagas

Nasci em Lisboa. Estudei cinema, actividade em que iniciei carreira profissional. Em 2004, parti para Moçambique e por lá fiquei, tendo integrado de corpo e alma um período áureo de produção cinematográfica na África Austral. Num volte-face, ditariam a curiosidade, o espírito aventureiro, e as regiões por onde me movia, que agarrasse a oportunidade de trabalhar na indústria naval, para a qual implementei e geri entrepostos logísticos em Pemba, Moçambique; Cabinda, Angola; Mtwara, Tanzânia; Durban, África do Sul; Dakar, Senegal; Mombaça, Quénia. Recentemente regressado a Portugal, assentei em Montemor-o-Novo, Alentejo, onde me dedico à escrita de ficção.

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