fbpx
Crónicas

Alex

Ninguém sabe antecipadamente se haverá ou não um encontro. O encontro é sempre imprevisível, inesperado. Como a felicidade, que já não está onde a procuramos (…) A felicidade aparece de improviso quando não pensamos realmente nela (…) O encontro é em si mesmo um momento de felicidade, de grande intensidade vital. É um momento em que compreendemos algo de nós próprios e do mundo. No encontro sentimos que a outra pessoa nos ajuda a caminhar na direcção correcta. Podemos senti-lo, mesmo que entre nós não haja identidade de opiniões, mesmo que sejamos diferentes (…) Antes, o outro deve ser um pouco diferente. No encontro essa diversidade é preciosa, até porque dá uma nova perspectiva. Sozinhos não teríamos seguido naquela direcção. (…) O encontro não é reconhecer uma identidade ou uma semelhança. É apercebermo-nos que o outro nos completa(…) é fazer um pedaço de estrada em conjunto (…) estamos lado a lado contra uma dúvida ou um inimigo.

in A Amizade, F. ALBERONI

Algumas vezes nos esquecemos de praticar o louvor À Amizade. A vida corre e as pessoas importantes  ficam como que em segundo plano perante as urgências e proximidade do núcleo familiar ou mais chegado. A vida segue.

Se não nos dispusermos a tomar conta das nossas amizades, elas vão ficando em banho-maria e, se já com alguma solidez, aguentam o tempo e aguentam a distância. Sabemos que se dá o caso de estarmos muito tempo sem ver aquele amigo e, quando acontece, está tudo igual, tudo flui como se não tivesse sido interrompido. Essas amizades dão-nos uma serenidade que nos deixa seguir a vida sem a ansiedade da perda e do maior ou menor afastamento. Aquele pilar ali fica, à nossa espera. Os nossos amigos compreendem as nossas impossibilidades, como nós compreendemos as deles. E é tão bom. Dá tanta tranquilidade não ter de andar a justificar a vida. A vida anda connosco e às vezes não vamos todos no mesmo andamento.

Mas de quando em vez, temos de tirar a cabeça da rotina, tão estruturada e espartilhada, para ir dar alimento e buscar nutrição a essas amizades. Não tanto porque tememos que murchem, mas porque é bom lembrar como aquilo nos faz falta e nos alegra, qual festa em tempos de escassez. A refeição excessiva que vem selar o jejum.

A amizade é uma dádiva, um presente da vida que sabe que precisamos de amigos para a poder levar. É diferente do amor que podemos escolher construir (ou não) com a família. A amizade não traz nenhum pressuposto, não traz nada traçado à partida. A família dá-nos um dado adquirido que podemos ou não cultivar. A amizade é escolha e um certo alinhamento de almas que não se explica. Os comportamentos e personalidades pouco ditam nesta conversa.

Eu tenho sorte. Nós temos sorte de termos bons amigos. Todos eles sabem que agora é hora de invocar um em especial. Um que decidiu levantar a cabeça da rotina e impor a lembrança de como é bom estarmos juntos. Esta iniciativa comportou custos reais, materiais, que jamais se poderão traduzir num número. Não ficou à espera da altura certa ou de uma tal oportunidade que haveria de chegar. Fê-la realidade e solo de alegria pura e sem razão, talvez invocando um pretexto que não era mais que isso mesmo, um pretexto. Só precisamos de estar juntos, sem mais nada, sem outras exigências que não a proximidade que nos cola. Teve coragem de criar uma ocasião que todos desejavam, mas para a qual ninguém parecia capaz de avançar, rodopiando na lamentação de oníricos anseios de futuro. Ele tornou-a presente, antes que o tempo avançasse mais que os repetidos lamentos.  Ousou fazer gesto explícito o amor que sente por nós. As demonstrações de amor andam tímidas, perdendo lugar para a crítica e para o julgamento e para as comparações e para as opiniões.  Ele não teve vergonha e esbanjou um grito de amizade, fazendo matéria concreta do sentimento etéreo mas firme que todos temos. Lançou a ocasião e mostrou que a queria preencher connosco.

Ele disfarça este e outros gestos dizendo que se preocupa com o Karma. Na parca dimensão terrena, convenço-me de que gosta genuinamente de dar, dar sem ida e volta, num caminho de único sentido, vítima de ascendente genético com comprovada eficácia.  Se o karma funcionar, é pouco provável que volte a esta dimensão onde os privilegiados somos nós.

Obrigada.

Obrigada.

Obrigada.

Joana Martins

Sou a Joana, fácil de convencer com Sol, mar (tão cliché e tão verdade), viagens, leituras, aprender, animais, conhecer, pessoas, yoga, crossfit (a aprender a lidar com os meus paradoxos), caminhadas, Arte, boas conversas, amigos, Música (nem toda), amores, chocolate, Filosofia, palavras, Ericeira, Literatura, alimentação saudável, Natureza, bons encontros e uma insatisfação latente em fase de mitigação. Não compreendo quem continua a deitar lixo no chão e no mar. Aviso aos incautos: posso pensar demais...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Botão Voltar ao Topo
%d bloggers like this:

Adblock Detectado

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.