A língua portuguesa nunca foi uma fortaleza. Sempre foi porto. E como qualquer bom porto, aprendeu cedo a acolher. Recebeu palavras como se recebe viajantes — com estranheza, sim, mas também com curiosidade, com a escuta aberta de quem sabe que o mar devolve sempre mais do que leva.
Foi assim que nos chegaram palavras com cheiros de especiarias, com cadências de outros continentes, com sons que ainda hoje ressoam na boca dos que vivem entre margens. “Chá”, do mandarim. “Bangalô”, do hindi. “Mochila”, com raízes no basco. “Lhama”, do quíchua. “Café”, do árabe qahwa. “Samba” e “cafuné” — vindos de África, do Brasil, da convivência com o mundo. Entraram sem pedir licença, porque a língua nunca foi casa de um só dono.
Há quem veja nessa mistura um perigo: a diluição do idioma, a perda da identidade, o risco de esquecermos “como se diz em bom Português”. Mas talvez estejamos a olhar pelo ângulo errado. Porque a língua — qualquer língua — é, acima de tudo, um corpo vivo. Respira, muda, tropeça, cresce, adapta-se. E, como todo corpo vivo, precisa de espaço para abraçar o novo.
Se o idioma é o chão onde pisamos juntos, então que seja fértil, múltiplo, generoso.
Cada termo que adotamos carrega consigo uma história de intercâmbio, de migração, de colonialismo e de resistência. Adotar uma palavra não é apenas adotar um som ou um significado. É acolher também o corpo de quem a diz. É abrir espaço para histórias que durante muito tempo foram silenciadas.
Tomemos como exemplo a palavra “bué”. Um simples advérbio de intensidade — “muito” — usado com naturalidade por milhares de jovens em Portugal. Mas esse “bué” vem carregado. Vem do quimbundo, língua bantu falada em Angola. Chegou com os retornados, com os filhos da diáspora, com os que trouxeram no sotaque a travessia e no vocabulário o peso do passado colonial. Entrou no idioma com naturalidade, como tantas outras palavras. Mas não foi acolhido da mesma forma.
Durante anos, “bué” foi desautorizado, classificado como erro, visto como linguagem de rua. O que incomoda não é a palavra — é o corpo racializado que a pronuncia. É a classe social que a carrega. É a memória colonial que ainda hoje a sociedade portuguesa hesita em encarar.
Ora, ninguém contesta quando se diz “adega” (do grego e do latim) ou “balé” (do francês). Mas “bué” continua a vir com um asterisco invisível: “atenção, esta palavra denuncia de onde vens”. Está nas músicas, nas conversas, nas escolas — mas raramente no ensino formal, nos concursos públicos, nas mesas onde se decide o que é ou não é Português legítimo.
O preconceito linguístico nunca é só sobre palavras. É sobre quem as diz. É sobre exclusão. É sobre uma ideia de língua que serve como instrumento de hierarquia e de poder, e não como ponte de comunicação.
Mas uma língua que se quer viva precisa de coragem para crescer. Uma língua que escuta, que acolhe, que se deixa atravessar pela pluralidade, é uma língua que não teme o outro — porque reconhece no outro uma parte de si.
Talvez seja essa a revolução mais silenciosa, mas mais profunda, que acontece hoje no Português: perceber que cada palavra incorporada é um gesto político. É um “sim” ao diverso. É um “sim” à memória. É um “sim” à justiça.
E no fim, talvez o Português tenha isso mesmo a nos ensinar: que ser língua é, essencialmente, ser ponte. E uma ponte, para cumprir sua função, precisa tocar margens diferentes.
Que sejamos, então, uma língua que abraça. Que não tema o novo. Que saiba que há bué de mundo por descobrir — e bué de gente por escutar.
Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Português do Brasil.
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Uau! Obrigada, querida!!