Crónicas

Se não for desta, será da outra

Mais um ano que chega. Dias, semanas, meses que desfilam como se fossem modelos numa passadeira encarnada onde o espectador é quem se aventura. Cada dia é uma nova forma de estar, uma postura que se renova e uma vontade de tudo agarrar.

Saltam os planos, o querer fazer, o desejo de continuar, o que ainda há para conquistar. O sonho não se evapora e quer comandar a vida, não se esquece do delineado e coloca os olhos em quem ainda o acredita.

As caixas de querer estão num lugar confortável e acolhedor, apenas esperando quem as venha abrir. O impossível ganha terreno e conquista os afoitos, os que sabem que as paragens não existem e que a pernas continuam a caminhar. O querer é como um bordão que apoia e auxilia no atalho que se escolher.

É mais uma contagem que chega e outra que se fez. Deram-lhe o nome de ano e nele tudo teve lugar e posição. É uma candeia ancestral que ilumina e empurra. É um espaço onde se fazem divisões para que o todo seja perfeito. É apenas tempo e nada mais.

A passagem do oxigénio pelas células dá-lhes energia e impulsiona-as. É o sangue que se renova, o desejo que nunca morre, a continuidade que chama e acena como se fosse um pássaro a cantar e o seu som se tornasse num sono tão maravilhoso que se quisesse assim ficar.

Respirar. Respirar fundo e soltar todas as lágrimas que se foram acumulando. O ano que se finou foi duro, tão duro que parecia ter pedras e alfinetes que se espetavam na carne e na alma. O sangue jorrou sempre, em golfadas fortes e poderosas. Há que saber aceitar a perda e virar a página. A vida continua.

Novos lugares, novas ideias, novos modos de olhar para os memorandos recebidos estão agora disponíveis. Há que saber encontrar os outros prismas da realidade em que se espelha aquilo que ainda há para receber e saborear. Tudo é novo, tal como o caderno que se abre e onde se coloca a data, num gesto cheio de esperança de querer receber apenas as boas e alegres notícias.

A passagem pelo planeta tem matizes que nem sempre agradam, mas são necessárias para que as rodas dentadas do sistema funcionem. Existem sempre gritos mudos que se abafam, alegrias que se fecham e sonhos que nunca conhecem a luz.

O suspiro abana o corpo e faz com que o olhar se mostre pensativo. Falta ainda tanto para fazer e o tempo é tão pouco que não vai ser possível acontecer tudo. Selecciona-se o mais importante. E o resto? Tudo é de maior valor! Não pode ser. E recomeça o pensamento, a vontade de tudo conseguir, de fazer renascer todos os momentos que são cruciais.

E nada de se contar com quem quer que seja. O eu é que sabe, é ele que comanda até ao fim, que conhece a vontade indómita e fascinante de tudo ultrapassar e conseguir. Pois é! Os outros também têm vidas e precisam de se cuidar, mas o eu agora é que conta e sabe. Regressa tudo como num dia luminoso e doce. O sorriso fala por si.

É desta, mas, se não for agora, será da outra.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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