Alex

Ninguém sabe antecipadamente se haverá ou não um encontro. O encontro é sempre imprevisível, inesperado. Como a felicidade, que já não está onde a procuramos (…) A felicidade aparece de improviso quando não pensamos realmente nela (…) O encontro é em si mesmo um momento de felicidade, de grande intensidade vital. É um momento em que compreendemos algo de nós próprios e do mundo. No encontro sentimos que a outra pessoa nos ajuda a caminhar na direcção correcta. Podemos senti-lo, mesmo que entre nós não haja identidade de opiniões, mesmo que sejamos diferentes (…) Antes, o outro deve ser um pouco diferente. No encontro essa diversidade é preciosa, até porque dá uma nova perspectiva. Sozinhos não teríamos seguido naquela direcção. (…) O encontro não é reconhecer uma identidade ou uma semelhança. É apercebermo-nos que o outro nos completa(…) é fazer um pedaço de estrada em conjunto (…) estamos lado a lado contra uma dúvida ou um inimigo.

in A Amizade, F. ALBERONI

Algumas vezes nos esquecemos de praticar o louvor À Amizade. A vida corre e as pessoas importantes  ficam como que em segundo plano perante as urgências e proximidade do núcleo familiar ou mais chegado. A vida segue.

Se não nos dispusermos a tomar conta das nossas amizades, elas vão ficando em banho-maria e, se já com alguma solidez, aguentam o tempo e aguentam a distância. Sabemos que se dá o caso de estarmos muito tempo sem ver aquele amigo e, quando acontece, está tudo igual, tudo flui como se não tivesse sido interrompido. Essas amizades dão-nos uma serenidade que nos deixa seguir a vida sem a ansiedade da perda e do maior ou menor afastamento. Aquele pilar ali fica, à nossa espera. Os nossos amigos compreendem as nossas impossibilidades, como nós compreendemos as deles. E é tão bom. Dá tanta tranquilidade não ter de andar a justificar a vida. A vida anda connosco e às vezes não vamos todos no mesmo andamento.

Mas de quando em vez, temos de tirar a cabeça da rotina, tão estruturada e espartilhada, para ir dar alimento e buscar nutrição a essas amizades. Não tanto porque tememos que murchem, mas porque é bom lembrar como aquilo nos faz falta e nos alegra, qual festa em tempos de escassez. A refeição excessiva que vem selar o jejum.

A amizade é uma dádiva, um presente da vida que sabe que precisamos de amigos para a poder levar. É diferente do amor que podemos escolher construir (ou não) com a família. A amizade não traz nenhum pressuposto, não traz nada traçado à partida. A família dá-nos um dado adquirido que podemos ou não cultivar. A amizade é escolha e um certo alinhamento de almas que não se explica. Os comportamentos e personalidades pouco ditam nesta conversa.

Eu tenho sorte. Nós temos sorte de termos bons amigos. Todos eles sabem que agora é hora de invocar um em especial. Um que decidiu levantar a cabeça da rotina e impor a lembrança de como é bom estarmos juntos. Esta iniciativa comportou custos reais, materiais, que jamais se poderão traduzir num número. Não ficou à espera da altura certa ou de uma tal oportunidade que haveria de chegar. Fê-la realidade e solo de alegria pura e sem razão, talvez invocando um pretexto que não era mais que isso mesmo, um pretexto. Só precisamos de estar juntos, sem mais nada, sem outras exigências que não a proximidade que nos cola. Teve coragem de criar uma ocasião que todos desejavam, mas para a qual ninguém parecia capaz de avançar, rodopiando na lamentação de oníricos anseios de futuro. Ele tornou-a presente, antes que o tempo avançasse mais que os repetidos lamentos.  Ousou fazer gesto explícito o amor que sente por nós. As demonstrações de amor andam tímidas, perdendo lugar para a crítica e para o julgamento e para as comparações e para as opiniões.  Ele não teve vergonha e esbanjou um grito de amizade, fazendo matéria concreta do sentimento etéreo mas firme que todos temos. Lançou a ocasião e mostrou que a queria preencher connosco.

Ele disfarça este e outros gestos dizendo que se preocupa com o Karma. Na parca dimensão terrena, convenço-me de que gosta genuinamente de dar, dar sem ida e volta, num caminho de único sentido, vítima de ascendente genético com comprovada eficácia.  Se o karma funcionar, é pouco provável que volte a esta dimensão onde os privilegiados somos nós.

Obrigada.

Obrigada.

Obrigada.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

A solidão da pobreza

Next Post

Montemor-o-Vivo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Responsabilidade

Estes últimos dias ganharam protagonismo por um conjunto de notícias que envolvem jovens que foram maltratados,…

Cassilda, o corpo

Velha, enrugada e escondida, ninguém diria que aquela mulher tinha sido motivo de inveja e de raiva para tanta…

O estado a que chegamos

“Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e…