Verdades Inconvenientes

Já é a terceira volta de Simão no hipermercado. A comparação de preços parece eterna; aqui, o tempo é um pequeno preço a pagar para a sua saúde orçamental.

Lá fora, do outro lado do passeio, chegam cinco carros blindados. Os carros das pontas libertam os seus passageiros, apressados, de cara séria. O alvo é o centro da comitiva, o carro do meio, o transporte de figuras públicas, eventualmente decisores. Este narrador tem olho para o comportamento humano, trata-se do Ministro das Infraestruturas e do Ministro do Ambiente desta rica república, conhecido pelas suas obras na metrópole e esquecimento das áreas rurais. Chega, também, a hoste dos seus adeptos, assim se comportam, mas o acompanhamento de sempre é sinónimo de luta, da reivindicação de melhores políticas ambientais para tentar salvar o país e o planeta.

A chegada tumultuosa retira Simão da sua tarefa. Estava tão absorvido, que não percebeu a chegada da comitiva automóvel, mas a sua mente foi suficientemente sensível às palavras de ordem das dezenas de pessoas que chegam ao outro lado da rua, bem a tempo de mais uma inauguração. Talvez vá espreitar o que se passa lá fora, depois das compras feitas. Para já, a zona dos frescos é mais importante do que a agitação lá de fora.

O discurso começa. Os cumprimentos habituais, a felicidade pela cooperação meteorológica, os contratempos vencidos para a obra terminar. Um parque de estacionamento completamente novo, lotação de dois mil lugares bem no centro da cidade, que permitirá mais engarrafamentos, menos tempo em casa, mais poluição para as poucas pessoas que vivem no centro (claro está que a última parte da frase não foi dita pelos nossos ministros). É o tempo das vaias e dos gritos de protesto, é o tempo para a comunicação social pôr as suas questões aos dois ministros que garantem mais obras para o escoamento de trânsito na cidade, mais transportes públicos, mais, mais, mais. Tudo, menos o que interessa.

Simão e outros já tomaram as suas decisões. Nas caixas para pagamento, a população sabe o que tem a fazer, sabe as escolhas que necessita de enfrentar. Simão conhece os efeitos poluentes da massificação da agropecuária, mas tem de comprar carne; o peixe está demasiado caro. A (pouca) fruta que leva tem origem em Espanha ou França, apesar de reconhecer a necessidade de comprar de produtos portugueses. Simão sabe, também, que o seu carro está perto dali. O transporte público não é opção para os subúrbios, apesar dos gastos para o próprio e para o ambiente deste tipo de trajeto. Simão reconhece que poderia estar inserido no grupo de protesto, mas prefere mais tempo em família.

Os custos imediatos na luta pelo ambiente são altos para a maioria da população mundial. Falamos de custos económicos ou temporais, mas são custos, ainda assim. Aparentemente, a luta pela salvação do nosso planeta, uma das lutas mais dignas que podemos ter ao longo da nossa existência, pode ser, também, um luxo a que não nos podemos dar.

Será que a preocupação ambiental pode ser algo que todos podemos ter? Será que não é um luxo que só algumas classes sociais podem ter? Se o ordenado mal dá para pagar as contas, como é que uma família pobre se pode preocupar com o ambiente e fazer escolhas ambientalmente conscientes?

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