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Os gémeos de Auschwitz

Na passada semana, celebrou-se o aniversário, o 75ª, da libertação dos prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz. O exército soviético resgatou as pessoas que ainda se encontravam naquele local de reclusão. Uma marca da História recente que jamais pode ser apagada ou negada. Quem por lá esteve e lhe sobreviveu, sabe como foi real e duro e quem lá trabalhou, teve o máximo de cuidado para não deixar marcas das atrocidades que foram cometidas.

A zona foi escolhida por apresentar uma mais valia: já tinha os edifícios de tijolo, alinhados e certos para o que se pretendia. Era um local de penalização e cumpria a função a que se destinava. Por outro lado, a localidade gozava duma situação estratégica adequada pois situava-se entre dois rios, o que facilitava a movimentação e circulação de todos.

O que aconteceu continua bem vivo na memória dos que conseguiram superar tudo e as provas físicas foram colocadas, propositadamente, para que, quem queira visitar o espaço, saiba que tudo foi conforme se contou. Ou muito pior. Aconteceu num tempo estranho.

Foi criado um museu que leva o visitante ao tempo certo e ao local como se fosse apenas um espectador. Não existem actores, que o guião não foi escrito por eles, mas as marcas que continuam coladas a tudo soam a vozes que perturbam e impelem a continuar.

Entende-se que a dignidade das pessoas que aqui morreram jamais pode ser recuperada, mas o seu legado não deve nem pode ser esquecido. Por mais doloroso que seja, há que saber olhar e tentar perceber como é que estas acções foram legitimadas e aplaudidas.

Os sapatos estão acumulados e basta olhar para eles para se tentar imaginar que foram calçados por alguém de carne e osso e que essa pessoa foi usada até à exaustão. Os cabelos, amontoados em peso, às toneladas, são os restos de quem conseguiu, mesmo assim, viver. São as provas. Estas não podem negar o testemunho dos acontecimentos.

E tanto mais pode ser visto. Existe uma equipa que se dedica a analisar malas e a conhecer as suas histórias e viagens. São, na verdade, vidas que se extinguiram e que devem ser estudadas para evitar erros futuros. As lições devem ser aprendidas e ensinadas aos vindouros.

Quando se deu a libertação deste campo de concentração, em Janeiro de 1945, restavam ainda 2819 pessoas que tiveram o condão de aguentar os rigores do clima bem como as experiências dos nazis. O mais grave é que 180 crianças conseguiram, apesar de tudo, ultrapassar as situações atrozes praticadas em nome de ciência.

Josef Mengele, um médico, tinha um certo fascínio por gémeos e todos os que chegavam, vindos nos vários comboios, eram logo separados das restantes crianças e aliciados com refeições completas e brinquedos. No entanto durava pouco tempo esta espécie de alegria. Logo que os sentia aptos para o seu objectivo, começava a tortura.

Eram usados para experiências científicas onde lhes injectavam tinta nos olhos, o que os cegava. Depois arrancava-lhes os olhos e colocava-os, expostos, na parede da sala. Outras vezes retirava o sangue dum irmão e colocava no outro, o que lhes provocava febres que os levavam à morte. Sempre em nome da evolução e do conhecimento.

Como se não fosse suficiente, usava clorofórmio nuns quantos e retirava-lhes os órgãos, estando eles ou elas ainda vivos. Certos horrores soam a inferno e a diabo só que aconteceram na Polónia no século XX. Foi um sem fim de barbaridades que se cometeram, entre aquelas paredes, em nome de raças puras, supremacia, ciência e outros nomes que nada tinham de humano.

O seu interesse era entender como funcionava a genética, como é que os irmãos se comportavam perante as mesmas circunstâncias. Como se sabe o que acontecia, à porta fechada, nada tinha de salutar. Ele queria ter a certeza se os irmãos morriam ao mesmo tempo e por isso usou as cobaias humanas que tinha à sua disposição. Fez daquele campo de concentração um laboratório humano.

Podia acrescentar tanto, mas estou em crer que estes exemplos são mais do que suficientes. Quem ignora, ou finge ignorar estas situações, deve andar de olhos fechados e costas viradas para a realidade. O museu retrata a vivência e narra os acontecimentos, a crua verdade dos factos. Apenas isso.

Era muito bom que todos tivessem a possibilidade de visitar um local deste valor histórico, pelo menos uma vez na vida. Seria necessário que fossem equipados de sensibilidade e de prévio entendimento. Para tal as mochilas são desnecessárias, mas a empatia é primordial. Só assim podem compreender como o ser humano foi capaz de ser tão cruel para com o seu semelhante.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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