Silêncio

O Silêncio é de Ouro.

Ditado tão batido e tão verdadeiro. Tão mais verdadeiro. Tão cada vez mais verdadeiro. É de ouro porque nos protege, nos arreda dos disparates que possamos dizer, que, mesmo que nasçam de boas e esclarecidas intenções, no virar dos dias se esmoronam em faltas de sentido. Coisas tão acertadas hoje se estatelam em absurdos no chão de amanhã.

Nestes dias, parece-me só o Silêncio estar à altura do que sinto, do que vejo. As palavras estão tão gastas que, em certas ocasiões, dizê-las é só deteriorá-las mais, condenando-as a não trazerem algo de novo, não acrescentarem informação, condenando-as à inutilidade. As palavras estão aquém dos acontecimentos. Gastámo-las.

Há coisas tão óbvias que intuir-se-ia não ser necessário dizê-las. Há coisas tão sabidas que seria desperdício de recursos repeti-las. Mergulha-se num marasmo intelectual que se recusa a mastigar a realidade por via do entendimento, de uma razão capaz de digerir e produzir novos argumentos.

Talvez seja este um momento em que o verbo seja Fazer e não Falar. Quando as águas estão calmas, podemos relaxar no seu acolhimento, vemos o fundo do rio, as pedras, alguma vida subaquática (ainda), olhamos as margens e podemos discorrer sobre a vida, o que nos atormenta, deixamo-nos ir relaxadamente na corrente. O pensamento espraia-se, encontra espaço, sentido. Mas se as águas estão revoltas, turvas, não nos vamos pôr a reflectir – sempre com palavras – temos de nadar, tomar decisões rápidas que nos ponham em segurança. Os pensamentos que possamos ter são agora de curto prazo e – esperamos – de grande utilidade. Nada de grandioso. Útil. No ócio pensamos; na tempestade, agimos. A tempestade é o choque eléctrico contra a letargia da bem aventurança.

Só apetece o silêncio.

Segue a história:

“ Era uma vez um  fazendeiro chinês. Um dia, um dos seus cavalos fugiu. Seus vizinhos aproximaram-se, comentando como aquele acontecimento era um infortúnio. O fazendeiro respondeu: “pode ser”.

No dia seguinte, o cavalo que fugiu voltou, trazendo com ele sete cavalos selvagens. Os vizinhos apareceram novamente, dizendo que isso era uma grande sorte. O fazendeiro respondeu: “pode ser”.

Depois disso, o filho do fazendeiro tentou domar um dos cavalos selvagens e caiu, partindo uma perna. Os vizinhos vieram lamentar o ocorrido, dizendo que aquilo era uma desgraça. O fazendeiro respondeu: “pode ser”.

No dia seguinte, apareceram oficiais do exército com a missão de recrutar soldados, mas não levaram o filho do fazendeiro devido à sua perna partida. Os vizinhos logo acorreram para aplaudir aquela sorte, e o camponês respondeu: “pode ser”.

Hoje sinto a palavra redundante. Logo eu que a gosto tanto, que lhe aprecio os jogos, os enredos. Hoje só o silêncio me acolhe. Nada do que diga estará à altura do que preciso dizer.

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